"Será isto normal, estou a ficar baralhada! A minha filha frequenta a escola do Agrupamento de Escolas de Montenegro, raramente come na escola, porque não gosta da comida, quando come é salsichas fritas com batata palha, perca cozida com batata palha, arroz cozido com cabeças de peixe, etc. Será a miúda esquisita? A escola não tem microondas disponíveis para as crianças e os funcionários só aquecem quando 'têm tempo', quem leva come frio", denuncia-se numa publicação de 12 de dezembro no Facebook, exibindo várias imagens de supostas refeições servidas aos alunos na cantina do Agrupamento de Escolas de Montenegro (AEM), concelho de Faro, Algarve.

"O bar só reabre às 14:30. (...) A sopa quando 'chega' para todos é uma boa dose. Agora os funcionários do refeitório proibiram os telemóveis e fotos às refeições servidas", conclui a mãe da aluna.

A esta publicação juntaram-se outros pais, antigos alunos e também professores. Os comentários dividem-se entre os que atestam a má qualidade da comida e os que afirmam que a comida tem qualidade e que é servida em quantidades suficientes.

O Polígrafo contactou a autora da publicação que confirmou ser mãe de uma aluna daquela escola e que outros pais lhe dizem o mesmo. "É uma situação que já ocorre há vários anos, tenho vários pais que me deram conhecimento disto. Sou representante da turma da minha filha", sublinhou, referindo que já tentou aliás falar várias vezes com o diretor da escola, mas nunca obteve resposta.

Nos comentários à publicação manifestou-se ainda a Associação de Pais e Encarregados de Educação do AEM que, contactada pelo Polígrafo, indicou ter conhecimento da situação pelo que os pais foram relatando. "Ontem [12 de dezembro] ao final da tarde já pedimos esclarecimentos à direção por e-mail, aguardamos resposta. Mediante a nossa disponibilidade temos ido por diversas vezes à escola acompanhar a hora de almoço e provar a comida", informou.

"Nos dias em que temos ido, a comida é razoável ou boa. As doses, no geral, não são grandes, mas o que nos disseram - e verificámos depois - é que muitas crianças pouco comem, havendo muito desperdício de comida. Sendo as doses mais pequenas, quem quiser poderá depois repetir (isto verificou-se com alunos do 1.º Ciclo). Em dias de peixe, notámos que faltava algum tempero na comida, azeite pelo menos", detalhou.

"Em relação aos menus, somos da opinião que, tal como se verificava nos anteriores, deveria haver alguma distinção entre as refeições servidas ao 1.º Ciclo e as do 2.º e 3.º Ciclos. Neste ano letivo, o menu é igual para os três Ciclos. Tem-se verificado em alguns dias uma ementa um pouco 'puxada', não indicada para crianças tão novas", acrescentou. Exemplos dessa ementa "puxada" são "peixe prata estufado, cavala de conserva massa tricolor de cavala, rancho e feijoada de chocos".

O Polígrafo questionou Manuel Mil-Homens, diretor do AEM, sobre a denúncia em torno das refeições na escola. "A situação que corre nas redes sociais em nada espelha a realidade diária nos refeitórios deste Agrupamento. Embora a 'batata palha' tenha sido uma opção infeliz da cozinha, por falta de tempo, esta questão teve um contexto diferente do reportado", começou por garantir.

"Ao que pude apurar hoje [13 de dezembro] ao falar com os intervenientes, foram dois dias, um desta semana e o outro na semana anterior, em que aos últimos alunos a serem servidos, de entre 700 refeições, entre duas cozinhas, faltou a refeição completa, a da ementa. O peixe era no forno com batatas, mas as batatas como acompanhamento acabaram. Esta solução encontrada foi para perto de 10 crianças já no final do serviço, em que apenas o acompanhamento foi um alternativo, este da 'batata palha'. As imagens também não correspondem à forma como a refeição é servida, obviamente", contrapôs.

Relativamente à questão dos microondas, Mil-Homens respondeu que "este assunto já foi estudado, mas considerando a faixa etária dos alunos, uma escola básica e o número de solicitações, não justificaram esta medida de ter um microondas ao serviço dos alunos. No entanto, os poucos alunos que trazem comida de casa podem sempre solicitar a um funcionário. Como recurso existem muitas refeições frias que podem prestar-se nessa situação, assim como o bar dos alunos".

Segundo o diretor da escola, a queixa publicada no Facebook por uma mãe "foi baseada numa situação pontual e tenta tomar o todo pela parte e, mesmo assim, forçada. A quantidade de situações que se seguem nos comentários fazem parte do universo das redes sociais. Toda a gente comenta tudo, o que nem sabe, manifestando opiniões pessoais, fazendo juízos, mesmo que desconhecendo a verdade dos factos".

Quanto ao plano nutricional, "as escolas têm ementas criadas por nutricionistas, numa primeira fase pela DGEstE e depois pela Câmara Municipal. Por último ainda tivemos a colaboração da HISA - Higiene e Segurança Alimentar, contratualizada para o efeito. As ementas semanais são divulgadas por todos os meios possíveis, seja em papel, seja nas plataformas existentes. As cerca de 700 refeições elaboradas por dia, servidas localmente e ainda distribuídas por outras três escolas com serviço de entrega, correspondem a essa ementa diária publicada. Ora se as refeições 'reclamadas' correspondem a dois dias, em duas semanas, a nem 10 alunos em que a única falta foi o acompanhamento, já podemos verificar do que estamos a falar nesta publicação".

"Em relação à quantidade de comida servida, todos somos cuidadores do desperdício, mas colocar a hipótese de uma racionalização de comida, não. Aos alunos é perguntado se o prato está bem servido, como está, ou se pretendem mais, mesmo que haja uma porção de referência. Até podem repetir. Mas lembro que nas escolas, nos funcionários da cozinha, existe uma rotina diária que permite conhecer bem as crianças que servem, até mesmo sobre a quantidade de comida a servir", sublinhou Mil-Homens.

Alegou também que "contrariamente ao que é reportado, existem muitos funcionários e professores a comer diariamente na escola, no refeitório, e sempre elogiaram a comida, principalmente a sopa, aquela que é difícil as crianças comerem".

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