"Cerca de 900 vitelos estão dentro de um navio em Espanha há quase três meses à espera de ajuda! E não existe uma única notícia na televisão sobre isto. Agora vão ser todos assassinados por não existir suspeita de uma doença infecciosa não contagiosa. Tantas leis mas não existe nenhuma que proteja estes animais dos humanos", pode ler-se na imagem, amplamente divulgada nas redes sociais.

A associação que fez a denúncia a 3 de março, Animal Save & Care Portugal, afirma que "é dos piores casos de maus tratos a animais que aconteceu dentro desta indústria vil e cruel".

Mas será verdade?

Sim e os animais acabaram por ser abatidos a 6 de março. De acordo com a Reuters, que teve acesso a um relatório confidencial de veterinários pertencentes ao Governo espanhol, quase 900 vitelos, que viajavam no barco Karim Allah, foram rejeitadas por diversos países, por receio que tivessem a doença da língua azul. O vírus é transmitido por insetos mas não afeta o ser humano.

O relatório a que a Reuters teve acesso concluiu que os animais sofreram com a viagem e que alguns deles estavam doentes, sem condições para serem transportados para fora da União Europeia (UE) ou autorizados na UE. A eutanásia foi a solução apontada no relatório, embora não houvesse qualquer menção à doença da língua azul.

“Não é sequer é mencionado, o que é muito surpreendente”, destacou Miguel Masramon, advogado que representa a Talia Shipping Line, a companhia proprietária do navio em questão. "A minha impressão é que com certeza seguirão em frente com o abate e destruição dos animais e será difícil para nós evitá-lo”, afirmou em declarações ao El País. Um cenário que efetivamente acabou por ocorrer.

O navio saiu originalmente de Cartagena, em Espanha, rumo à Turquia. Quando chegou ao destino, as autoridades locais impediram o desembarque e suspenderam a importação de animais vivos de Espanha.

O Ministério da Agricultura espanhol garantiu que o transporte dos animais foi certificado pelas autoridades veterinárias, contudo o advogado do armador revelou que o mal-entendido com as autoridades turcas esteve relacionado com os documentos sanitários. "Nos certificados aparecia que a origem dos animais é a região de Aragão, que é uma zona livre de língua azul. Mas o ministério tinha notificado em novembro à OIE (Organização Mundial de Saúde Animal) que havia um foco de língua azul numa quinta de Huesca (uma das três províncias que formam a região de Aragão). Quando a Turquia recebeu os certificados sanitários para a operação, “viu que a origem do gado era Aragão e, sem ter mais informações, rejeitou a mercadoria”, explicou Miguel Masramon.

O navio deixou a Turquia no dia 31 de dezembro sem que as autoridades locais examinassem os animais. O navio rumou depois à Líbia onde foram recolhidas amostras de sangue e, mais uma vez, proibido o desembarque. Miguel Masramon calcula que tenha sido feito "um teste de anticorpos da doença da língua azul e que alguns [dos animais] deram positivo". "Em Espanha é muito usual vacinar novilhos para evitar o contágio da doença", acrescentou.

Da Líbia, o navio partiu para a Tunísia, onde foi novamente recusado. Numa reportagem do jornal local La Presse, Youssef Ben Romdhane, diretor-geral de Transporte Marítimo e de Portos da Tunísia, declarou que o navio transportava cabeças de gado suspeitas de estarem infetadas com a doença da língua azul, embora admitisse também que "não tinha, no momento, nenhum documento que comprove a veracidade destas informações".

Mais de dois meses após o início da viagem, o Karim Allah regressou a Cartagena a 22 de fevereiro, mas as autoridades espanholas também impediram a entrada do navio. Em causa, uma questão burocrática, ou seja, se os animais fossem descarregados seria considerada uma importação de gado da Líbia  - o último país onde o navio tentou vender os bovinos - e a Líbia está proibida de exportar para a União Europeia (UE).

O Ministério da Agricultura espanhol argumentou ainda que a lei prevê que caso um produto seja rejeitado depois da exportação a partir da UE, apenas existem duas soluções: uma venda extracomunitária ou a destruição no ponto de origem.

O Superior Tribunal de Justiça de Madrid acabou por rejeitar o recurso que pedia a suspensão da ordem de abate. Os animais foram desembarcados e abatidos no porto de Escombreras.

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