"Claro que sim, #aculpaedopassos. O que seria do BE sem o Pedro Passos Coelho para responsabilizar por um greve contra uma empresa privada, passados quatro anos após a sua governação?" Esta é a mensagem (em forma de pergunta retórica) que acompanha uma recente publicação da página "A Culpa É do Passos", baseada na imagem de um suposto tweet de Catarina Martins, líder do BE, sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas.

A publicação em causa já acumulou centenas de partilhas e tem potencial para se tornar viral nas redes sociais. Vários leitores do Polígrafo depararam com a denúncia e solicitaram uma verificação de factos sobre a mesma. É verdade que Catarina Martins culpou Passos Coelho pela pela recente greve dos motoristas de matérias perigosas que ameaçou paralisar o país durante o fim-de-semana pascal?

Começando pelo suposto tweet de Catarina Martins, é autêntico, estando publicado na página oficial da líder bloquista na rede social Twitter. Passamos a transcrever a mensagem: "A greve dos motoristas de transporte de mercadorias perigosas, como outras que estão em curso, são reflexo da deterioração da negociação coletiva imposta no tempo da troika".

Ora, nesta mensagem, Catarina Martins não responsabiliza diretamente o anterior primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, pela referida greve. Aliás, nem sequer o menciona. Trata-se de uma ideia mais complexa, atribuindo como que uma responsabilidade mais geral ao fenómeno de "deterioração da negociação coletiva imposta no tempo da troika".

Sim, Passos Coelho era o primeiro-ministro no "tempo da troika", mas Catarina Martins não o culpa - pelo menos no estrito limite da mensagem em análise - diretamente por essa "deterioração" que, aliás, diz que foi "imposta" (não especificando por quem). Não obstante, ressalve-se que esta frase pode ter diferentes interpretações políticas, num âmbito mais subjetivo que não se enquadra no perímetro do fact-checking.

No entanto, o tweet de Catarina Martins inclui também um vídeo de uma sua intervenção na Assembleia da República, esta semana, na qual afirmou que "a revolta de muitos trabalhadores - e a sua expectativa de melhores condições e melhores salários - tem batido contra uma legislação laboral que retirou poder negocial aos sindicatos e tem feito uma pressão para baixo na contratação coletiva".

Nessa intervenção, a líder dos bloquistas referia-se à greve dos motoristas de matérias perigosas e apontava baterias contra a legislação laboral do "tempo da troika". Como tal, sublinhou que "nos próximos dias vão ser votadas alterações ao Código Laboral" e instou "quem quiser responder pelos trabalhadores" a "revogar a legislação laboral da troika, do PSD e do CDS-PP", concluindo: "É isso que este Parlamento tem que fazer".

"A revolta de muitos trabalhadores - e a sua expectativa de melhores condições e melhores salários - tem batido contra uma legislação laboral que retirou poder negocial aos sindicatos e tem feito uma pressão para baixo na contratação coletiva", declarou Catarina Martins, na Assembleia da República.

Ou seja, no vídeo, mais do que na mensagem destacada na publicação em análise, Catarina Martins já atribui responsabilidades diretas à "legislação laboral da troika, do PSD e do CDS-PP". Ainda assim, a ideia continua a ser mais complexa e com uma maior amplitude, não se limitando à greve dos motoristas. A líder do BE refere-se a um plano mais geral de alegados efeitos da legislação laboral no poder negocial dos sindicatos e na contratação coletiva.

A partir daqui concluir que culpou Passos Coelho pela greve dos motoristas é uma excessiva simplificação, ainda que não possa ser classificada como falsa, sobretudo por causa das supracitadas declarações de Catarina Martins na Assembleia da República.

Avaliação do Polígrafo:

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