O facto:

Entre Outubro de 1978 e o início do Verão de 1979, Ron Stallworth, o primeiro agente de polícia e detetive negro de Colorado Springs, estado do Colorado, EUA, conseguiu infiltrar-se no "capítulo" (a célula) local do Ku Klux Klan. Depois de responder a um anúncio de classificados da organização de supremacistas brancos num jornal da cidade, para recrutamento de novos membros na região, Stallworth, então com 25 anos - começara como cadete aos 19 no Departamento Policial de Colorado Springs - foi contactado telefonicamente pelo KKK. Deu o seu verdadeiro nome mas persuadiu um dos responsáveis da célula local de que era um membro branco da comunidade, com desprezo por todas as etnias diferentes da sua e um particular ódio por negros. Convencendo os seus superiores a infiltrarem um colega caucasiano (cuja identidade permanece desconhecida; é apenas nomeado nas memórias de Stallworth como "Chuck", hoje um sargento na reforma) no grupo do KKK da cidade, o colega adoptará a identidade do agente negro no contacto directo. Já Stallworth manterá relações à distância durante nove meses com os supremacistas brancos, chegando mesmo a conversar telefonicamente por diversas vezes com o líder nacional do movimento, David Duke.

Quando "Chuck", o colega e alter-ego, é convidado para líder da célula local do KKK onde se infiltrara, os superiores do Departamento Policial de Colorado Springs decidem terminar a operação, não sem antes identificar vários membros do KKK de Colorado, incluindo militares de uma base da zona, Fort Carson, e dois funcionários superiores do NORAD, o sistema de mísseis nucleares dos EUA.

O filme:

Livremente baseado no livro de memórias de Ron Stallworth, "Black Klansman: a Memoir" (2014, Policed and Fire Publishing), a 23ª longa-metragem de Spike Lee introduz elementos de farsa, imagens verídicas, blacxpoitation (filmes de género, normalmente policiais com grande carga erótica, protagonizados por actores e actrizes negros como heróis da intriga) e montagens musicais na incrível mas real história de Ron Stallworth (John David Washington, o filho mais velho de Denzel Washington no seu primeiro grande papel), um agente afro-americano que consegue infiltrar-se à distância no Ku Klux Klan - com um colega do Departamento Policial de Colorado Springs (Flip Zimmermann, interpretado por Adam Driver) a assumir a sua identidade no terreno, correndo riscos como a utilização de um microfone para gravação das escutas recolhidas.

CINE-CHECK

O filme adopta também o método, tão artístico como militante, de Lee em vários dos seus filmes fundamentais ("Do The Right Thing", "Malcolm X"), entre a denúncia panfletária e a defesa dos direitos da comunidade negra (sobretudo) norte-americana, inspirada na luta pelos direitos civis dos anos 60 e 70. Mais: sublinhando a pertinência contemporânea das divisões raciais e a importância dos factos retratados para o seu olhar cinematográfico sobre a América de Donald Trump (eleito presidente dos EUA a 9 de Novembro de 2016), o epílogo de "Blackkklansman: O Infiltrado" inclui imagens da marcha "Unite the Right", maioritariamente composta por supremacistas brancos, a 12 de Agosto de 2017, em Charlottesville, Virginia, bem como dos confrontos entre adeptos da marcha e opositores, seguidas do comentário de Trump de que "havia gente boa e gente má dos dois lados". Spike Lee estava a editar o filme quando se deram os incidentes, decidindo então encerrar "Blackkklansman" com essas imagens, acrescidas do atropelamento mortal de Heather Heyer, uma manifestante anti-marcha. O filme é dedicado a Heyer, tendo estreado nos EUA a 10 de Agosto de 2018 de forma a assinalar o primeiro aniversário da sua morte.

"Black Klansmann: O Infiltrado" conquistou o Grande Prémio do Júri do Festival de Cinema de Cannes deste ano e é produzido, entre outras empresas audiovisuais, pela 4 Acres and a Mule de Lee e a Monkeypaw Productions do actor, realizador e guionista Jordan Peele (Óscar de Melhor Argumento Original em 2018 por "Get Out"). Com o orçamento modesto - para a média da produção cinematográfica norte-americana - de 15 milhões de dólares, a longa-metragem obteve pelo menos 48,2 milhões nas bilheteiras dos EUA (de acordo com dados de 11 de Outubro 2018) e 25,5 milhões no box officemundial até 19 de Agosto passado. Em Portugal, estreou a 6 de Setembro.

Apesar das enormes liberdades criativas em tom e estilo, além dos intencionais paralelismos com a América contemporânea, "Blackkklansman: O Infiltrado" reproduz com fidelidade os factos decisivos dos nove meses da investigação de Ron Stallworth (incluindo pormenores delirantes mas reais como o facto de Stallworth ter feito protecção policial por um dia a David Duke, ou de ter tirado uma fotografia "de recordação" ao lado do Grande Feiticeiro do Klu Klux Klan). As excepções mais relevantes são:

  • O tempo de acção é antecipado de 1978/79 para 1972, de forma a incluir-se as pretendidas referências aos blaxploitation movies(ver acima) e ao presumível apoio do Klan à recandidatura presidencial de Richard Nixon em 1972.
  • Ron Stallworth, ao contrário da cena de desabafo humorístico no filme, nunca telefonou a David Duke confessando-lhe ser polícia e negro, aproveitando para insultar a ignorância e os preconceitos do líder supremo do KKK. Duke só ficou a conhecer a verdadeira identidade de Stallworth em 2006, quando um repórter do "Miami Herald" lhe telefonou para comentar informações sobre a investigação do polícia de Colorado Springs (apesar de sempre se ter gabado de reconhecer sem falhas "a voz de um preto").
  • O parceiro branco de Stallworth, Flip Zimmerman, na infiltração, que comparecia aos encontros pessoais e às reuniões do KKK, adoptou na realidade o nome de código Chuck. A sua identidade permanece desconhecida. Além disso, não era judeu - Lee tomou essa opção para dar à personagem algo mais (e algo de mais decisivo) em comum com Stallworth: a perseguição étnica.
  • O interesse amoroso de Stallworth no filme, Patrice Dumas (Laura Harrier) activista do movimento Black Power, é uma criação dos guionistas Charlie Watchel, David Rabinowitz, Kevin Willmott e do próprio Spike Lee.
  • Há alusões directas ao slogan de campanha de Donald Trump em 2016, "Make America Great Again", na cena de abertura, na boca do Dr. Kennebrew Beauregard (interpretado por Alec Baldwin num estilo parcialmente inspirado nos seus sketches como Trump para o programa de televisão semanal de comédia "Saturday Night Live"), bem como, mais tarde, pela voz do Grande Feiticeiro do Ku Klux Klan, David Duke (Topher Grace), num discurso de incitação à revolta racial durante a visita aos membros da célula de Colorado Springs.
CINE-CHECK

Duas curiosidades:

 

  1. "Blackkklansman: O Infiltrado" inclui uma sequência - baseada em reuniões e festas verídicas do Ku Klux Klan - onde membros da célula de Colorado Springs do movimento, acompanhados pelo seu líder nacional, David Duke, assistem a uma projecção do clássico mudo de D.W. Griffith, "O Nascimento de Uma Nação" (1915), historicamente responsável por parte do ressurgimento do KKK no século XX. Quando estudava na NYU Film School, Lee ficou furioso com os seus professores por exibirem essa longa-metragem aos alunos sem a devida contextualização histórica, política e social, rodando uma curta-metragem - "The Answer" (1980) - como resposta. Pelo gesto, esteve quase para ser expulso da universidade. Hoje, Spike Lee é director artístico do Departamento de Cinema da NYU.
  2. Numa entrevista promocional do filme, John David Washington confessou que, momentos antes de rodar a cena onde descobre os alvos de metal, com corpos caricaturados de homens negros, que os supremacistas brancos usavam para praticar tiro, Spike Lee lhe disse que aqueles não eram adereços criados para o efeito mas alvos verdadeiros comprados na Internet. Washington reforçaria que a confidência afectou positivamente a sua interpretação.

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