O facto:

Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade de Casablanca, como grande parte de Marrocos, integrava um protectorado francês. A zona que sobrava do país, sobretudo a norte, era parte do território colonial espanhol. Entre 1940 e 1942, na sequência da ocupação de França pelas forças nazis, Marrocos passou a ser maioritariamente controlado pelo regime gaulês de Vichy, sob domínio germânico, até à invasão aliada de 8 de Novembro de 1942. A gestão dos aliados, em colaboração com Maomé V, sultão de Marrocos desde 1927,  manter-se-ia até ao termo da guerra. Em Março de 1956, e após a França ter retomado o controlo do território do norte de África durante mais uma década, Maomé seria coroado rei de Marrocos e o país conquistaria a sua independência.

Entre meados dos anos 30 e o final da Segunda Guerra Mundial, Marrocos serviu de entreposto para alguns refugiados europeus, em fuga ao avanço do regime nazi e das tropas do Eixo, mas foi um ponto de passagem secundário para a liberdade, nomeadamente rumo aos EUA. Londres era o destino prioritário, e Lisboa, capital de uma nação que optou pela neutralidade, era ponto mais frequente de passagem e de acolhimento temporário. Os refugiados europeus que chegavam a Casablanca encontravam péssimas condições, dormindo em salões de dança ou armazéns.

A partir de 1940, agravando o antissemitismo que há muito já se sentia na islâmica Marrocos, foram aplicadas leis pelo governo de Vichy que impediam os judeus com qualificações académicas de trabalharem, a propaganda antissemita intensificou-se, e milhares de judeus que tentavam sair do país foram colocados em campos de trabalhos forçados.

casablanca

A ideia para "Everybody comes to Rick's", a peça que daria origem ao filme "Casablanca", escrita por Joan Allison, dramaturga, e Murray Burnett, um professor de liceu nova-iorquino, começou a formar-se quando Burnett e a mulher, numa viagem pela Europa em 1938, ficaram impressionados com o grau de animosidade antissemita em Viena, pouco depois da anexação alemã da Áustria, contrastando com a boa-disposição multicultural que encontraram num clube noturno no sul de França, onde um pianista negro animava uma mistura de autóctones, turistas, exilados e refugiados da Europa central e de leste.

Se certas fontes referem o bar do Cinema Vox, um cineteatro de Tânger, como a inspiração para o Rick's Café da peça e o futuro night-clube ninho de espiões de "Casablanca", o modelo mais provável terá sido o Caid's Piano Bar do Hotel El Minzah, igualmente em Tânger, Marrocos (tanto o hotel como o bar mantêm-se em funcionamento). Porém, o conceito inicial da peça colocava a acção em Lisboa, não Casablanca, precisamente pela acrescida verosimilhança.

A 8 de Dezembro de 1941, um dia depois do ataque japonês a Pearl Harbor que marcaria a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, a Warner Brother's começou a avaliar a possibilidade de produzir um filme a partir da peça "Everybody Comes to Rick's". Duas semanas mais tarde, Hal B. Wallis, o director de produção da major(as majorseram os grandes estúdios do período clássico de Hollywood) deu luz verde ao projecto, mudando o título para "Casablanca" (três anos antes, "Algiers", de John Cromwell, adoptara já um título considerado 'exótico', tornando-se um êxito para a Warner). O resto é história. Mas até que ponto a história corresponde aos factos da época?

O filme:

Com a acção decorrendo entre Junho de 1940 em Paris, imediatamente antes da ocupação nazi (através de flashbacks do par protagonista) e Dezembro de 1941 em Marrocos, durante a administração francesa de Vichy com a rédea curta do Terceiro Reich,  "Casablanca", talvez a mais popular ficção clássica de Hollywood, encena o triângulo amoroso entre o expatriado Rick Blaine, interpretado por Humphrey Bogart (Rick foi expatriado por motivos que nunca se conhecem, pela simples razão de que os argumentistas nunca encontraram um pretexto convincente para o facto), um falso cínico com alma de idealista que lutou contra Franco na Guerra Civil espanhola, Ilsa Lund (a sueca Ingrid Bergman) e o líder resistente checoslovaco Victor Laszlo (o austro-húngaro Paul Henreid).

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O palco principal é o Rick's Café, night-club do protagonista onde se negoceiam livre-trânsitos de acesso aéreo a Lisboa, passo decisivo para a liberdade fora da Europa ocupada. No final do primeiro acto da intriga, Strasser, um major das SS (o alemão Conrad Veidt, ele próprio um exilado na vida real, forçado a sair da Alemanha pelas suas simpatias antinazis e em função do casamento com uma judia) chega a Casablanca com o objectivo de impedir a fuga de Laszlo.

Reflectindo o ambiente político da época, apenas três dos actores creditados no genérico desta longa-metragem, dirigida em 1942 por Michael Curtiz (também ele nascido no antigo império austro-húngaro, em Budapeste, nome verdadeiro Manó Kaminer), tinham origem norte-americana: Bogart, Dooley Wilson (intérprete do pianista Sam) e Joy Page.

Exemplo arquetípico de que os acidentes e o acaso são indissociáveis da história da criação de quase todos os grandes filmes (teve pelo menos meia-dúzia de argumentistas, que batalhariam depois pela autoria das sequências, cenas ou diálogos mais inesquecíveis; houve fortes limitações de produção ditadas pelo esforço de guerra

Uma fatia considerável dos figurantes eram refugiados da Alemanha nazi - muitas das lágrimas na célebre cena de "A Marselhesa" são genuínas - e boa parte dos actores principais tinha emigrado para os EUA para fugir do jugo de Hitler ou da tensão e violência na Europa (incluindo Henreid, Veidt, Peter Lorre - outro húngaro, Laszlo Lowenstein de nome de baptismo -, Marcel Dalio e Madeleine Lebeau, estes últimos casados e refugiados da França ocupada).

Produzido pela Warner por um milhão de dólares, "Casablanca" teve antestreia em Nova Iorque a 26 de Novembro de 1942, aproveitando o timing da invasão aliada do Norte de África, com um lançamento no resto do território a 23 de Janeiro de 1943, que renderia cerca de 4 milhões de dólares nas bilheteiras. Nomeado para oito Óscares, conquistaria em 1943 os de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento. Em Portugal, estrearia apenas a 17 de Maio de 1945, três meses e meio antes do final da Segunda Grande Guerra.

"Casablanca" é uma brilhante fantasia vagamente baseada em circunstâncias históricas.

Exemplo arquetípico de que os acidentes e o acaso são indissociáveis da história da criação de quase todos os grandes filmes (teve pelo menos meia-dúzia de argumentistas, que batalhariam depois pela autoria das sequências, cenas ou diálogos mais inesquecíveis; houve fortes limitações de produção ditadas pelo esforço de guerra; verificou-se o desdém dos principais intervenientes, que o consideravam um divertimento um pouco pateta), não tem uma única imagem da Casablanca real, sendo rodado integralmente no  estúdio (à excepção da chegada do Major Strasser, encenada no aeroporto Van Nuys, arredores de Los Angeles) onde, 52 anos mais tarde, se filmariam os interiores do Community General Hospital da série televisiva "Serviço de Urgência". O único membro do elenco que conhecia Casablanca era Dooley Wilson.

Casablanca

Utilizaram-se décors de outros filmes - o "Rick's Café" foi dos raros cenários construído de raiz - e miniaturas em cenas cruciais, como o clímax no aeroporto, onde o avião que levará Lazslo e Ilsa até Lisboa é um modelo de cartolina, com anões a abastecê-lo nos planos gerais para que pareça maior.

Há  vários erros técnicos: o modelo do avião germânico que transporta o major Strasser é um Fokker holandês e, no flashback parisiense, Rick menciona canhões que os alemães nunca utilizaram na Segunda Guerra Mundial(...) Embora algumas das cenas mais importantes do filme mostrem soldados e oficiais nazis, não havia tropas fardadas do Terceiro Reich em Casablanca.

Ao contrário de Londres ou de Lisboa, Marrocos não era um destino prioritário de passagem de refugiados, e os cidadãos ou estrangeiros judeus não podiam circular na cidade sem limitações. Sobretudo, as cartas de livre-trânsito são o que se costuma designar como macguffin- um pretexto dramático que faz avançar a acção, sendo irrelevante a sua sustentação real. Criadas pela dramaturga Joan Allison, foram mantendo-se até à versão final do argumento embora nunca tenham existido em Marrocos. Mais: Ugarte (Peter Lorre), que contrabandeia os livre-trânsito até ser apanhado, diz em "Casablanca" que eles eram assinados ora pelo general Maxime Weygand, responsável pelas colónias africanas no regime de Vichy, ora por Charles de Gaulle. Weygand deixou o cargo que ocupava antes de Dezembro de 1941, o tempo de acção de "Casablanca" em Marrocos, e o general De Gaulle, enquanto líder do governo francês no exílio, não teria qualquer poder para passar salvo-condutos nos territórios ocupados pelos nazis.

Além disso, há  vários erros técnicos: o modelo do avião germânico que transporta o major Strasser é um Fokker holandês e, no flashback parisiense, Rick menciona canhões que os alemães nunca utilizaram na Segunda Guerra Mundial.

Embora algumas das cenas mais importantes do filme mostrem soldados e oficiais nazis, não havia tropas fardadas do Terceiro Reich em Casablanca.

casablanca

Algumas curiosidades:

  • Humphrey Bogart, dois centímetros mais baixo do que Ingrid Bergman (ele tinha 1,73 m, ela 1,75 m), teve de usar plataformas nos sapatos para compensar a diferença, sentando-se em caixas ocultas ou almofadas nas cenas a dois à mesa.
  • Rick Blaine, a personagem de Bogart, é acusado a dado momento pelo comissário Renault (Claude Rains) de traficar armas para a Etiópia, servindo as forças de resistência locais contra a invasão do país pela Itália em 1935. Nas primeiras dobragens italianas de "Casablanca", a frase de Renault passou a ser "Você contrabandeia armas para a China".
  • Vários amigos e colegas de Bogart e Bergman confirmaram que, apesar de o par conversar pouco fora da rodagem, um e outro achavam que o filme tinha "situações inverosímeis e diálogos ridículos".
  • Dooley Wilson, que interpreta o pianista Sam, não sabia tocar piano. Baterista profissional, as suas interpretações - incluindo a emblemática performance de "As Time Goes By" - foram dobradas pelo pianista Jean Vincent Plummer, que tocou as melodias atrás de uma cortina, em directo. O piano branco de Wilson no filme foi vendido em 2012 por 520 mil euros num leilão em Nova Iorque.
  • "Here's looking at you, kid" foi uma improvisação de Bogart durante as cenas com Bergman em Paris: era uma linha de diálogo sua no drama criminal "Midnight", dirigido por Chester Erskine em 1934, e a estrela achou que funcionaria aqui.
  • O filme só estrearia na Alemanha do pós-guerra em 1952, e com cortes que totalizavam 25 minutos, incluindo a eliminação da cena em que se canta "A Marselhesa" para calar os oficiais nazis no Rick's Café e a transformação do torturado resistente Victor Laszlo num cientista atómico norueguês em fuga da Interpol. O filme seria integralmente exibido na República Federal da Alemanha apenas em 1975.
  • Após a morte de Madeleine Lebeau, a actriz francesa que interpreta a refugiada Yvonne, a 1 de Maio de 2016, não restam sobreviventes do elenco original de "Casablanca".

Avaliação do Polígrafo:

 

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