O facto:

Após a sua empresa de hortifruticultura entrar em sérias dificuldades devido ao arranque dos negócios de flores online no final dos anos 90, Leo Sharp, um veterano da Segunda Guerra Mundial, originário de Detroit, com quinta nos arredores de Michigan City, EUA, decide começar a transportar cocaína pelas estradas do Indiana e do Michigan ao serviço do cartel de Sinaloa, liderado por Joaquín "El Chapo" Guzmán. O contacto é feito através de trabalhadores mexicanos da quinta de Sharp, que conheciam outros imigrantes da zona com ligações ao cartel. Inicialmente, o acordo estabeleceu-se para o transporte de dinheiro, passando depois para a droga.

Com a nova actividade, Sharp, então com 76 anos, recuperaria financeiramente a empresa, chegando a mover mais de 200 quilos de cocaína por mês, o que lhe garantia cerca de um milhão de dólares anuais. Não era invulgar os cartéis do México recrutarem indivíduos a partir dos 50/60 anos, com cadastro limpo e que passassem despercebidos, para deslocar cocaína ou heroína por via terrestre nos Estados Unidos.

Ao fim de uma década de sucesso no tráfico de droga, Sharp, que começara a ser investigado pela DEA (Drug Enforcement Administration), acabaria por ser capturado a 21 de Outubro de 2011 por Jeff Moore, antigo polícia do Kansas e agente desde 2004 daquela agência federal. À data da detenção, Earl Sharp tinha 87 anos.

Condenado a três anos de prisão com circunstâncias atenuantes pela idade e por um princípio de demência confirmado graças a relatórios médicos, Sharp foi posto em liberdade ao fim de um ano, morrendo em 2016.

O filme:

Em 2005, Earl Stone (Clint Eastwood, de 88 anos), um horticultor octogenário natural de Chicago e veterano da Guerra da Coreia, começa a transportar cocaína pelo Michigan na sua carrinha para o cartel mexicano de Sinaloa, de forma a liquidar as dívidas que se acumulam no negócio. O dinheiro que vai acumulando servirá para recuperar a empresa e tentar ajudar familiares e anónimos, até ser apanhado com 3 milhões de cocaína na bagagem numa operação da DEA - que o tinha sob escuta há algum tempo - liderada pelo agente Colin Bates (Bradley Cooper).

Produzida pela Warner Brothers em colaboração com a The Malpaso Company de Eastwood, a longa-metragem de 116m, dirigida pelo veterano e multipremiado actor e realizador, apoia-se num guião de Nick Schenk ("Gran Torino") baseado no artigo "The Sinaloa Cartel's 90-Year Old Drug Mule" de Sam Dolnick para a New York Times Magazine.

Os contratempos de Earl Stone em "Correio de Droga" são quase todos ficcionados, uma vez que o artigo de Sam Dolnick sobre Leo Sharp não entrava em grandes detalhes quanto às peripécias de Sharp nas suas viagens como traficante.

Com um orçamento estimado em 50 milhões de dólares, "Correio de Droga" estreou-se nos EUA a 16 de Dezembro último, tendo acumulado 100,3 milhões de dólares nas bilheteiras domésticas (97,9 milhões em receitas mundiais até 17 de Janeiro). Em Portugal, estreia hoje, a 31 de Janeiro.

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A adaptação toma grandes liberdades relativamente ao percurso verídico do traficante Leo Sharp. O nome do protagonista foi alterado para Earl Stone, bem como o nome dos outros intervenientes, incluindo o do agente Jeff Moore - agora Colin Bates - e o do célebre "El Chapo" - para Laton, numa interpretação de Andy Garcia.

Na caracterização, Clint Eastwood optou por um compósito de Sharp com o seu próprio avô, agricultor e criador de galinhas nos anos 30. Os locais de origem foram alterados - de Detroit para Chicago e do Indiana para o Illinois e o Texas - e a backstory do protagonista foi criada de raiz para efeitos dramáticos, de forma a dar ênfase a certas atitudes e motivações.

Tanto a vida familiar como os percalços que Leo Sharp/Earl Stone enfrenta na sua actividade "complementar" ao longo do filme são ficcionais:

  • Ao contrário do que o filme relata, o verdadeiro traficante, além de se iniciar nessas lides em 1999/2000, cinco anos mais cedo do que o tempo de acção retratado e começando aos 76 anos - não a caminho dos 90 como "Correio de Droga" sugere -, envolveu-se desde o início de forma voluntária com o cartel de Sinaloa (de acordo com o advogado que mais tarde o defenderia em julgamento, Darryl. A. Goldberg) através de trabalhadores mexicanos da sua propriedade. No filme, Sharp/Earl Stone não conhece a princípio o conteúdo da mercadoria que transporta, obtendo o contacto dos dealers através de um convidado no brunch matrimonial da neta.
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  • Em "Correio de Droga", Earl Stone está há anos longe da ex-mulher, Mary (interpretada por Dianne Wiest, duas vezes vencedora do Óscar de Melhor Actriz Secundária); na realidade, a mulher de Leo Sharp chamava-se Ann, tinha menos 3 anos do que o marido - e não 18 como descrito no filme - e mantiveram-se juntos e casados até à morte de Leo; tinham três filhos em comum, não apenas uma filha (Alison Eastwood, filha de Clint Eastwood com Margaret Neville Johnson).
  • Os contratempos de Earl Stone em "Correio de Droga" são quase todos ficcionados, uma vez que o artigo de Sam Dolnick sobre Leo Sharp não entrava em grandes detalhes quanto às peripécias de Sharp nas suas viagens como traficante. O filme encena Stone a ser ameaçado por um membro do cartel, que lhe aponta uma arma, envolvendo também o veterano em ménages a trois; num artigo da "Salon", reproduz-se um testemunho de Leo Sharp onde este confessa que o seu único imbróglio com a justiça até à detenção de 2011 aconteceu "no México quando filmei uma prostituta".

Avaliação do Polígrafo:

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