O facto:

Em 1927, o Barão Georg von Trapp, antigo capitão da Marinha austríaca condecorado na Primeira Guerra Mundial, casou com uma jovem professora, Maria Augusta Kutschera, noviça da Abadia de Nonnberg, um mosteiro beneditino em Salzburgo. Viúvo - a primeira mulher morrera de escarlatina em 1922 -, o barão tinha sete filhos e um deles - uma rapariga, também de nome Maria- ficou a cargo temporário da noviça, que acabaria por educar os restantes seis.

Em 1935, o arcebispo da cidade destacou o padre Franz Wasner como capelão da família. Wasner tornou-se instrutor musical dos Trapp, ajudando à constituição do coro familiar. Quando a soprano alemã Lotte Lehmann ouviu os Trapp cantar, incentivou-os a dar concertos. A partir de 1935, o Coro da Família Trapp conheceu um êxito crescente mas, em Setembro de 1938, meio ano depois da anexação da Áustria pela Alemanha nazi e após Georg ser pressionado a ocupar um alto posto na Marinha do Terceiro Reich, os Trapp fugiram para Itália, acabando por emigrar para os Estados Unidos.

Na América, o êxito artístico aumentou mais: enquanto "Trapp Family Singers", fizeram digressões nos EUA e no Canadá, fixando-se no Vermont, onde criariam uma estalagem e um campo de treino para jovens músicos.

Georg von Trapp morreu em 1947. Maria faleceria quarenta anos mais tarde, após uma autobiografia, a edição de discos do coro e várias condecorações pelo trabalho artístico e filantrópico.

O filme:

Adaptando o musical da Broadway "The Sound of Music", de 1959, baseado na longa-metragem alemã de 1956 "Die Trapp-Familie", de Wolfgang Liebeneiner (por sua vez inspirada no livro de memórias de Maria von Trapp, "The Story of the Trapp Family Singers", publicado em 1949), "Música no Coração", com o seu arsenal de boas-intenções e rol de temas fáceis ao ouvido, é a quintessência do filme natalício.

Narrando a história de Maria (a inglesa Julie Andrews, vencedora um ano antes do Óscar de Melhor Actriz por "Mary Poppins"), candidata a freira num mosteiro de Salzburgo que é recrutada para cuidar dos sete filhos rebeldes do barão Georg von Trapp (o canadiano Christopher Plummer), um viúvo capitão reformado da Marinha austríaca, "Música no Coração" tornou-se um dos maiores êxitos mundiais de sempre, conquistando dez nomeações e cinco estatuetas nos Óscares de 1966.

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Descrevendo a forma como Maria arrebata o coração do barão e do seu rebanho de filhos - todos escapando dos nazis, que tinham acabado de anexar a Áustria, num final climático após uma performance no Festival de Música de Salzburgo que culminará, já nas imagens do genérico, com uma fuga pelas montanhas rumo à liberdade -, a longa-metragem de 172 minutos acumulou 286 milhões de dólares de receita para um orçamento de 8,2 milhões. Estreou em Portugal a 10 de Janeiro de 1966, sendo por regra exibida na RTP durante o Natal há mais de três décadas.

Muitos dos factos essenciais do percurso de vida de Maria e Georg von Trapp são respeitados em "Música no Coração", mas outros foram alterados ou 'romanceados' para efeitos melodramáticos ou de economia narrativa.

Maria foi contratada em 1926 para tomar conta de apenas um dos sete filhos de George (uma menina, também de nome Maria). Quando, menos de um ano depois, Georg lhe propôs casamento, Maria, cheia de dúvidas, regressou à Abadia de Nonnberg, pedindo conselhos à então Madre Superiora, Virgilia Lutz. A sua ideia era tornar-se freira e, embora tenha acabado por aceitar o matrimónio, frisou mais tarde na sua autobiografia que "gostava dele, mas não o amava. Amava as crianças; portanto, de algum modo, casei com elas". O início do relacionamento verídico esteve, assim, muito longe do idílio passional retratado no filme, e o casamento deu-se onze anos antes de abandonarem a Áustria, não pouco depois da anexação nazi.

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Ao contrário do exposto no filme, quem tinha um feitio calmo e gentil era Georg, não Maria, muito dada a explosões de ira e mau-humor, tal como descreveria uma das suas enteadas em entrevista à revista norte-americana "Opera News" em 2003.

Mesmo no que respeita ao gosto pelas melodias e à carreira coral da família, embora Georg e os miúdos gostassem de cantar e Maria lhes tenha ensinado madrigais, um impulso importante foi dado pelo reverendo Franz Wasner - mais tarde reitor de um colégio no Vaticano -, indigitado capelão dos Trapp em 1935 após Georg perder toda a fortuna, que transferira de Londres para um banco austríaco, gerido por um amigo, Frau Lammer, entretanto falido pelas ondas de choque do crash bolsista de 1929, que se prolongariam pelos anos 30 (Georg seria forçado a dispensar os criados e a alugar quartos na mansão; Wasner tornar-se-ia director musical dos Von Trapp durante 20 anos).

Quando Maria e Georg von Trapp partiram da Áustria em 1938, viviam na penúria e  tinham já mais duas filhas, estas agora em comum: Rosmarie, de 9 anos, e Eleanore, de 7 (um terceiro, um rapaz, Johannes, nasceria um ano depois). Não o fizeram pelas montanhas, como o epílogo do filme sugere com algum dramatismo triunfal, mas de comboio até Itália, já com um contrato na mão para uma série de concertos no estado de Pensilvânia, EUA.

Algumas curiosidades:

 

  • Maria von Trapp nasceu num comboio tirolês, a caminho do hospital em Viena. Ficou órfã de pai e mãe aos dez anos.
  •  Numa visita à Alemanha, no Verão de 1938, os Von Trapp conheceram Hitler num restaurante em Munique.
  • Quase 20 anos depois de a família se fixar nos Estados Unidos, Maria e três dos filhos tornaram-se missionários na Papua Nova-Guiné, em 1957.
  • Dois dos dez filhos da família, Rupert e Werner, lutaram como soldados norte-americanos contra os nazis durante a Segunda Guerra Mundial. No decorrer do conflito, a antiga mansão dos Trapp em Salzburgo serviu como quartel-general de Heinrich Himmler na Áustria.
  • Em 1973, Maria cantou "Edelweiss", uma das canções mais célebres do filme, com Julie Andrews no showtelevisivo da actriz na ABC, "The Julie Andrews Hour".
  • Desde 2012, existe uma Praça Maria von Trapp (Maria Trapp-Platz), em Donaustadt, o maior distrito municipal de Viena.

Avaliação do Polígrafo:

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