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Chá de óregãos é tratamento natural capaz de curar a amigdalite aguda?

Geração V
O que está em causa?
Num vídeo na rede social Tiktok, um homem alega que o orégão tem propriedades bactericidas e um chá desta planta tem o poder de potenciar o sistema imunitário e, por isso, curar a amigdalite aguda purulenta. Esta tese tem fundamento?

“Tratamento natural para infeção na garganta”, lê-se na descrição de um vídeo que tem circulado de forma viral no TikTok e no qual dois homens debatem entre si o poder dos tratamentos naturais.

De acordo com a publicação, as imagens foram retiradas do podcast Digicast e o alegado especialista é o “Dr. Julio Luchmann” que defende este tratamento e acrescenta ainda que os alimentos ricos em zinco causam uma hiperativação do sistema imunitário do organismo, potenciando a formação de glóbulos brancos.

Segundo Luchmann, para combater uma infeção na garganta bastará fazer um “gargarejo” com chá de orégãos para que o “sistema imunitário vá para as alturas”. Mas terão estas alegações fundamento?

Quem é Julio Luchmann e o que é uma amigdalite aguda

Para começar, Luchmann descreve-se na sua página de Instagram como um “fitoterapeuta clínico, neurocientista, doutorando em naturopatia” e “fundador [da] fitoessência”, ou seja, a base das suas intervenções são em defesa dos tratamentos naturais em detrimento do recurso a medicamentos.

Ao analisar a página de Luchmann, verifica-se que não existem vídeos com contributo de médicos. Trata-se de uma página com testemunhos de várias pessoas que defendem tratamentos naturais com plantas medicinais ou certos alimentos e que negam e, inclusive, criticam o recurso aos fármacos existentes na medicina.

Quanto às suas declarações, comecemos pelo que é uma amigdalite aguda. De acordo com a plataforma de informação médica e científica “Amboss”, a amigdalite aguda é uma inflamação das amígdalas, ou tonsilas palatinas, que frequentemente ocorre em combinação com uma inflamação da faringe, denominando-se amigdalofaringite. É comum em crianças e adultos jovens e é sobretudo causada por uma infeção viral, mas também se pode dever a infeção bacteriana, sobretudo por Streptococcus do grupo A.

Esta inflamação caracteriza-se por um aparecimento repentino de febre e garganta inflamada, o que provoca dor, a chamada “odinofagia”. A doença vírica é autolimitada, e, por isso, apenas se tratam os sintomas, mas a doença bacteriana exige tratamento com antibiótico.

O que dizem os estudos sobre este tipo de tratamento?

Relativamente ao chá de orégãos, dois estudos, “Orégãos: Visão Geral da Literatura sobre Benefícios para a Saúde” e “Flavonóide e ácidos fenólicos do orégão: ocorrência, atividade biológica e benefícios para a saúde, que analisaram os efeitos das substâncias químicas bioativas que constituem a planta do orégão (como os flavonóides e os ácidos fenólicos), concluíram que estas têm a capacidade de suprimir o crescimento de uma vasta gama de microorganismos, possuem propriedades antioxidantes, bem como anti-inflamatórias, melhorando assim os níveis de glicémia (glicose no sangue) e a regulação lipídica.

Há ainda evidência de algum potencial anti-cancerígeno. Ainda assim, muitas destas conclusões foram feitas in vitro, isto é, em laboratório, pelo que a evidência dessas propriedades in vivo, ou seja, em animais, é fraca e, em humanos, é praticamente inexistente. Deste modo, para extrapolarmos conclusões para a saúde humana serão necessários mais estudos. 

Um outro estudo, “Chá de ervas para o tratamento da faringite: inibição do crescimento de Streptococcus pyogenes e formação de biofilme por infusões, concluiu que as infusões de várias ervas – como o chá de orégãos – em concentrações não-tóxicas, são seguras e eficazes no tratamento sintomático (e não na cura) da amigdalite, nomeadamente reduzindo o desconforto provocado pela garganta inflamada.

Ao Polígrafo, Cristina Caroça, otorrinolaringologista e professora da NOVA Medical School, esclarece que “o tratamento da amigdalite bacteriana é antibioterapia [tratamento feito com antibióticos]. Existem estudos in vitro que têm avaliado a eficácia antimicrobiana e anti-inflamatória do óleo de oregão pelos seus constituintes carvacrol e timol, mas sem eficácia clínica demonstrada em humanos”.

E será que os alimentos ricos em zinco causam uma “hiperativação” do sistema imunitário?

De acordo com o artigo “Efeitos dietéticos e fisiológicos do zinco no sistema imunológico, níveis normais de zinco são essenciais para a uma resposta imunitária equilibrada e eficiente a vários agressores ambientais, nomeadamente na recuperação do número de células imunitárias como os linfócitos T reguladores (um tipo de glóbulos brancos). 

Em relação ao papel do zinco no sistema imunitário, Cristina Caroça destaca que “apesar do seu papel de extrema importância, o seu equilíbrio é essencial, pois um défice ou um excesso de zinco podem levar a consequências drásticas, nomeadamente à suscetibilidade às infeções (no défice) ou mesmo supressão do sistema imunológico (no excesso)”. 

Em suma, a evidência demonstra que a suplementação com zinco deve ser considerada apenas em doentes em risco de deficiência nesse elemento.

Por tudo isto, o Polígrafo classifica como falsa a alegação de que o chá de orégãos possa ser um tratamento eficaz no tratamento de uma amigdalite aguda purulenta. Esta deve ser tratada com recurso a antibiótico receitado por um especialista. A única coisa que o chá de orégãos poderá fazer é ajudar a aliviar alguns dos sintomas provocados pela inflamação.

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Geração V

Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “Geração V – em nome da Verdade”, uma rede nacional de jovens fact-checkers. O projeto foi concretizado em parceria com a Fundação Porticus, que o financia. Os dados, informações ou pontos de vista expressos neste âmbito, são da responsabilidade dos autores, pessoas entrevistadas, editores e do próprio Polígrafo enquanto coordenador do projeto.

*Texto editado por Marta Ferreira.

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Avaliação do Polígrafo:

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