• O FACTO

Entre 1979 e 1982, Forrest Tucker, nascido em 1920 e natural da Flórida, EUA, liderou um trio sexagenário de foras da lei, celebrizado como "Over-the-Hill Gang", que levaria a cabo mais de uma centena de assaltos a bancos durante esse período.

Tucker e os seus "associados", John Waller (com quem Tucker se evadiu de forma mirabolante da prisão de alta segurança de San Quentin em 1979 num caiaque improvisado) e Theodore "Teddy" Green, um greco-americano que conhecera nos anos 50 em Alcatraz, chegaram a assaltar perto de 60 bancos num só ano civil. O líder da quadrilha acabaria por ser apanhado pelo FBI na Primavera de 1983, junto à garagem de "Teddy" Green, em West Palm Beach, Flórida. Descrito como muito bem-educado - "um verdadeiro cavalheiro" - pelos próprios empregados e agentes bancários que assaltara, até o júri que o condenou ficou com boa impressão da sua personalidade. Um dos membros desse júri comentou que "temos de reconhecer: o homem tem estilo". Usava sempre uma arma durante os assaltos mas considerava-a "um adereço". Nunca a disparou.

Forrest Tucker foi um delinquente desde tenra idade, tendo sido preso pela primeira vez em 1935, aos 15 anos, por roubar uma bicicleta. As fugas de estabelecimentos prisionais pontuaram a carreira no crime: uma das mais conhecidas (e pitorescas) aconteceu em Novembro de 1956, durante a transferência da icónica Alcatraz para uma prisão mais pequena, após ter enfiado um lápis no tornozelo num hospital de Los Angeles - seria apanhado horas depois, ainda algemado e com a bata de paciente. Segundo o próprio, evadiu-se de prisões 30 vezes - "18 vezes com sucesso, 12 vezes sem".

Tucker foi preso pela última vez em 1999, aos 78 anos, depois de voltar aos assaltos após ter tentado ser professor de clarinete e saxofone. Viria a morrer no cárcere, de complicações cardiovasculares, a 29 de Maio de 2004, em Forth Worth, Texas.

  • O FILME

Baseada num argumento do realizador David Lowery e do jornalista da "New Yorker" David Grann, guião que adapta o artigo de Grann, "The Old Man and the Gun",  publicado nessa revista, (David Grann é também autor dos textos de investigação da "New Yorker" que inspirariam os filmes de 2016 "A Cidade Perdida de Z", de James Gray, e "Crimes Sombrios", de Alexandros Avranas, este também actualmente em exibição em Portugal), "O Cavalheiro Com Arma" é uma longa-metragem de 2018 sobre a vida e actividades criminais de Forrest Tucker, interpretado pelo veterano actor e realizador Robert Redford, cuja interpretação do bandido sexagenário lhe valeu uma nomeação de Melhor Actor nos Globos de Ouro (os jornais norte-americanos da especialidade comentam uma possível nomeação para os Óscares, cuja cerimónia está prevista para o próximo dia 25 de Fevereiro).

roberto Carlos

Rodado no Texas e no Ohio, coproduzido pela Condé Nast e distribuído pela 20th Century Fox, o filme foca-se sobretudo nos meses de 1981 em que os assaltos de Tucker e do seu gangue se multiplicaram. Enquanto os foras da lei são perseguidos por um polícia texano, John Hunt (Casey Affleck, Óscar de Melhor Actor por "Manchester by the Sea"), o relato surge em tom picaresco, mimetizando-se a estética de certas obras dos anos 70 (rodada em 16mm, é uma homenagem tanto a Redford como a uma época crucial de explosão de talentos na "Nova Hollywood"), com flashbacks para alguns dos momentos cruciais do - por vezes hilariante - percurso de Tucker e destaque para o relacionamento deste com Jewel Centers (Sissy Spacek, de "Noivos Sangrentos" e "Carrie", Óscar de Melhor Actriz em 1980 por "A Filha do Mineiro"), viúva com uma pequena quinta a seu cargo.  Com receitas de 11,2 milhões de dólares nas bilheteiras dos EUA (dados de 6 de Janeiro), "O Cavalheiro com Arma" estreou em Portugal a 3 de Janeiro 2019.

Alertando logo no arranque para a abordagem que irá adoptar - há uma legenda inicial onde se lê "esta história é verdadeira na sua maior parte" - "O Cavalheiro Com Arma" segue com rigor o percurso criminal de Forrest Tucker (sobretudo no período de inícios dos anos 80) mas toma várias liberdades ficcionais quanto à vida pessoal do ladrão de bancos, glamorizando atitudes e omitindo factos.

Além das idades verídicas serem corrigidas para uma adaptação à estrela protagonista, conhecida por raríssimas vezes revelar um lado sombrio nas personagens que interpretou em mais de meio século como actor - Tucker tinha 61 anos à data da maioria dos factos narrados, mas é caracterizado como um septuagenário e interpretado por Redford com 81 anos à data de rodagem, sublimando-se o seu humor e coragem -, as mentiras conjugais e  boa parte das ausências paternais são retiradas da ficção.

roberto Carlos

Outras "liberdades criativas":

  • Forrest Tucker foi casado três vezes mas, ao contrário do que o filme expõe, nenhuma das mulheres sabia que ele era ladrão de bancos até o ver na prisão. Quando conhece Jewel Centers, que viria a tornar-se em 1982 a sua terceira e última mulher,  Tucker finge ser um abastado corretor de seguros, e Jewel só descobrirá a verdade após casar e ele ser de novo detido. No filme, Tucker revela-lhe ser assaltante uma hora depois de se conhecem, insistindo num relacionamento verdadeiro, sem dissimulações.
  • Na vida real, Tucker abandonou a primeira mulher, Shirley Storz, depois de anos ocultando-lhe (tinham casado em Setembro de 1952) a sua verdadeira identidade - dizia-lhe ser Richard Bellow, um reconhecido compositor. Deixou-a com o escasso património de ambos todo penhorado e um filho de cinco meses, Rick, a quem pouco ligaria no resto da vida.
  • Por razões provavelmente ligadas à actual atmosfera politicamente correcta da produção audiovisual nos EUA, o greco-americano "Teddy" Green, um dos três membros do "Over-the-Hill Gang", é interpretado por um actor negro, Danny Glover.

Avaliação do Polígrafo:

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