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“Chuva em fins de julho” prova que este não foi o mês mais quente de sempre?

Ambiente
O que está em causa?
Num "tweet" de 29 de julho, critica-se o discurso de António Guterres em relação ao aquecimento global, bem como as televisões que anunciavam que julho seria o "o mês mais quente de sempre" a nível mundial. E contrapõe-se com a suposta realidade: "Chuva em fins de julho." Será que o argumento é válido?

Com a chegada do calor e dos incêndios, as redes sociais também inflamam com as publicações daqueles que negam o aquecimento global e os seus efeitos. “Guterres diz que estamos na ‘Era da Ebolição’. Televisões dizem que é o mês mais quente de sempre. No mundo real: (chuva em fins de Julho)”, lê-se na legenda de um tweet publicado a 29 de julho no X (ex-Twitter).

A 27 de julho, mesmo antes do final do mês, os cientistas tinham considerado “extremamente provável” que este fosse o mês mais quente de que há registo. Esta previsão esteve na base do discurso do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que alertou para a entrada numa era de “ebulição global”, ficando para trás o mero aquecimento global.

Como foi revelado hoje, o mês passado, que ficou marcado por ondas de calor e vagas de incêndios em todo o mundo, foi 0,33°C mais quente do que o mês que detinha o recorde até agora (julho de 2019, quando se registou uma média de 16,63°C). A temperatura do ar foi também 0,72°C mais quente do que a média (1991-2020) em julho, segundo dados do satélite Copernicus.

[twitter url=”https://twitter.com/CopernicusECMWF/status/1688828871347503104″/]

Ou seja, julho foi mesmo o mês mais quente desde que há registos ao nível global. Mas como se explica que em Portugal os efeitos desta onda de calor não se tenham feito sentir com tanta intensidade?

Como destacava o “Expresso“, a 19 de julho, Portugal ficou a salvo da onda de calor que atingiu o sul da Europa graças à circulação de massas de ar no Atlântico, que em território nacional foram condicionadas por uma humidade mais elevada e temperaturas mais baixas.

Ao Polígrafo, Filipe Lisboa, físico e investigador na área das alterações climáticas, explica que Portugal beneficia do anticiclone dos Açores, muito afetado pelas alterações climáticas. Explica que este é um sistema local, do Atlântico Norte, que “embora nos possa poupar pontualmente de alguns dias de calor extremo no verão, a sua intensificação é responsável por invernos mais secos na Península Ibérica”.

Ou seja, terá sido este um dos fatores a explicar que Portugal tenha escapado à vaga de calor que em julho afetou intensamente países como Espanha, Itália e Grécia, com uma localização mais central na bacia do Mediterrâneo, onde a massa de ar quente oriunda do Norte de África passou com mais intensidade.

Segundo o especialista, as alterações climáticas têm de ser observadas de um ponto de vista amplo: “Tal significa que localmente padrões de temperatura alteram-se”, explica. E acrescenta: “Existe um aquecimento global a nível médio, de todo o planeta. E de facto a média global do planeta indica que julho passado foi o mais quente de sempre.” Facto confirmado hoje pelo programa Copernicus.

Assim, para Lisboa, o fenómeno metereológico da chuva que se registou em julho, e que foi destacado nas redes sociais, “não invalida que as temperaturas globalmente sejam bastante elevadas. Cientificamente é muito mais robusto e importante falar dos modelos climáticos, que compreendem diversas variáveis climáticas, do que falar numa situação em particular. Localmente, num certo dia, as temperaturas podem baixar e pode haver chuva e tal não invalida a existência de alterações climáticas“. Aliás, segundo o físico, as próprias alterações climáticas fazem com que “padrões locais deixem de verificar-se para dar lugar a outros fenómenos”.

Assim, é falso que a “chuva em fins de julho”, destacada pelo autor do tweet, prove que julho não foi o mês mais quente de sempre a nível mundial. Na verdade, hoje mesmo foi confirmado pelo programa Copernicus que o recorde de temperatura média num mês foi batido.

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Avaliação do Polígrafo:

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