Ontem à noite Catarina Martins e André Silva protagonizaram mais um debate eleitoral, desta vez nos ecrãs da SIC Notícias (a que pode assistir aquilogo após a realização do jogo de futebol entre as seleções de Portugal e Sérvia, que a equipa nacional venceu por 4-2, numa partida em que Portugal teve mais posse de bola do que o adversário, mas nem por isso deixou de sofrer perigosos contra-ataques.

Ontem, aconteceu mais ou menos o mesmo: também André Silva teve mais posse – falou 1m28s a mais do que a sua adversária – mas isso não o impediu Catarina Martins de atacar, nomeadamente quando o confrontou com o facto de, em sua opinião, as propostas do PAN para o sector da segurança social não serem suficientemente sólidas.

sic

Perante a proposta do PAN que alegadamente visava penalizar as “pensões milionárias” através da introdução de um sistema de plafonamento, Catarina Martins deu a entender que o PAN não teria estudado devidamente a matéria: “É preciso compreender uma coisa: as pensões milionárias que nomeadamente algumas pessoas recebem da banca, e de que nós ouvimos falar, como a de Jardim Gonçalves [ex-presidente do BCP, que aufere um valor mensal de 167 mil euros], não são pagas pela segurança social nem pela Caixa Geral de Aposentações; são pagas pelo banco e pelos clientes do banco.”

Será que a pensão do ex-banqueiro efetivamente não é paga pelo Estado português? Verificação de factos.

A questão não é nova. Nos últimos anos têm-se acumulado na internet os textos e os memes que garantem que Jardim Gonçalves receberá uma fortuna anual (cerca de 2,3 milhões de euros) às custas dos cofres nacionais.

Um deles, publicado na página “Luso Jornal 2015” e já analisado pelo Polígrafo, afirma o que se segue em título: "O maior atentado aos contribuintes- Jardim Gonçalves tem pensão de 2,3 milhões", dando precisamente a entender que são os descontos dos portugueses que financiam o estilo de vida de Jardim.

André Silva

Logo a seguir, o texto contextualiza: "Jardim Gonçalves vai continuar a receber uma pensão superior a 2,3 milhões de euros por ano. A decisão do tribunal de Sintra foi favorável ao antigo gestor que, além da pensão mensal de 167 mil euros vai ainda ser reembolsado em 2.124 milhões de euros por despesas com motorista, combustível, automóvel e segurança que o banco se recusava a pagar há oito anos, desde 2010. Jardim Gonçalves, hoje com 82 anos, reformou-se em 2005". E continua, citando uma notícia (esta fiel aos factos) do Correio da Manhã: "Quatro anos depois, a administração do BCP fez alterações às reformas dos ex-gestores alegando a necessidade de cortar custos. Jardim Gonçalves foi o único que não chegou a acordo e rejeitou o corte na pensão. 'Desde 2005 que o BCP não tem custos com a pensão de Jardim Gonçalves porque ela é paga em 40% pelo fundo de pensões e em 60% por um seguro da Ocidental', disse o advogado do banqueiro, Manuel Magalhães e Silva. Em 2010, o BCP alegou poupanças de 19 milhões de euros na sequência da renegociação do valor das pensões pagas aos ex-administradores reformados.”

Pensão de 2,3 milhões de euros anuais de Jardim Gonçalves é paga pelos contribuintes?

Em resumo, o título da “notícia”, da responsabilidade editorial do Luso Jornal, é contrariado pelo texto que o sucede, este copiado do jornal “Correio da Manhã”. Trata-se, por isso, de um exercício básico de desinformação, que aposta na convicção de que uma parcela substancial dos leitores apreende apenas o título de uma publicação - convicção confirmada por inúmeros estudos académicos. Efetivamente o ex-presidente do BCP recebe uma pensão de 167 mil euros mensais, mas cerca de um terço desse valor é pago pelo fundo de pensões do próprio BCP. A restante fatia (cerca de dois terços) advém de uma apólice de seguro, convertida num contrato de rendas vitalícias.

Quando Catarina Martins se refere às pensões milionárias pagas pelo Estado "de que nós ouvimos falar”, refere-se a casos desta natureza, que habitualmente são promovidos na internet com objetivos diversos: propaganda, populismo ou, simplesmente, procura desenfreada de tráfego para rentabilizar as plataformas através das quais são veiculados.

Avaliação do Polígrafo:

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