O facto: A 18 de Maio de 1936, Sada Abe, uma empregada de restaurante japonesa, estrangulou até à morte o dono do estabelecimento onde trabalhava, Kichizo Ishida, cortando-lhe o pénis e os testículos, no bairro de Ogu, em Tóquio. Apanhada dois dias e meio depois pela polícia numa pensão de Shinagawa, noutro distrito da capital, Abe confessou os crimes de imediato, revelando os órgãos íntimos de Ishida, que guardara no seu quimono.

Depois de conhecer Ishida após começar a trabalhar em Fevereiro de 1936 no restaurante deste,  o Yoshidaya, no distrito de Nakano, Tóquio, Abe e o proprietário iniciaram uma relação em meados de Abril, fortemente marcada por uma mútua dependência sexual, que levaria o par a sessões de vários dias na cama, com jogos de prazer que incluíam a asfixia, até ao estrangulamento fatal que, segundo Abe, fora sugerido por Ishida.

Após recuperar de uma sessão de asfixia erótica que o debilitara, Ishida automedicou-se, adormecendo. Motivada - segundo o testemunho depois prestado ao tribunal - pelo amor que sentia por Ishida, ao ponto de não o querer partilhar com mais ninguém (o amante era casado) e de desejar guardá-lo junto de si para sempre, Abe decidiu-se pelo homicídio e pelo corte do sexo de Ishida com uma faca de cozinha.

Condenada a seis anos de prisão - cumpriria apenas 5 - por homicídio em segundo grau e usurpação de cadáver, Abe tornou-se rapidamente uma celebridade nacional, numa mistura de símbolo libertário feminino e escape mediático em época de forte agitação política no país, então sob um regime de subjugação militar.

Sada Abe, uma ex-geisha e prostituta com vida difícil desde a adolescência, escreveria uma autobiografia relatando o seu percurso e a paixão intensa por Ishida, inspirando peças de teatro, poemas, contos e romances. Tornou-se gerente de um bar em Tóquio durante duas décadas até desaparecer do olhar público em 1970. A data da sua morte é desconhecida.

O filme:

Inspirada no que ficou conhecido como "O Caso Sada Abe", "O Império dos Sentidos" é uma longa-metragem de 1976 dirigida pelo japonês Nagisa Oshima ("Contos Cruéis da Juventude", "Feliz Natal, Mr. Lawrence"), de produção franco-japonesa.

A acção decorre em 1936, Tóquio, onde Sada Abe (interpretada por Eiko Matsuda, que terminaria a curta carreira em 1982, vindo a falecer de um tumor cerebral em 2011, aos 58 anos) é empregada no hotel/bordel de Kichizo Ishida (Tatsuya Fuji, hoje com 77 anos, que faria carreira no Japão depois de dois anos sem ofertas de trabalho após a estreia de "O Império dos Sentidos"). Cedendo aos avanços do patrão casado, Abe começa a passar cada vez mais tempo a fazer amor com Ishida, terminando ambos por nunca sair do quarto onde se fecham para longas maratonas de sexo. A possessividade cresce, o perigo das experiências com asfixia aumenta e, entre a exaustão e o tácito consentimento, Abe estrangula o amante e corta-lhe o pénis e os testículos. No final, uma legenda indica que Abe foi encontrada nas ruas após "passar vários dias com o pénis dele dentro dela".

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Incluindo cenas de nudez e de sexo explícito - incluindo a masturbação de um velho, uma sapatada no pénis de um miúdo, fellatio, penetração e um ovo na vagina da personagem feminina/actriz principal que é devorado a seguir pelo protagonista -, o negativo do filme foi transferido para França para aí poder ser editado, uma vez que as imagens de genitália (masculina e feminina) ou de sexo real eram proibidas no Japão.

Com estreia mundial na Berlinale, Alemanha, em Fevereiro de 1976, a apresentação de gala de "O Império dos Sentidos" deu-se a 15 de Maio seguinte no Festival de Cannes, onde gerou de imediato controvérsia - a curiosidade em seu torno provocou um número (ainda hoje) recorde de visionamentos de imprensa: 13. No Japão, foi exibido com um apagamento da zona genital - processo comum no território - em todas as cópias.

A obra foi inicialmente banida nos EUA e na Grã-Bretanha (onde seria exibida em 1978 no circuito de cineclubes, estreando oficialmente nos cinemas comerciais apenas em Março de 1991), com a versão integral, sem cortes, a continuar proibida ou limitada em vários países. Também por isso, existem pelo menos cinco versões distintas, variando entre os 94 minutos da "versão reconstruída", de classificação "com acesso reservado para os adolescentes", e os 109 minutos do original.

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Inteiramente rodada em Quioto, no Japão, estreou sem cortes em Portugal, com grande êxito, em Outubro de 1976. A reacção mais controversa deu-se 15 anos mais tarde, após uma exibição em horário nocturno na RTP. Na ocasião, o bispo de Braga à época, D. Eurico Dias Nogueira, declarou que tinha "aprendido mais em dez minutos de filme do que na minha vida inteira".

Existem mais cinco versões cinematográficas - e uma estritamente pornográfica, protagonizada pela estrela asiática da especialidade Asa Akira - do Caso Sada Abe, a primeira das quais, "A Woman Called Sada Abe", de Noboru Tanaka, estreada menos de um ano antes de "O Império dos Sentidos".

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Apesar de toda a controvérsia pública e mediática em torno das cenas hardcore, protagonizadas pelo duo de actores protagonistas, "O Império dos Sentidos" é extremamente fiel, em espírito e forma, aos factos do Caso Sada Abe, respeitando tanto os motivos de obsessão sexual e possessão amorosa invocados por Abe no seu testemunho perante o tribunal em 1936 e na sua autobiografia, como as circunstâncias do homicídio e usurpação do cadáver de Kichizo Ishida a 18 de Maio desse ano. Apenas alguns detalhes divergem, pela concentração de tempo e espaço necessária à unidade dramática e tendo em vista sublinhar a mise en abymeamorosa e sexual do par:

- O encontro e progressivo reconhecimento de Kichizo Ishida e Sada Abe deu-se, não no hotel/bordel deste (como o filme sugere), mas no restaurante de sua propriedade.

- A escalada sexual aconteceu em vários encontros ao longo de três meses em locais diferentes, não num único lugar.

- Há pequenas diferenças no episódio - verídico - do que Abe escreveu, com o sangue da emasculação, no cadáver de Ishida: na realidade, ela traçou "Nós, Sada e Kichizo Ishida, estamos sós", na coxa esquerda dele, completando com a inscrição do nome dela no braço esquerdo de Ishida; no filme, Abe escreve apenas com o sangue de Ishida no peito deste: "Sada e Kichi - os dois para sempre".

Avaliação do Polígrafo:

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