"Na verdade agora os escravos somos nós. Escravos da publicidade, das campanhas de marketing, do consumismo. Esta é a triste história e significado da 'Black Friday'. Foi durante o comércio de escravos na América. Durante a 'sexta-feira negra', os escravos foram vendidos com desconto para impulsionar a economia", começa por explicar um dos "posts" divulgados no Facebook.

O esclarecimento que se segue é simples: a expressão "Black Friday" remete assim para os escravos negros, de "origem africana" e para o dia em que ocorria a venda, sexta-feira.

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"Já se tornou moda importarmos expressões sem questionar a origem das palavras ou seu verdadeiro sentido", conclui a autora da publicação. Respondendo à solicitação de vários leitores, o Polígrafo foi procurar a origem da expressão que enche todos os anos a caixa de e-mails dos portugueses.

Em declarações à AFP Checamos, o professor e historiador sul-africano Albert Grundlingh, da Universidade de Stellenbosch, assegura que a "Black Friday", tal como a conhecemos, teve origem nos EUA:

"Basicamente foi uma tentativa dos norte-americanos de manterem os seus lucros depois da celebração do Dia de Ação de Graças. De passá-los ao ‘preto’ [expressão utilizada em inglês quando alguém tem ganhos positivos, o correspondente a ‘estar no azul’ em português] saindo do ‘vermelho’. Assim, tem mais que ver com suas contas bancárias do que com qualquer outra coisa."

De acordo com um documentário do canal televisivo "History", a designação "Black Friday" terá surgido na altura do crash no mercado do ouro nos EUA, a 24 de setembro de 1869. Nesse dia, dois especuladores financeiros, Jay Gould e Jim Fisk, conseguiram lucrar com a queda livre dos preços da matéria-prima, depois de terem comprado o máximo de ouro que puderam, na esperança de aumentar o preço e vendê-lo com lucros exponenciais.

Mas há mais explicações para o advento do conceito de "Black Friday". A plataforma norte-americana de fact-checking "Snopes" indica que a expressão terá sido registada pela primeira vez em 1951, quase 100 anos depois da abolição da escravatura nos EUA. O termo era utilizado para se referir ao elevado número de pessoas que faltavam ao trabalho para fazer "ponte", na altura do feriado do Dia de Ação de Graças, dizendo que estavam doentes. Este fenómeno de absentismo programado começou a ser classificado com uma expressão irónica entre a população dos EUA: a epidemia da “peste-de-ação-de-graças”.

Também numa tentativa de explicar a origem do termo, uma nota da American Dialect Society (Sociedade Norte-Americana de Dialetos) afirma que o termo Black Friday foi inventado em 1966 pela polícia da cidade da Filadélfia, estado da Pensilvânia, com uma conotação negativa devido ao grande congestionamento de carros e pedestres que saíam às ruas nesse dia. Segundo a explicação, esta teria sido uma tentativa, mal sucedida, de desencorajar os consumidores a fazerem compras de forma massiva nessa data.

Só mais tarde, na década de 1960, é que o termo passou a ser sinónimo das promoções feitas na sexta-feira após o Dia de Ação de Graças, referindo-se à confusão causada pelo grande número de consumidores nas ruas. Gradualmente, o conceito foi ganhando popularidade e, a partir da década de 1990, passou a ser oficialmente utilizado para designar o dia que inaugura a época de compras de Natal. Mais recentemente, a Black Friday popularizou-se como o dia em que as lojas vendem produtos com grandes descontos.

Em suma, independentemente das diferentes versões da história, o facto é que a origem da Black Friday não tem qualquer relação com o comércio de escravos negros nos EUA. Aliás, a escravatura foi banida por lei nos EUA em 1865, com a 13ª Emenda à Constituição, quatro anos antes do crash no mercado do ouro.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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