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Cientistas fizeram nova descoberta sobre voo desaparecido há 10 anos?

Geração V
O que está em causa?
Na rede social Facebook está a circular uma publicação que sugere que os cientistas fizeram novas descobertas sobre o voo 370 da Malaysian Airlines que desapareceu há 10 anos. Será verdade?

Foi a 8 de março de 2014 que voo 370 da companhia aérea Malaysian Airlines desapareceu dos radares, depois de se desviar da rota prevista. O avião que seguia com 227 passageiros e 12 tripulantes a bordo, fazia a ligação entre Kuala Lumpur, na Malásia, e Pequim, na China. 

Do desaparecimento resultaram muitas as teorias da conspiração em torno do que aconteceu com a aeronave. O facto de o avião não ter seguido a rota prevista sustentou a hipótese das autoridades malaias de que o voo foi alvo de uma ação deliberada. Mas a possibilidade de ter ocorrido um acidente, ou qualquer falha técnica que tenha levado ao desastre, mantiveram-se em cima da mesa. No entanto, as únicas pistas sobre o que aconteceu foram alguns destroços que deram à costa em África e em ilhas do oceano Índico.  

Depois das buscas falhadas após o desaparecimento e suspensas em 2017, a Malásia contratou a empresa Ocean Infinity (empresa de robótica marinha) para as retomar na zona sul do Índico. O acordo foi assinado em janeiro de 2018 com a premissa de que caso o avião ou a sua caixa negra fossem encontrados, a Malásia pagaria até 60 milhões de euros pelo serviço, embora o montante pago dependesse do sucesso da operação. 

Mas a verdade é que já antes a China, a Austrália e a própria Malásia tinham feito outras operações de busca que não tiveram sucesso. Agora, circula uma publicação que afirma que cientistas fizeram novas descobertas. 

“Última hora: A nova descoberta aterradora dos cientistas sobre o voo 370 da Malásia! Detalhes na seção dos comentários…”, lê-se na descrição do post feito no Facebook. Na publicação é partilhada uma montagem com três fotografias, duas referentes a um avião submerso no fundo do oceano, e outra que mostra esqueletos sentados nas poltronas do avião. 

Mas terá esta publicação algum fundamento? 

Não. Na respetiva publicação, verifica-se, no primeiro comentário, que o leitor é remetido para um artigo do site “TinTinThanh.online”, que apresenta informação sobre a alegada descoberta. Contudo, não se trata de uma fonte de informação confiável nem existem notícias sobre a aparente descoberta. 

Na altura do 10.º aniversário do desaparecimento, a Associated Press, a 5 de março deste ano, publicou um artigo-resumo sobre o que se sabe, e não havia referência a novos desenvolvimentos. 

Apesar disso, um vídeo publicado no Youtube, a 1 de fevereiro, anuncia algo semelhante: a “aterrorizante nova descoberta do voo 370 da Malásia”. No vídeo é exposta uma compilação de imagens sobre o desaparecimento, narradas por uma voz robótica. Estas pertencem a diversos programas documentais sobre o assunto como “60 Minutes Australia” ou “Investigations et Enquetes”, mas não fornecem qualquer nova descoberta. 

Além disso, através de uma pesquisa pelas imagens apresentadas na publicação, conclui-se que a imagem que mostra mergulhadores a explorar o avião coberto de algas é falsa, tendo sido gerada por inteligência artificial (IA).

Segundo a ferramenta Hive Moderation, que deteta conteúdo gerado através de IA, esta está avaliada com 99,9% de probabilidade de ter sido criada com recurso a IA, tal como também confirmou o projeto de fact-checking “Lead Stories”

A imagem que surge a preto e branco na publicação também foi publicada a 29 de dezembro de 2008 na plataforma de partilha de fotografias Flickr, pelo que não corresponde à alegada nova descoberta feita pelos cientistas. 

Em suma, tanto as imagens publicadas no Facebook como a respetiva alegação são falsas. Até há data de publicação desta verificação de factos não tinha sido descoberta nenhuma nova pista sobre o desaparecimento da aeronave.
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Geração V

Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “Geração V – em nome da Verdade”, uma rede nacional de jovens fact-checkers. O projeto foi concretizado em parceria com a Fundação Porticus, que o financia. Os dados, informações ou pontos de vista expressos neste âmbito, são da responsabilidade dos autores, pessoas entrevistadas, editores e do próprio Polígrafo enquanto coordenador do projeto.

*Texto editado por Marta Ferreira.

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Avaliação do Polígrafo:

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