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Chega copiou projeto do Bloco sobre a Ucrânia? É verdade que há um parágrafo igual, mas as propostas são diferentes

Política
Este artigo tem mais de um ano
O que está em causa?
"Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo", lê-se num projeto de resolução do Chega, pugnando "por uma moratória de 20 anos no pagamento da dívida externa da Rússia". No Twitter aponta-se para um vestígio de "plágio" ou "adaptação", mas o partido liderado por André Ventura garante que não passou de "um lapso na redação final da proposta".

Chega adapta projeto de resolução do Bloco de Esquerda e esquece-se de alterar a menção ao Grupo Parlamentar do partido”, assinala-se num tweet de 18 de junho. Em causa está um projeto de resolução do Grupo Parlamentar do Chega, visando estabelecer “uma moratória de 20 anos no pagamento da dívida externa da Ucrânia e responsabilização da Rússia”.

Na parte final do texto, exibido no tweet, destaca-se a seguinte frase: “Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo”.

Ora, esta referência ao Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda na fundamentação de uma proposta do Chega motivou diversas publicações nas redes sociais que apontam para um suposto vestígio de “plágio” ou “adaptação“.

Teoria da ferradura 2.0: os extremos tocam-se e copiam-se“, ironiza Rui Rocha, deputado do Iniciativa Liberal, num tweet que apresenta a mesma imagem da proposta do Chega com a frase sublinhada da referência ao Bloco de Esquerda.

[twitter url=”https://twitter.com/runroc/status/1538117974414045185″/]

“A lei do menor esforço ou o partido dos preguiçosos de bem”, critica por seu lado José Gusmão, eurodeputado do Bloco de Esquerda, mais um exemplo entre muitos outros que surgiram no Twitter ao longo do último fim-de-semana.

[twitter url=”https://twitter.com/joseggusmao/status/1538103205065891840″/]

Questionada pelo Polígrafo, fonte oficial do Chega explica que na origem da troca de nomes dos partidos esteve “evidentemente um lapso na redação final da proposta”. Mais, assegura que “o projeto nada tem que ver com o do Bloco de Esquerda sobre esta matéria” e que aponta mesmo “num sentido diferente“.

Aliás, o texto da proposta do Chega entretanto já foi substituído na página do Parlamento, a 20 de junho, na sequência de uma notícia (de 19 de junho) do Porto Canal com o seguinte título: “Chega faz ‘copy paste’ de modelo de proposta do Bloco mas deixa ‘vestígios’ no documento”. Na nova versão do texto, a referência ao Bloco de Esquerda aparece corrigida.

De facto, o Bloco de Esquerda já tinha apresentado uma proposta relativa à dívida externa da Ucrânia, no dia 11 de abril. Trata-se do Projeto de Resolução n.º 20/XV/1ª, “pelo perdão total da dívida externa ucraniana“. Quanto à proposta do Chega, entregue a 15 de junho na Assembleia da República, consiste no Projeto de Resolução n.º 124/XV/1.ª, “por uma moratória de 20 anos no pagamento da dívida externa da Ucrânia e responsabilização da Rússia”.

Apesar do parágrafo copiado, as propostas são diferentes. Mas nos respetivos textos encontram-se mais algumas parecenças ou aproximações. Por exemplo, os deputados bloquistas mencionam os “sucessivos empréstimos ao longo dos anos” concedidos à Ucrânia “pelo Fundo Monetário Internacional e pela Comissão Europeia, numa dívida que ascende a 125 mil milhões de euros”, ao passo que os deputados do Chega indicam que a Ucrânia tem “uma dívida de aproximadamente 125 mil milhões de euros” e que “mais de metade dos credores da dívida externa ucraniana são instituições multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (BM) e Banco Europeu de Investimento (BEI)”.

Em suma, há um parágrafo copiado, confirma-se, aliás entretanto corrigido. E, sim, algumas parecenças nos respetivos textos. Mas as propostas são diferentes, apesar de incidirem sobre o mesmo tema. De resto, fonte oficial do Chega garante ao Polígrafo que a frase replicada não passou de “um lapso na redação final da proposta”.

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