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Cabeça-de-lista da AD por Santarém defendeu que Portugal está a perder milhões em investimento por “falsas razões climáticas”?

Política
O que está em causa?
Eduardo Oliveira Sousa discursou ontem à noite (29 de fevereiro) num comício da AD em Ourém, com enfoque nas políticas do setor da Agricultura. Uma intervenção que motivou críticas de adversários políticos e também nas redes sociais, por ter utilizado a expressão "falsas razões climáticas". Há mesmo quem o acuse de "negacionismo climático". O Polígrafo verifica.

O cabeça-de-lista da Aliança Democrática (AD) pelo círculo de Santarém e antigo presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Eduardo Oliveira Sousa, defendeu ontem à noite (29 de fevereiro), num comício realizado em Ourém, que Portugal tem de mudar as atuais políticas. Nesse sentido avisou que “quando o Estado se sobrepõe à iniciativa privada, quando se apropria da economia ou expulsa os mais capazes, não demora muito até surgir no horizonte uma nova bancarrota“.

Sublinhando que “temos de voltar a ser um grande país”, centrou o discurso no mundo rural. “Os agricultores viram-se obrigados a vir para a rua, tal tem sido o absurdo dos Governos e da Comissão Europeia que têm obrigado o setor a entrar por um beco apertado sem saídas dignas ou até atingíveis, fruto da pressão de um ambientalismo que se radicalizou, muitas vezes associado à ignorância ou à presunção”, apontou.

Mas a atenção de adversários políticos e de várias publicações nas redes sociais focou-se noutro ponto do discurso, quando terá utilizado a expressão “falsas razões climáticas”. No X/Twitter, por exemplo, comenta-se que “depois da xenofobia e do ataque às mulheres, a AD faz bingo e defende o negacionismo climático“.

Em causa está um momento em que Oliveira Sousa estava a falar da floresta que, na sua perspetiva, “não é apenas um parque temático ou um armazém de carbono, é economia”. Nesse contexto, de facto, afirmou:

“Proíbem novas plantações às cegas, baseados em ideologias da extrema-esquerda, movidos por um dissimulado combate à criação de riqueza e iludindo as pessoas com falsas razões de ordem climática ou de desequilíbrio no ordenamento do território. O resultado está à vista, a inação impera.”

Deu o exemplo de uma empresa portuguesa que concorreu ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de Portugal “para a implementação de um projeto inovador no fabrico de produtos sustentáveis de origem vegetal”, mas que acabou por fazer o investimento na Galiza, através do PRR de Espanha. “Viu-se obrigada a levar para a Galiza esse investimento de centenas de milhões de euros porque o Governo do PS quando ouviu a palavra ‘eucalipto’ reprovou o projeto sem sequer o avaliar”.

Não há dúvida sobre ter dito que se está a perder investimento devido a “falsas razões de ordem climática”, entre outras causas. Mas será legítimo concluir que “defende o negacionismo climático”?

Ao longo do mesmo discurso, Oliveira Sousa reconheceu que “sempre houve fenómenos extremos“, indicando alguns exemplos do passado, mas não negou explicitamente a existência de alterações climáticas.

Considerando que “o planeta tem vida própria”, o candidato sublinhou que “as alterações em curso são diferentes e são mais recorrentes” e, por isso, “há que deitar mão do conhecimento e dos meios técnicos para encontrar soluções que diminuam os riscos que sabemos que corremos“.

Em declarações ao Polígrafo, o próprio Oliveira Sousa explicou que “a palavra ‘climáticas’ foi mal escolhida” e pretendia dizer “razões ambientais”. Mais, garantiu que não nega a existência de alterações climáticas, até porque os agricultores são “as principais vítimas em termos de atividade económica das alterações climáticas que estão a agravar-se“.

Quanto às acusações de “negacionismo climático”, o candidato disse serem “deturpadas” e justificou: “O que eu quero dizer com isso é que as verdadeiras razões que levam a determinadas proibições são de carácter económico, ou combate à criação de riqueza, e não numa perspectiva de salvaguardar o clima ou a natureza. Portanto, é uma falsa maneira de abordar o problema, foi isso que eu quis transmitir.”

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Avaliação do Polígrafo:

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