O facto: A 7 de Outubro de 1970, William Hayes, um estudante norte-americano de Long Island, hoje com 71 anos, foi detido no aeroporto de Istambul, Turquia, quando tentava regressar aos EUA com 1,8 quilos de haxixe escondidos.

Billy foi de início condenado a quatro anos e dois meses de prisão, que cumpriu parcialmente na penitenciária de Sagmalcilar, na capital turca. Em 1972, um incidente na prisão levou a que as autoridades o transferissem para o hospital psiquiátrico de Bakirkoy, nos arredores de Istambul, sob nova pena, agora de prisão perpétua. A 12 de Maio de 1975, o Tribunal Constitucional do país decretou uma amnistia para todas as condenações relacionadas com drogas, reduzindo assim a pena de Hayes para 30 anos. A 11 de Julho, Hayes seria transferido para a prisão de Imrali, uma pequena ilha no mar de Mármara, entre o mar Negro e o Egeu.

Apesar da hipótese - depois confirmada por documentos, entretanto desclassificados, de conversações entre representantes dos governos turco e norte-americano - de aceder à liberdade condicional em Outubro de 1978, Billy Hayes conseguiu fugir da prisão de Imrali a 2 de Outubro de 1975, escapando durante noite num bote até Bandirma, no noroeste da Turquia, e atravessando a fronteira com a Grécia. Após várias semanas de detenção e interrogatório, Billy acabaria por ser deportado de Tessalonica para Frankfurt, de onde regressaria aos EUA, mais de cinco anos após ser detido no aeroporto.

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Actualmente sedeado em Los Angeles, Billy Hayes escreveu uma autobiografia em 1977, "Midnight Express" (calão prisional para "tentativa de fuga"), e publicou uma recolha das cartas que enviou à família e aos amigos durante o período de encarceramento, "The Midnight Express Letters - From a Turkish Prison 1970-1975", tornando-se um actor, realizador e argumentista de segunda linha. A partir de Agosto de 2013, começou a viajar pelo mundo com o seu one-man show, "Riding the Midnight Express with Billy Hayes".

O filme:

A 6 de Outubro de 1970, no final de umas férias na Turquia com a namorada Susan (a norte-americana Irene Miracle), Bill Hayes (Brad Davis, nascido na Flórida em 1942 e falecido de sida, contraído por via intravenosa, aos 41 anos; conquistaria o Globo de Ouro de Melhor Actor por este papel) é detido no aeroporto de Istambul com dois quilos de haxixe presos em redor da cintura

A célebre cena da visita de Susan à prisão - quando esta, através do vidro de protecção, se despe, mostrando os seios ao namorado e levando-o às lágrimas - nunca aconteceu.

Depois de tentar negociar um acordo em troca da identificação do taxista que lhe vendera a droga, Billy é enganado pela polícia e por um misterioso americano de nome Tex. Espancado e enfiado na prisão de Sagmalcilar, na capital turca, verá a pena inicial de 4 anos por possessão convertida em 30 anos por tráfico pelo Supremo Tribunal de Ancara.

Após tentar escapar com outros dois prisioneiros, Jimmy (Randy Quaid) e Max (o britânico John Hurt), Billy será longamente torturado. Quando arranca a língua de um dos seus carcereiros à dentada, é transferido para um hospital psiquiátrico. Já em 1975 e de regresso à prisão, é visitado por Susan. Esta diz-lhe que, caso não escape, acabará por morrer detido na Turquia. Billy tenta subornar o guarda Hamidou, um dos seus torturadores. Quando Hamidou não só recusa como tenta violá-lo, Billy mata-o acidentalmente, conseguindo fugir: uma legenda anuncia que chegaria à Grécia, regressando aos EUA três semanas mais tarde.

Adaptando a autobiografia homónima de Billy Hayes a partir de um guião de Oliver Stone ("Platoon", "Assassinos Natos"), "O Expresso da Meia-Noite" é uma longa-metragem anglo-americana de 1978, dirigida por Alan Parker ("Pink Floyd-The Wall", "Os Commitments") e produzida por David Puttnam ("Momentos de Glória", "A Missão") para a Columbia Pictures.

A rodagem decorreu em Malta, na Grécia e na Turquia, mas esta serviu apenas para a recolha de alguns exteriores (o pedido de autorização para filmar em prisões turcas foi negado). A fortaleza maltesa de Santo Elmo, na capital Valetta, serviu de décor para a prisão de Sagmalcilar.

Com um orçamento de 1,8 milhões de dólares,  "O Expresso da Meia-Noite" seria apresentado no Festival de Cannes do mesmo ano, com a primeira estreia comercial na Grã-Bretanha, a 10 de Agosto de 1978, terminando com uma receita mundial de 35 milhões. Seria proibido na Turquia até 1992, quando uma cadeia privada de televisão decidiu exibi-lo.

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Se a sequência essencial dos factos da detenção e fuga de Bill Hayes são respeitados, tudo o resto é exagerado e hiper-dramatizado pelo argumento de Oliver Stone e pela direcção de Alan Parker. Não apenas Hayes é detido sozinho, e não com a namorada, como as circunstâncias do seu período de cinco anos nas prisões turcas e no hospital psiquiátrico de Bakirkoy são empoladas até limites gratuitos e sensacionalistas - tanto Hayes como Stone, primeiro em entrevistas nos EUA e, já neste século, durante visitas à Turquia, reconheceram os excessos do livro e, sobretudo, do filme no retrato dos turcos e das condições dos seus estabelecimentos prisionais, pedindo desculpas públicas pelo ocorrido (o filme é ainda hoje tido na Turquia como um dos principais motivos para a má imagem do país no Ocidente durante o último quartel do século XX).

  • A célebre cena da visita de Susan à prisão - quando esta, através do vidro de protecção, se despe, mostrando os seios ao namorado e levando-o às lágrimas - nunca aconteceu.
  • Hayes não fugiu a pé de Sagmalcilar, mas de barco da prisão de Imrali.
  • Hamidou, o principal autor das sevícias que Hayes sofre no cárcere durante o filme, não foi morto pelo norte-americano na prisão mas, anos antes, por um antigo prisioneiro que, reconhecendo o autor de vários insultos à sua família quando se encontrava detido, o baleou mortalmente num café de Istambul.

Avaliação do Polígrafo:

 

 

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