Na última semana, centenas de tweets questionaram a veracidade da escolha do Chega para liderar a sua lista de candidatos a deputado no distrito de Coimbra.

De facto, o Chega anunciou no dia 14 de dezembro que Paulo Ralha seria o seu cabeça de lista pelo círculo de Coimbra, na sequência da filiação no partido liderado por André Ventura.

Do ponto de vista político, sempre que tornou públicas as suas posições, o ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos (2012-2020) esteve no lado oposto do Chega, integrando ou apoiando partidos, figuras e setores que foram destinatários da primeira linha de combate daquele partido e de André Ventura.

© Facebook de Paulo Ralha

Conforme o próprio Paulo Ralha contou à SIC, esteve filiado durante dois períodos no PS. Chegou a ser expulso e foi readmitido em 2013, saindo por vontade própria em 2019. No meio destas duas temporadas de filiação, fez parte das listas do Bloco de Esquerda às eleições legislativas de 2011, sendo o quinto nome pelo círculo de Braga.

Como presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos, integrava a Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN. É nesse plano que, em maio de 2013, intervém no XI Congresso dessa corrente, sob o lema “Pelo estado social, combater a direita!”.

Ano e meio antes, Paulo Ralha, então recém eleito presidente do sindicato (embora ainda não empossado), participou no X congresso, acabando assim seu discurso: “E é importante que ensinemos aos nossos filhos, o que os nossos pais infelizmente não nos souberam ensinar: que a democracia é para ser lutada e vivida dia a dia, nós esquecemos o 25 de abril muito rapidamente, pensámos que aquelas conquistas eram para sempre e olhem onde é que chegámos.”

No final de 2015, o então militante socialista expressou o seu apoio a Marisa Matias nas eleições para a Presidência da República marcadas para janeiro de 2016. Recorde-se que Marisa repetiu a candidatura nas presidenciais seguintes (janeiro deste ano), trocando acusações contundentes com André Ventura.

Em setembro de 2016, o presidente do sindicato concedeu uma entrevista ao portal do Bloco de Esquerda (esquerda.net), em que, questionado pelo deputado Pedro Filipe Soares, defendeu como “crucial” o acesso da Autoridade Tributária a contas bancárias com mais de 50 mil euros (levantamento do sigilo fiscal) para combater a fraude e evasão fiscal.

No plano da política internacional, Paulo Ralha assinalou na sua conta de Twitter a oposição quer a Donald Trump, quer a Jair Bolsonaro. Assim aconteceu, em outubro de 2018, no rescaldo da eleição de Bolsonaro para presidente do Brasil, em que escreveu, comentando um tweet de Marisa Matias de apoio à resistência ao fascismo no Brasil: “Enquanto não conseguirmos fomentar uma cultura crítica e participativa dos indivíduos na vida pública, a democracia estará sempre em risco. Quando os homens que estão no poder caiem no onanismo partidário e os indivíduos são afastados das decisões, acontecem estas situações...”

Em fevereiro de 2019, também no Twitter, publicou em inglês o seguinte conteúdo: “Trump está no comando para afundar a América! Uma e outra vez, uma e outra vez, uma e outra vez. Quanta água é necessária para saciar a sede ignorante dos pescoços vermelhos?!!!”

Nesta rede social, a maior parte das poucas publicações que Paulo Ralha efetuou (ou, pelo menos, das que ainda são visíveis) são comentários a tweets originais da ex-eurodeputada Ana Gomes, de acolhimento às posições da socialista, que nas últimas presidenciais também trocou acusações graves com André Ventura.

Num desses tweets de resposta a Ana Gomes, em dezembro de 2018, Ralha avisa: “Enquanto os robôs não forem taxados, enquanto o comércio eletrónico continuar a ser um avatar em termos fiscais e a redistribuição estatal dos impostos cada vez mais uma miragem, os movimentos extremistas estão no paraíso.”

Na mesma linha de comentários de apoio a publicações, Mariana Mortágua também é suportada por Paulo Ralha em novembro de 2018, sobre as amnistias fiscais.

O Polígrafo contactou o Chega, questionando-o sobre a identidade existente entre o candidato e o partido, atendendo a estas posições de Paulo Ralha ao longo dos anos. Não obteve resposta.

Em suma, é verdadeiro que um candidato nas listas do Bloco de Esquerda em 2011, ex-sindicalista afeto à corrente socialista da CGTP, é agora cabeça de lista do Chega pelo círculo de Coimbra.

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Avaliação do Polígrafo:

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