"Centro de Saúde de Algés está destruído porque foi construído em cima de uma nascente e sobre leito de cheia. Este país é anedótico", destaca-se num post de 16 de dezembro de 2022 no Facebook, remetido ao Polígrafo com pedido de verificação de factos.

Em causa está a Unidade de Saúde Familiar (USF) Linha de Algés que no dia 16 de dezembro, segundo noticiou a RTP, estava "cheio de água, lama e lixo. As inundações provocaram prejuízos de um milhão de euros. O mau tempo provocou inundações em vários pisos de garagem, avariou material informático e ar condicionado".

Os estragos provocados pelas inundações obrigaram mesmo ao encerramento da USF Linha de Algés. Já no dia 2 de janeiro de 2023, a Câmara Municipal de Oeiras emitiu um comunicado informando que "o Centro de Saúde de Algés encontra-se temporariamente encerrado para reparações após as intempéries ocorridas no início do mês de dezembro, sendo as consultas deste Centro de Saúde realizadas temporariamente no Centro de Saúde do Restelo".

Confirma-se que "foi construído em cima de uma nascente e sobre leito de cheia"?

"Não conheço os detalhes das consequências das inundações neste equipamento, mas posso confirmar que se encontra localizado no leito de cheia da ribeira de Algés", responde José Luís Zêzere, diretor do Centro de Estudos Geográficos e investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, em declarações ao Polígrafo.

No entanto, Zêzere diz não conseguir "confirmar ou infirmar a existência de nascente".

Por sua vez, Eusébio Reis, investigador do RISKam - Avaliação e Gestão de Perigosidade e Risco Ambiental, indica desconhecer a presença de uma nascente naquele local. "Obviamente não conheço todo o território de forma detalhada, mas não me parece que haja qualquer 'nascente' naquele local e, mesmo que existisse, que pudesse ter algum efeito nas cheias ou inundações que ocorreram em dezembro passado ou em quaisquer outras no local. Eventualmente, há aqui um problema de definição, 'nascente' é um conceito associado a características e processos naturais. É possível que haja, nesse local, algum fluxo de água canalizada subterraneamente, talvez até condicionada pela construção na área. Mas, desconhecendo o contexto, não posso confirmar ou contestar essa afirmação", sublinha.

Quanto à existência de um leito de cheia naquele local, que levou consequentemente às inundações, Reis ressalva que convém "deixar claro que as 'inundações' podem ocorrer por vários motivos, enquanto as inundações fluviais (ou cheias) são específicas de áreas alagadas por cursos de água".

Mais, "considerando o sistema de drenagem local, o Centro de Saúde de Algés pode potencialmente ser inundado por duas vias: ou através do transbordo da ribeira de Algés (cheia), ou através de escoamento que resulte de deficiências de drenagem pluvial (inundação urbana)".

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Explicado este ponto, Reis prossegue indicando que "a ribeira de Algés, que vem de norte/nordeste, paralela à avenida dos Bombeiros Voluntários de Algés, canalizada e a céu aberto, 'desaparece' sob a rua Conde Rio Maior (cerca de 200 metros a norte do Centro de Saúde de Algés), passando a ter um percurso subterrâneo. Ora, neste percurso, a ribeira passa quase por baixo do Centro de Saúde de Algés (de momento, desconheço o traçado exato), pelo que não há dúvidas de que o Centro de Saúde de Algés está em leito de cheia".

Contudo, o mesmo se aplica a "outras construções muito mais antigas que acompanham, pelo lado oeste, a referida avenida dos Bombeiros Voluntários".

"Perante precipitações muito intensas, em que o canal não tem capacidade de escoamento, situação que pode ser acentuada em período de preia-mar, a água força a passagem, galgando as margens e invadindo as ruas circundantes, principalmente a avenida dos Bombeiros Voluntários que se transforma em autêntico curso de água com drenagem para o rio Tejo. Há registos de situações, por exemplo em 2008, em que a força da água gerou desabamentos na própria rua Conde Rio Maior. Como se vê, sim, está claramente em leito de cheia. Tal como muitos outros edifícios ao longo da ribeira, na mesma bacia hidrográfica", realça.

De resto, "apesar de esta bacia ser muito pequena (cerca de 11 km²) e o curso de água principal ter apenas cerca de 5 km, o que, à partida, não deveria ser razão de problemas, o facto é que cerca de 89 % da bacia hidrográfica está impermeabilizada, o que faz com que não haja retenção de água da chuva e todo o escoamento seja canalizado rapidamente para o setor jusante (mais baixo), onde se situa a Centro de Saúde de Algés que, pelos motivos apontados, não tem capacidade de escoamento".

Reis considera ainda que, perante o conhecimento de que aquele local corresponde a leito de cheia, deveria ter-se evitado construir "um edifício estratégico, que serve a população, e que fica impossibilitado de o fazer em situações como esta", prevenindo assim estas situações.

"Isto não é diferente do que acontece em muitos locais do país, com ou sem alterações climáticas. Estas existem, e têm (e terão) a sua influência. Mas, na verdade, limitam-se a pôr a nu os problemas de ordenamento urbano", conclui o investigador.

Pelo que classificamos a publicação em causa como verdadeira, embora não possamos confirmar o detalhe da "nascente".

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