O facto:

Em 1962-63, Frank Anthony Vallelonga Sr. (1930-2013), um italo-americano de raízes proletárias do Bronx, segurança na noite nova-iorquina e mais conhecido por Tony "Lip", recebe um convite após perder o emprego no clube Copacabana para conduzir e acompanhar o músico e intérprete de jazz Donald Walbridge Shirley (1927-2013), um afro-americano de origem jamaicana a viver num luxuoso apartamento por cima do Carnegie Hall, durante várias digressões, organizadas pela Columbia Artists para audiências exclusivamente brancas e totalizando um ano e meio, pelo sul profundo dos Estados Unidos.

Tony era, como a maioria dos membros da sua comunidade à época, racista relativamente aos negros, mas a convivência com Shirley ao longo de quase 18 meses por estados conhecidos pelo segregacionismo feroz, em que assistirá à repetida humilhação - e mesmo à agressão física - do pianista, irá alterar as suas convicções. Após a viagem, Tony "Lip" e Don Shirley nunca mais perderão o contacto, tornando-se amigos para a vida.

A partir de inícios dos anos 70, "Lip" tornou-se actor, estreando-se como figurante em "O Padrinho" (1972) de Francis Ford Coppola. Participaria em 27 filmes e séries de TV, incluindo obras de Michael Cimino, Martin Scorsese e um papel secundário em "Os Sopranos", como o chefe mafioso Carmine Luppertazi.

O filme:

"Green Book- Um Guia Para a Vida", longa-metragem de 130 minutos dirigida por Peter Farrelly ("Doidos Por Mary", "O Amor é Cego") e nomeada em 2019 para cinco Óscares - incluindo o de Melhor Filme -, conta a história da viagem de seis semanas de Tony Lip (o dinamarquês Viggo Mortensen) e Don Shirley (o norte-americano Mahershala Ali) pelo sul da América, que transformará a percepção do primeiro relativamente à intolerância racial activa em boa parte do país.

O título refere-se ao verídico "The Negro Motorist Green Book", um guia de viagens destinado aos condutores afro-americanos que indicava os hotéis e restaurantes onde estes eram acolhidos e tolerados (em muitas cidades dos EUA até meados dos anos 60, havia um "período de recolha" nocturno obrigatório para os cidadãos negros, a partir do qual não podiam circular livremente; vendendo cerca de 15 mil exemplares anuais, o livro deixou de ser publicado apenas em 1966).

A partir de um guião de Farrelly e de Brian Hayes Currie coescrito por Nick Vallelonga, filho de Tony "Lip", com um orçamento de 23 milhões de euros e produzido pela Dreamworks e pela Participant Media, o filme estreou a 18 de Novembro nos EUA, tendo arrecadado 42,4 milhões de dólares nas bilheteiras mundiais (dados de 17 de Janeiro). Em Portugal, estreou esta semana.

cine-check

"Green Book - Um Guia Para a Vida" segue fielmente os factos e as características físicas, psicológicas e sociais do percurso do relacionamento entre Tony "Lip" e Don Shirley. A única liberdade narrativa relevante é a compressão temporal das viagens de ambos pelos EUA e Canadá ao longo de 18 meses numa única digressão de seis semanas pelo estados norte-americanos do sul. Porém, os eventos mais importantes - a proibição de comer e pernoitar em certos hotéis e restaurantes, as agressões a Shirley num bar, os seus modos aristocráticos e o refúgio no álcool (uma garrafa de whisky diária) para mitigar a solidão, o episódio de agressão de Tony a um polícia, o telefonema do pianista a Bobby Kennedy (então procurador-geral), a ajuda de Shirley a Tony na escrita das cartas à mulher deste ou a detenção de Shirley num YMCA após ser descoberto em flagrante com um desconhecido num chuveiro (a homossexualidade do músico seria mantida em segredo enquanto foi vivo) - são reproduzidos com respeito à realidade, depois acrescidos do tom, ora humorístico, ora melodramático, do relato ficcional. O filme baseia-se numa série de conversas de Nick Vallelonga com o pai e Don Shirley gravadas ao longo de vários anos.

Avaliação do Polígrafo:

 

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