No dia 12 de junho, a Associação Portuguesa de Centros Comerciais (APCC) anunciou em vários órgãos de comunicação que os seus membros tinham chegado a acordo com mais de 87% dos lojistas para conceder-lhes apoios no montante global de 305 milhões de euros, de modo a fazer face ao impacto da Covid-19 em Portugal, que obrigou os centros comerciais a estarem encerrados pelos menos durante dois meses e meio. Três dias depois, a 15 de junho, numa entrevista à SIC Notícias, o presidente da APCC voltou a confirmar os números.
Será que a percentagem de acordos avançada por António Sampaio de Mattos, o presidente da associação que representa os centros comerciais, era de facto 87% à data em que foi anunciada?
A resposta não é clara. Os lojistas garantem que o número é falso – mas as direções dos centros comerciais confirmam a percentagem divulgada pela APCC.
Tendo em conta que a APCC representa 8.600 lojas em centros comerciais no país inteiro, para que 87% dos lojistas tivessem chegado a acordo sobre os apoios propostos seria necessário que 7.482 lojas já tivessem aceitado as medidas de apoio – o que, a 12 de junho, seria impossível, segundo a perspetiva da Associação de Marcas de Retalho e Restauração (AMRR), que representa os lojistas.
A 16 de junho, o Jornal de Negócios noticiou que os centros comerciais Colombo e Vasco da Gama ainda não tinham chegado a acordo com os lojistas. Sabendo que as duas superfícies têm 550 lojas, tudo indica que 6,4% dos lojistas não tinha aceitado qualquer proposta de apoio àquela data. Ao Polígrafo, o Colombo e o Vasco da Gama garantiram que “têm vindo a dialogar e a chegar a acordo para a concessão de apoios aos seus lojistas”.
Também a Ceetrus, que detém os centros comerciais Alegro, sublinhou que “os acordos já alcançados foram conseguidos com origem em conversações que decorreram desde o início do estado de emergência”. Solicitada a detalhar a informação, pormenorizando o número de acordos assinados, bem como a respetiva data, a Ceetrus invocou a “confidencialidade” dos mesmos.
A AMRR assegura que o grupo Ceetrus só terá começado a enviar aos lojistas as comunicações com os respetivos acordos no dia 17 de junho (cinco dias depois das declarações do representante dos centros comerciais). A Ceetrus, em todos os centros comerciais que detém, é proprietária de 691 lojas, o que significa que a 12 de junho existiriam mais 8,03% de lojas sem qualquer proposta de apoio.
Também a Ceetrus, que detém os centros comerciais Alegro, sublinhou que “os acordos já alcançados foram conseguidos com origem em conversações que decorreram desde o início do estado de emergência”. Solicitada a detalhar a informação, pormenorizando o número de acordos assinados, bem como a respetiva data, a Ceetrus invocou a “confidencialidade” dos mesmos.
O Polígrafo também contactou a direção do UBBO (antigo Dolce Vita Tejo), bem como o 8.ª Avenida, em Santa Maria da Feira, que garantiram, tal como Colombo e o Vasco da Gama, que a comunicação feita pela APCC a 12 de junho reflete “dados agregados dos acordos alcançados pelos seus associados” onde se incluem os centros em questão – ou seja, confirmam os 87% avançados por António Sampaio de Mattos.
Feitas as contas, segundo as convicções da AMRR, a 12 de junho não tinham chegado a acordo 14,73% dos lojistas. Além disso, a AMRR garantiu ao Polígrafo que até ao dia 12 de junho existiam, pelo menos, mais 519 lojas que não tinham recebido qualquer proposta de acordo. O grupo de lojistas em causa representa 6% do total de lojas da APCC.
Feitas as contas, segundo as convicções da AMRR, a 12 de junho não tinham chegado a acordo 14,73% dos lojistas. Além disso, a AMRR garantiu ao Polígrafo que até ao dia 12 de junho existiam, pelo menos, mais 519 lojas que não tinham recebido qualquer proposta de acordo. O grupo de lojistas em causa representa 6% do total de lojas da APCC.
Juntando às contas iniciais este último dado, o resultado é cerca de 21%, o que significa que, segundo os dados da AMRR, até ao dia 12 de junho no máximo só 79% dos lojistas tinham chegado a acordo, universo que é consideravelmente mais baixo do que aquele que anunciou António Sampaio de Mattos. “E estes 79% seriam apenas num cenário em que presumimos que todas as lojas a que foram apresentadas propostas assinaram, o que factualmente não se verifica, por isso a percentagem é, de certeza absoluta, inferior a 79%”, acrescenta Miguel Pina Martins, presidente da AMRR, em declarações ao Polígrafo.
O Polígrafo contactou a APCC, que não retira uma vírgula às declarações públicas do presidente: “Reiteramos os dados que divulgámos, de acordos com 87% dos lojistas. Voltamos a frisar que estão em causa apoios no valor de 305 milhões de euros, entre descontos e moratórias das rendas.”
O cruzamento de dados feitos pelo Polígrafo não permite apurar, com clareza, se a percentagem de acordos avançada pela associação que representa os centros comerciais a 12 de junho é real.
Também as direções dos centros comerciais em causa confirmam os dados da APCC, apesar de não revelarem em que dia concreto chegaram a acordo com os lojistas, nem a percentagem de acordos que foi conseguida em cada shopping.
Em conclusão, o cruzamento de dados feitos pelo Polígrafo não permite apurar, com clareza, se a percentagem de acordos avançada pela associação que representa os centros comerciais a 12 de junho é real. Por um lado, os lojistas garantem que não é, pelo facto de existirem ainda vários centros e centenas de lojas sem qualquer proposta de apoio. Por outro lado, as direções dos centros comerciais, apesar de se recusarem a disponibilizar ao Polígrafo os acordos conseguidos em cada shopping alegando questões de confidencialidade, reafirmam a percentagem de 87% revelada pela Associação Portuguesa de Centros Comerciais.
Avaliação do Polígrafo:
