Nas redes sociais, circula um vídeo em que se sugere que “o cancro não é uma doença, é um mecanismo de sobrevivência”. O autor do vídeo em questão, que está a ser partilhado em várias contas do TikTok, alega ainda que “a maioria das pessoas não morre de cancro, mas sim dos tratamentos”. Existe evidência científica que comprove estas alegações?
É verdade que “o cancro não é uma doença”, mas sim “um mecanismo de sobrevivência”?
Segundo a oncologista Ana João Pissarra, “não há dúvida nenhuma de que o cancro é uma doença, por si só”, não havendo qualquer evidência de que se trate de “um mecanismo de sobrevivência”.
Além disso, “a doença oncológica não é uma entidade única”, é um conjunto de “centenas de tumores”, com “vários fatores de risco, dependendo do tipo de tumor”, não havendo, por isso, “um único mecanismo de desenvolvimento”, explica (ver também aqui).
Em termos práticos, um cancro resulta de “um conjunto de células anómalas, que sofreram uma alteração genética, e que, por algum motivo, o organismo não foi capaz de as eliminar”, adianta a médica.
Além disso, as “células mutadas” têm “uma capacidade de se multiplicarem muito superior à das células normais” e, ao acumularem-se, acabam por formar tumores.
O cancro é uma doença complexa e multifatorial (ver aqui, aqui e aqui), ou seja, não tem uma causa única, existem, sim, vários fatores que podem aumentar o risco de ter a doença.
“A maioria dos tumores são esporádicos, ou seja, acontecem por acaso”, e estão associados “a fatores de risco”, como “o tabaco”, “a exposição solar excessiva” e “a obesidade”, esclarece a oncologista.
Outros fatores que podem aumentar o risco de ter cancro são a “exposição ambiental”, “infeções por determinados vírus, bactérias ou parasitas”, o sedentarismo, o álcool e “uma dieta pobre em frutas e legumes, pouco variada e abundante em gorduras e açúcares”, refere-se num texto do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).
Por outro lado, “há uma percentagem pequena, cerca de 10% dos casos”, que ocorrem “por mutações hereditárias, que passam de geração em geração”, aponta Ana João Pissarra.
“A maioria das pessoas não morre de cancro, mas sim dos tratamentos”?
A afirmação de que as pessoas morrem mais devido aos tratamentos do cancro do que da doença também é falsa.
Aliás, sublinha Ana João Pissarra, “há doentes que, quando chegam à consulta, já estão muito frágeis e com doenças muito avançadas”, ao ponto de não terem “condições para receberem tratamento e morrerem devido ao desenvolvimento da doença”.
Além de as células mutadas do cancro “terem a capacidade de crescerem localmente”, como já foi referido, podem “metastizar”, ou seja, podem “invadir outros tecidos”, explica.
Em último caso, “uma metastização generalizada pode levar à falência de órgãos”. Por exemplo, num doente com “uma metastização hepática, o fígado deixa de funcionar e acaba por falecer no contexto de uma insuficiência hepática derivada da doença oncológica”, refere a médica.
Devido à gravidade e à rápida progressão, “há duas coisas fundamentais na doença oncológica: a prevenção e o diagnóstico precoce”.
Segundo Ana João Pissarra, “quanto mais precocemente conseguirmos diagnosticar, maior é a probabilidade de controlo da doença ou até de cura”.
Na maioria dos casos, “e isto está cientificamente comprovado, é melhor fazer tratamento do que não fazer”, porque o tratamento “tende a matar as células malignas”, justifica.
De facto, “os tratamentos têm alguns efeitos secundários”, mas, “hoje em dia, são muito melhor tolerados porque há mais medicação de suporte”, explica a oncologista.
Além disso, pesa-se “sempre o risco-benefício, ou seja, se a pessoa não tem capacidade, se está muito debilitada, se está muito doente por outra doença que não só o cancro, e não vai ter benefício em fazer tratamento, não fazemos tratamento”.
No entanto, “a generalidade das pessoas, felizmente, beneficia de fazer os tratamentos”, mesmo quando as doenças já estão metastizadas”, sublinha.
Isto porque, esclarece Ana João Pissarra, na maioria dos doentes com metastização, o tratamento “reduz a doença” e “melhora a dor”.
Os tratamentos que existem são: “cirurgia”; “radioterapia”; “tratamentos sistémicos, como “a quimioterapia”, “a imunoterapia” e “a hormonoterapia”; e “terapêuticas-alvo, que são medicamentos direcionados a uma determinada mutação”, adianta.
A escolha do tratamento “depende do tipo de tumor” e até do subtipo. Tal como refere a especialista, “os tratamentos são cada vez mais individualizados”, na medida que “não se trata o cancro de mama, trata-se o cancro de mama da doente X, de acordo com as alterações deste cancro”, exemplifica.
Em suma, o cancro é, de facto, uma doença que deve ser tratada e não há evidência científica que comprove que a maioria das pessoas morre devido aos tratamentos. Pelo contrário, os tratamentos atuais são comprovadamente eficazes contra o cancro.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
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