"A nanoFlowcell é uma marca protótipo do carro Quantino movido a água, neste caso a água salgada. E recentemente numa experiência o Quantino completou mais de 150 mil quilómetros em estrada tendo como combustível o recurso a água salgada." Assim se inicia o texto do artigo que tem sido amplamente divulgado nas redes sociais, ao longo das últimas semanas.

O suposto carro funciona através de uma célula de combustível que recorre a água salgada: "O funcionamento da tecnologia da nanoFlowcell é em tudo idêntico à de uma célula de combustível, só que recorre à água salgada invés do hidrogénio! Assim, os iões positivos ficam separados dos iões negativos, sendo que ambos ao passarem por uma membrana se misturam e interagem, e é essa interação que gera energia elétrica que permite mover o automóvel!"

"O resultado final dessa mistura do líquido de iões gera água, tal como na célula de combustível de hidrogénio, mas tem como vantagem o facto de permitir que o veículo se movimente com zero emissões de carbono e um reabastecimento rápido", conclui-se na publicação, denunciada por vários utilizadores como sendo fake news.

Verdade ou falsidade?

Em primeiro lugar, importa esclarecer o que é uma célula de combustível. Uma célula de combustível tem como objetivo converter energia potencial de um combustível em eletricidade através de uma reação eletroquímica. Ora, o combustível utilizado, segundo a publicação em análise, seria água salgada.

A nanoFlowcell é uma empresa suíça de investigação e desenvolvimento de pilhas de células de fluxo redox. De acordo com Rui Costa Neto, investigador no Instituto Superior Técnico e pós-doutorado em Engenharia Mecânica, questionado pelo Polígrafo, "uma célula de fluxo de redox é constituída pela célula de produção e dois tanques em que num é armazenado o eletrólito líquido positivo e no outro o eletrólito de líquido negativo. Estes elétrolitos são re-circulados através da pilha para carregar ou descarregar a energia elétrica armazenada nos tanques sob a forma de diferentes estados de oxidação".

A empresa suíça anuncia ter desenvolvido a primeira pilha de fluxo redox de reduzidas dimensões para ser aplicada em automóveis elétricos: "As pessoas conhecem as células de fluxo como construções do tamanho de garagens para armazenamento estacionário de energia em instalações de energia eólica e solar. Com a nanoFlowcell conseguimos pela primeira vez reduzir uma célula de fluxo para o tamanho de uma pequena mala e, ao mesmo tempo, aumentar a densidade da energia dos eletrólitos para 10 vezes mais", destaca-se no site oficial da empresa.

No entanto, o eletrólito não é água salgada comum, ao contrário do que se indica no artigo. Segundo Rui Costa Neto, trata-se de "uma solução de eletrólitos bi-Ion que consiste num líquido condutor iónico - constituído por sais orgânicos e inorgânicos dissolvidos em água - e os eletrólitos, constituídos também por nanopartículas que são moléculas específicas projetadas pela empresa".

A nanoFlowcell garante que este líquido não é prejudicial para o meio ambiente: "Comparado com os outros sistemas de transporte e armazenamento de energia como o petróleo, diesel, hidrogénio e baterias de lítio, bi-ION não é prejudicial à saúde nem ao ambiente, nem inflamável ou explosivo". Além disso, a empresa suíça salienta que o bi-ION tem uma densidade e um poder muito superiores comparando com todas as baterias líquidas disponíveis no mercado.

Até à data, sublinha Rui Costa Neto, escasseiam explicações científicas e uma patente da tecnologia que a empresa descreve: "É necessário compreender como a água, compostos orgânicos e sais metálicos podem conseguir armazenar a energia elétrica com a eficiência e densidade de energia volúmica e gravimétrica que a empresa alega. Contudo, não inviabiliza a sua existência".

A informação que consta no artigo sublinhando que o carro funciona a água salgada não é verdadeira. O líquido utilizado é uma solução de eletrólitos. O que é necessário comprovar é se, de facto, o tipo de combustível utilizado neste carro é viável. Em suma, a publicação está a difundir uma falsidade através de um título enganador e factualmente incorreto.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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Título falso: as principais alegações dos conteúdos do corpo do artigo são verdadeiras, mas a alegação principal no título é factualmente imprecisa.

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