Os factos:

No Verão de 1931, após o assassinato a 15 de Abril desse ano de Giuseppe "Joe the Boss" Masseria (um dos primeiros chefes da máfia siciliana de Nova Iorque) ordenado pelo seu "tenente" Charles "Lucky" Luciano, a culminar uma série de tentativas de conquista do poder no crime organizado que ficaria conhecida como a "Guerra de Castellammarese", Salvatore "Little Caesar" Maranzano, da família Bonnano, organizou formalmente a Cosa Nostra nova-iorquina em cinco grandes famílias que já existiam no terreno: Bonanno, Colombo, Gambino, Genovese e Lucchese.

Tornando-se líder máximo das cinco famílias e passando a autointitular-se "capo di tutti capi" ("chefe dos chefes") Maranzano traiu o acordo que fizera com "Lucky" Luciano, que o ajudara a organizar o assassinato de Masseria em troca da igualdade entre os chefes das famílias. Por ordem de Luciano, Maranzano foi liquidado a 10 de Setembro, e as cinco famílias (inicialmente acrescidas dos líderes dos núcleos homólogos de Chicago e Buffalo) passaram a reunir-se num órgão colegial, a Comissão, onde tomavam decisões em conjunto sobre as suas actividades. Nessa e nas duas décadas seguintes, as cinco famílias italo-americanas do crime organizado estenderam os negócios ao estado de New Jersey, ao Massachusetts, ao Connecticut, ao sul da Flórida, ao Nevada (Las Vegas), à Califórnia e ao Canadá.

marlon brando

Perseguida pelas autoridades de forma mais intensa e sistemática a partir dos anos 70, a máfia nova-iorquina foi vendo os seus principais chefes, "sottocapos" (chefes-auxiliares) e "caporegime" (capitães) morrer ou condenados a penas longas, o que reduziu a sua força. Porém, os descendentes da maioria das famílias originais ainda se mantém em actividade.

O filme:

Vito Andolini Corleone (Marlon Brando, de origem anglo-irlandesa e germânica ao contrário do que o apelido sugere) é o veterano patriarca, de origem siciliana, de uma das mais importantes famílias do crime organizado dos EUA em 1945, sob a fachada de um negócio de importação de azeite. Após sobreviver in extremisa uma tentativa de assassinato, Michael, o seu filho mais novo (Al Pacino, filho de imigrantes italianos e neto de habitantes de Corleone, a aldeia de origem de Don Vito na ficção), um veterano medalhado da Segunda Guerra Mundial e o único dos descendentes que sempre procurou distanciar-se dos negócios da família, aceita ajudar o pai, liquidando dois dos responsáveis pelo atentado. Forçado ao exílio na Sicília natal, Michael regressa para aceitar a sucessão na liderança dos Corleone, após o assassinato do primogénito de Vito, Sonny (James Caan, actor judeu de ascendência alemã) e o reacender da guerra entre os clãs da máfia nova-iorquina. No final da acção, em 1955, Michael tornar-se-á um incontestado 'capo di tutti capi', tomando o lugar do pai.

Baseado no "best-seller" do norte-americano de origem italiana Mario Puzo, "O Padrinho" foi um dos primeiros blockbusters (êxitos de bilheteira domésticos e planetários) da era moderna de Hollywood, surgindo invariavelmente desde fins dis anos 70 nos lugares de topo das listas de "Melhores Filmes de Todos os Tempos".

Os direitos de adaptação cinematográfica foram adquiridos pelo executivo da Paramount Pictures Peter Bart quando o livro ainda não existia e era apenas um longo sumário de 20 páginas da intriga. Todos os participantes principais na produção de 1972 da Paramount, então liderada por um controverso ex-actor de segunda categoria, Robert Evans (que viria a tornar-se um dos mais bem sucedidos directores da história do estúdio), foram terceiras ou quartas escolhas.

O realizador Francis Ford Coppola, então sem qualquer êxito no currículo, só aceitou a tarefa porque precisava de dinheiro para cobrir as perdas na produção do filme de estreia do amigo George Lucas, "THX 1138", e estava no fim da lista de Evans, após as negas de Peter Bogdanovich, Sergio Leone, Otto Preminger, Franklin J. Schaffner, Sidney J. Furie, Richard Brooks, Elia Kazan, Costa-Gavras e Fred Zinnemann. Mesmo assim, Coppola aceitou o trabalho de forma reticente, já que achava que o filme iria sublimar a Máfia e a violência - como aconteceu -, mas percebendo que o projecto poderia funcionar - como funcionou - enquanto alegoria do capitalismo: a primeira frase da longa-metragem, de um comerciante que pede ajuda a Don Vito, é "I believe in America. America has made my fortune" ("Eu acredito na América. A América fez-me rico").

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Al Pacino - que o estúdio tratava por "o anão" - só foi escolhido pela teimosia de Coppola (a Paramount preferia Robert Redford ou Ryan O'Neal) e Marlon Brando era visto à época como 'veneno nas bilheteiras' após sucessivos flops nos anos 60, não obtendo trabalho em projectos nos EUA: os primeiros candidatos para o papel de Vito Corleone foram Laurence Olivier, Edward G. Robinson, Anthony Quinn, Ernest Borgnine e o produtor Carlo Ponti.

O realizador Francis Ford Coppola, então sem qualquer êxito no currículo, só aceitou a tarefa porque precisava de dinheiro para cobrir as perdas na produção do filme de estreia do amigo George Lucas, "THX 1138"

Com um orçamento inicial de 2,5 milhões de dólares, depois aumentado para 6 milhões, "O Padrinho"fez 134,9 milhões nas bilheteiras norte-americanas e 245 milhões a nível mundial, para além dos recorrentes revivals e das receitas televisivas e de vídeo doméstico acumuladas nos últimos 46 anos. Rodado em mais de 100 décors reais de Nova-Iorque, estreou em Nova-Iorque a 15 de Março de 1972 e em Portugal a 24 de Outubro do mesmo ano.

Quase inteiramente baseado nos factos e episódios verídicos de numerosas figuras da História da mafia de origem siciliana de Nova-Iorque, dos anos 1930 aos 1960, "O Padrinho" adopta, para efeitos estéticos e de construção dramática, uma sofisticação glamorosa e uma amplitude trágica em diálogos, comportamentos, vestuário e ambientes que ultrapassa em muito a sordidez pedestre do universo real do percurso da Cosa Nostra nos EUA. Porém, a fidelidade ao percurso das personagens verdadeiras desse universo é inegável.

Mario Puzo, autor do romance que inspirou o filme e coargumentista de "O Padrinho", admitiu em entrevistas que escreveu o livro "inteiramente a partir das pesquisas" que fez sobre a Máfia. "Nunca conheci um gangster verdadeiro". Porém, há importantes acontecimentos e figuras do livro/filme que se baseiam em famílias mafiosas reais e na sua actividade criminosa durante os anos 40 e 50.

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Nenhuma família da Cosa Nostra é directamente reproduzida em "O Padrinho", mas há uma amálgama de todas elas. Para começar, enquanto que na vida real cinco grandes famílias dominavam o crime organizado a partir de Nova Iorque desde os anos 30 - os Genovese, os Gambino, os Colombo, os Lucchese e os Bonanno - , são também cinco as Famílias de "O Padrinho": os Corleone, os Tattaglia, os Barzini, os Cuneo e os Stracci. Tanto os Tattaglia fictícios como os verdadeiros Gambino eram conhecidos por se 'especializarem' na prostituição. No entanto, o seu líder, Philip Tattaglia (interpretado por Victor Rendina) foi baseado em Tommy Lucchese, não em um dos membros dos Gambino. A 'Comissão', que a dado momento surge na intriga de "O Padrinho", é uma reprodução directa da Comissão mafiosa real (ver acima "o facto"), onde as disputas entre os clãs eram discutidas e resolvidas.

Don Vito Corleone é um compósito de vários 'notáveis' das cinco famílias de Nova Iorque. Morreu de ataque cardíaco em casa, como Joseph Bonnano, e o negócio de fachada - o comércio de azeite - era o mesmo de Joseph Profaci. Já a extensão da  influência assemelha Vito Corleone a Carlo Gambino - ambos tinham uma notória relutância em envolver-se no tráfico de droga ("Deal and die", é lema de um e outro). Como Vito (com Fredo, Sonny, Connie e Michael), também Carlo Gambino tinha três filhos e uma filha.

Mas a figura do crime organizado com quem Vito mais se assemelha é Frank "The Prime Minister" Costello, dos Genovese: nasceram com um ano de diferença (Costello em 1891, Vito em 1892), ambos faziam depender o seu poder dos contactos políticos e da capacidade negocial, ambos preferiam a via do diálogo, levada ao limite, com o derramamento de sangue como último recurso, ambos fizeram fortuna com o contrabando de álcool durante a Lei Seca e, mais tarde, com o jogo em Las Vegas e Cuba e, sobretudo, ambos foram vítimas de atentados e sobreviveram (Vito em 1945, Costello em 1957). O próprio Marlon Brando baseou o tom de voz e a entoação de Vito Corleone em Costello, que ouvira depor na televisão em 1951, no âmbito da Comissão Especial do Senado presidida por Estes Kefauver. Ao contrário de Vito Corleone (e de Carlo Gambino), Frank Costello foi preso várias vezes e apanhado nas investigações do FBI.

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Já o exílio forçado de Michael Corleone na Sicília em 1945/46 mimetiza a fuga e exílio temporário de Lucky Luciano em 1937, após as autoridades obterem provas de que este tinha ordenado o assassinato de um cúmplice. Além disso, tal como Vito com Michael, também o pai de Salvatore "Bill" Bonanno o enviou para a faculdade de Direito na esperança de que o filho ficasse à margem dos 'negócios' familiares, mas Salvatore acabou por envolver-se na actividade criminosa do clã.

Quanto aos restantes filhos de Don Vito, Mario Puzo inspirou-se, entre outras figuras menores, em "Crazy" Joe Gallo. Sonny Corleone é baseado em "Crazy" Joe e Fredo é o 'tonto' (como Michael Gallo), além de Michael ser o mais inteligente e ponderado (tal como Larry Gallo). Depois de ver o filme, "Crazy" Joe Gallo ponderou processar Mario Puzo e a Paramount por 'roubar' detalhes da sua vida. Não teve tempo para levar a ameaça avante: foi assassinado a 7 de Abril de 1972, menos de um mês depois da estreia de "O Padrinho".

Quanto à famosa caracterização do percurso do cantor de charme Johnny Fontaine a partir das verídicas e conhecidas ligações perigosas de Frank Sinatra com a Máfia - como relata, por exemplo, "Rat Pack Confidential" de Shawn Levy -, tanto Puzo como Coppola apressaram-se a negar as semelhanças. No entanto, elas existem: tanto o imaginário Johnny Fontaine como o crooner Frank Sinatra tiveram as carreiras salvas graças a filmes de um grande estúdio - Sinatra através do papel de Angelo Maggio em "Até à Eternidade" (1953, com o qual conquistaria o Óscar de Melhor Actor Secundário) por, segundo várias fontes, a influência de um amigo mafioso junto de Harry Cohn, então director da Columbia. Mas não há provas dessa influência: tudo indica que foram, antes, o preço módico da contratação do cantor/actor (então com a carreira na mó de baixo, participando no filme por apenas 8 mil dólares) e os pedidos da mulher de Sinatra à época, Ava Gardner, que convenceram Cohn.

De acordo com o livro "Codes of the Underworld: How Criminals Communicate" (2009), do sociólogo italiano Diego Gambetta, existem vários gangues criminosos em Itália que ainda usam o filme como ferramenta de treino.

Apesar de tudo, as semelhanças aumentam através da importância de Luca Brasi (o antigo guarda-costas e wrestlerLenny Fontana) na libertação de Fontaine do seu compromisso com uma big band: de acordo com notícias da época, Sinatra teria conseguido desligar-se da banda de Tommy Dorsey, uma das mais populares dos anos 40, graças à 'influência' de Willie Moretti, sottoccapo dos Genovese e primo de Frank Costello. O próprio Sinatra nunca acreditou em coincidências; quando, após a difusão de "O Padrinho", lhe apresentaram Puzo num restaurante, Sinatra, furioso, insultou-o.

Também alguns dos homicídios encenados no filme apresentam fortes semelhanças com a realidade. Além do assassinato de Moe Green se basear no do célebre mafioso Benjamin "Bugsy" Siegel, Michael encontra-se com os conspiradores da tentativa de homicídio do pai num restaurante italiano; vai à casa de banho buscar a arma aí escondida, regressa e baleia ambos. Em 1931, o chefe de Lucky Luciano encontrou-se com ele num restaurante italiano; quando Lucky foi à casa de banho, dois homens de mão de Masseria, feitos com o gangster, entraram no restaurante e balearam o chefe mafioso.

Há um outro nível em que a realidade se poderá ter misturado com a ficção de "O Padrinho". Ao contrário do que Coppola sempre negou - nomeadamente numa entrevista radiofónica a Howard Stern em Maio de 2009 - e segundo a autobiografia do director da Paramount, Robert Evans, "The Kid Stays in The Picture", haveria membros da Máfia nova-iorquina contratados como extras e consultores do filme.

Segundo notícias da época, Sinatra teria conseguido desligar-se da banda de Tommy Dorsey, uma das mais populares dos anos 40, graças à 'influência' de Willie Moretti, sottoccapo dos Genovese e primo de Frank Costello. O próprio Sinatra nunca acreditou em coincidências; quando, após a difusão de "O Padrinho", lhe apresentaram Puzo num restaurante, Sinatra, furioso, insultou-o.

O líder mafioso Joe Colombo e a sua organização de 'direitos civis', a Italian-American Civil Rights League, lançaram uma dura campanha para impedir a produção de "O Padrinho". Evans relata mesmo que Colombo lhe telefonou para casa e ameaçou a sua família por a longa-metragem ser 'anti-italiana'.

O produtor de "O Padrinho", Albert S. Ruddy, ter-se-á reunido com Colombo, acedendo a algumas alterações no guião e ao recrutamento de figurantes e 'consultores'. O proprietário da Paramount, Charles Bludhorn, ao ter conhecimento do acordo, cancelou-o, mas foi o próprio Evans que o persuadiu a levar avante o combinado, para evitar mais problemas.

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Também a assistente de Ruddy nesse tempo, Betty McCartt, relataria que o seu patrão fora avisado pela polícia de que andava a ser seguido, tendo encontrado uma noite o carro com os vidros abertos e uma nota onde se podia ler "Cancelem o filme ou então...".

Certo é que a adesão dos membros italo-americanos do crime organizado a "o Padrinho" foi generalizada e entusiástica. Radiantes por se ver retratados como anti-heróis de fato completo, código de honra inflexível e tiradas certeiras, reproduziram as frases mais icónicas do filme durante gerações (várias buscas e escutas da polícia e do FBI nas décadas seguintes relataram a popularidade de "O Padrinho" I e II no seio dos verdadeiros mafiosos, com cassetes e cópias dos filmes a serem frequentemente encontradas). Salvatore "Sammy the Bull" Gravano, ex-capo da família Gambino, louvou publicamente o filme, e Paulie Intiso e Nicky Giso, membros da família Patriarca, passaram a falar com a voz e o sotaque de Vito Corleone.

De acordo com o livro "Codes of the Underworld: How Criminals Communicate" (2009), do sociólogo italiano Diego Gambetta, existem vários gangues criminosos em Itália que ainda usam o filme como ferramenta de treino.

Algumas curiosidades:

  • Ao contrário da percepção popular, Marlon Brando não utilizou bolas de algodão no interior da boca para encher as bochechas e reforçar o característico tom de voz. Fê-lo apenas na audição - que Coppola fingiu ser um teste de maquilhagem, uma vez que o estúdio estava então decidido a não contratar Brando - e, na rodagem, utilizaria uma prótese especial feita por um dentista, hoje em exibição no Museum of the Moving Imageem Queens, Nova Iorque.
  • Apesar de o director de arte, Dean Tavoularis, garantir que as laranjas que surgem no filme são apenas um recurso para clarear a fotografia sombria de "O Padrinho", sempre que elas surgem no enquadramento, prenunciam uma morte na acção.
  •  Marlon Brando não memorizou a maioria das suas linhas de diálogo, lendo de cartões instalados no décor.
  • O filme estreou na televisão, na NBC, ao longo de duas noites de 1974: 16 de Novembro, sábado, e 18 de Novembro, uma segunda. As autoridades municipais que gerem a água da cidade de Nova Iorque relataram alguns problemas de inundações devido a tantas descargas de sanita em simultâneo durante os intervalos da emissão.
  • A realizadora Sofia Coppola, filha de Francis Ford, nasceu durante a rodagem de "O Padrinho". Interpretaria dois papéis na saga: como bebé, enquanto Michael Francis Rizzi, o primogénito de Michael Corleone, na cena do baptismo; e como Mary, a filha de Michael Corleone em "O Padrinho III".
  • Elvis Presley, fã incondicional do romance de Mario Puzo, pediu para fazer uma audição para o papel de Tom Hagen (depois interpretado por Robert Duvall), embora o maior sonho fosse ser Vito Corleone no cinema.
  • A famosa cena da descoberta de uma cabeça de cavalo, por um produtor de Hollywood, na cama da sua mansão não se baseia em qualquer acontecimento real (embora a cabeça utilizada na cena fosse verdadeira). Em 2008, em 'homenagem' à sequência, um grupo de mafiosos deixou uma cabeça de burro à porta de um padeiro de Villafranca Padovana, Itália, como aviso por este não lhes pagar uma verba acordada para protecção da padaria.
  • A contagem de mortes em "O Padrinho" indica 18 óbitos (incluindo o cavalo).

Avaliação do Polígrafo:

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