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Beber um copo de vinho tem o mesmo efeito que fazer uma hora de exercício físico?

Sociedade
Este artigo tem mais de um ano
O que está em causa?
Tem sido divulgado que a ingestão de um copo de vinho tinto por dia tem os mesmos efeitos no corpo humano que a prática de exercício físico durante uma hora. O Polígrafo falou com especialistas da nutrição desportiva para perceber se esta informação é ou não verdadeira.

A ideia é apelativa: em vez de fazer exercício durante uma hora no ginásio, basta beber um copo de vinho tinto e obtém o mesmo efeito para o corpo. A informação não é nova e nos últimos anos tem circulado pelas redes sociais em diferentes momentos, tendo recentemente chegado aos jornais portugueses. Mas será que um copo de vinho tem os mesmos benefícios para o corpo que uma ida ao ginásio? Não é bem assim.

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“Essa informação refere-se ao efeito positivo do resveratrol – um antioxidante presente no vinho tinto – em vários parâmetros de saúde. O estudo citado na publicação refere-se apenas ao efeito do resveratrol, e não ao efeito do vinho, nos vários parâmetros estudados”, explica ao Polígrafo César Leão, nutricionista especializado em desporto e que acompanha a equipa do Futebol Clube Paços de Ferreira. “A extrapolação de resveratrol para o vinho tinto é realizada pelos autores da publicação”, acrescenta.

O artigo que Leão refere foi realizado em 2012 e tem como base um estudo que pretendia investigar “o efeito da suplementação com resveratrol no rendimento do exercício, na força de músculos isolados durante contração isométrica e no metabolismo oxidativo do organismo em ratos”, esclarece Leão dando ênfase à palavra “ratos”. “Ou seja, extrapolar automaticamente os resultados obtidos para os seres humanos (mesmo que fossem bons, que não é o caso necessariamente) não é de todo o mais aconselhável”, reforça ainda.

Este estudo coordenado por Vernon Dolinsky, publicado no Journal of Physiology, concluiu que existe uma pequena melhoria nos ratos que foram suplementados com resveratrol em comparação com o grupo que fez exercício e não tomou a substância. “No entanto, na comparação do grupo que foi suplementado com resveratrol e não fez exercício com o grupo que não tomou o resveratrol e fez exercício, percebemos que o exercício é uma variável muito mais importante para a obtenção dos resultados”, continua o nutricionista.

estudo

Outra questão importante neste estudo é a quantidade de resveratrol que foi utilizada e a quantidade de vinho que isso implicaria para o ser humano. No estudo, os ratos receberam uma dose de 4g/kg, o que significa que, “se convertermos para a dose a aplicar em humanos, dá uma quantidade de 24mg/kg por pessoa. Se aplicarmos um valor médio de 70kg, temos uma dose de 1.680mg de resveratrol por dia”, calcula Leão. Isso significa muito mais do que um simples copo, até porque “no vinho podemos encontrar entre 0,361 a 1,972mg por litro de vinho (segundo o estudo da autoria de Sabine Weiskirchen e Ralf Weiskirchen, publicado em 2016)”, ou seja, “mesmo partindo do valor mais elevado – e arredondando para 2 –, seriam necessários 840 litros de vinho para obter a dose de resveratrol aconselhada pelo referido estudo”. Tendo em conta que um copo tem cerca de 170ml, seriam necessários pelo menos 4.940 copos.

Apesar de o estudo não confirmar esta ligação entre o consumo de um copo de vinho tinto e a prática de exercício físico, há evidência de que existem benefícios na ingestão moderada de vinho. Filipa Vicente, nutricionista e professora auxiliar do Instituto Universitário Egas Moniz, recorda que o vinho “é uma fonte privilegiada de fitonutrientes como o resveratrol e a quercetina que estão associados à prevenção de diversas doenças crónicas não transmissíveis, como a doença cardiovascular, o síndrome metabólico, o declínio cognitivo e algumas formas de doença oncológica devido aos seus efeitos anti-inflamatórios, anti-neoplásticos, anti-agregante plaquetários, neuroprotetores entre outros”.

A nutricionista Filipa Vicente deixa uma ressalva aos estudos desenvolvidos sobre o benefício do vinho: “A evidência que temos do benefício do vinho resulta de estudos epidemiológicos e não ensaios clínicos”, ou seja, “não foi testada a ingestão de vinho tinto, mas sim avaliada a sua frequência de ingestão, o que levanta sempre várias questões sobre a metodologia de avaliação de quanto foi realmente ingerido”.

Vinho
créditos: Mona Miller/Unsplashed

“Se apenas avaliar os números relativamente ao benefício da ingestão de vinho na mortalidade e a [relação da] prática de exercício com a mortalidade, encontramos resultados idênticos” explica ainda Filipa Vicente, cintando três estudos académicos (aqui, aqui e aqui). “Beber um – ou ligeiramente menos do que um – copo de vinho por dia parece ter o mesmo efeito na mortalidade do que 30 minutos de exercício por dia, segundo estes resultados. Mas não é um efeito que possa ser comparado porque alguns dos estudos que avaliam a ingestão de vinho não reportam se o estilo de vida dos seus participantes é ativo, apenas comparam quartis [unidade de bebida alcoólica por dia] de ingestão”, alerta.

Se por um lado a ingestão de vinho traz benefícios, por outro a quantidade de etanol presente neste produto está também associada ao crescimento do risco de determinadas doenças, aumentando também a taxa de mortalidade. “Não existe robustez na evidência sobre o efeito protetor do vinho tinto na prevenção do cancro, ainda que uma ingestão baixa também não pareça ter um efeito nefasto”, acrescenta ainda a professora de nutrição. Ou seja, é necessário fazer uma ingestão moderada que, segundo uma análise publicada recentemente, ronda os “100g de etanol por semana”, ressalvando que em cada copo de vinho estão “entre 8 e 14g de etanol”, reforça.

Filipa Vicente deixa ainda uma ressalva aos estudos desenvolvidos sobre o benefício do vinho: “A evidência que temos do benefício do vinho resulta de estudos epidemiológicos e não ensaios clínicos”, ou seja, “não foi testada a ingestão de vinho tinto, mas sim avaliada a sua frequência de ingestão, o que levanta sempre várias questões sobre a metodologia de avaliação de quanto foi realmente ingerido”. Para a professora ainda está por fazer “um ensaio clínico que comparasse diretamente o efeito da ingestão de um copo de vinho com 30-45 minutos de exercício no risco de doença em indivíduos adultos – e não jovens adultos ou seniores – para uma conclusão segura e mais válida do que apenas a comparação dos riscos”.

Avaliação do Polígrafo:

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