O título da notícia não deixa margem para dúvida: «Última hora: atentado islâmico em Madrid. Carrinha, a toda a velocidade, dirigia-se à Porta do Sol». Às palavras claras, e assertivas, sucede-se uma imagem que mostra um veículo de mercadorias e uma ambulância, e uma série de motas abalroadas, no chão. No meio do cenário caótico, aparentemente um civil, um técnico de emergência médica e um polícia. Porém, a vermelho, abaixo na notícia, surge um parágrafo que já não diz exatamente a mesma coisa que o título: «Possível atentado terrorista falhado no centro de Madrid. Até este momento, está a ser silenciado, como é hábito, pela ‘imprensa do sistema’».

A dúvida fica instalada: tratou-se de um ataque terrorista ou, essa, éapenas uma possibilidade? Não é claro, e a primeira frase do corpo da notícia torna o cenário ainda mais confuso: «Nós contamos o que aconteceu, você tira as suas conclusões». Ora, estão levantadas suspeitas de que a informação poderá não ser fidedigna à realidade: o texto contradiz-se e introduz considerações do autor, mesmo antes de relatar a história.

A explicação para o que aconteceu surge mais abaixo. O site que publicou a notícia, o La Tribuna de España, conta que um muçulmano roubou uma carrinha de mercadorias, colocando, para isso, uma faca no pescoço do motorista. O ladrão terá dirigido o veículo em direção à Porta do Sol, numa altura em que o monumento se encontrava repleto de turistas. A meio do percurso, acidentalmente, a carrinha acabou por embater em várias motas, causando, pelo menos, um ferido. O texto dá como certo que, se o veículo não tivesse chocado com os motociclos, teria atingido o alvo pretendido e teria causado uma verdadeira tragédia.

Os factos a que a Tribuna de España se refere aconteceram no dia 14 de maio, na Calle Mayor de Madrid. Durante a tentativa de roubo, a carrinha acabou por colidir com várias motas e uma vitrina, uma vez que condutor e ladrão se envolveram numa luta corpo a corpo.

Inacreditavelmente, tendo em conta que o texto se assume como uma notícia, surgem, depois, uma série de considerações políticas sobre o caso e até uma declaração do próprio autor, que assume que as autoridades espanholas lhe podem vir a imputar mais um crime de islamofobia, e que vários sites de verificação de factos vão apelidar a informação prestada pelo La Tribuna de España como uma notícia falsa.

Ora, é caso para dizer que o autor do texto faz a festa, lança os foguetes e apanha as canas, pois lança a notícia, faz uma análise política sobre o acontecimento, e assume que a informação vai ser apelidada como falsa por órgãos de comunicação social credíveis. Na verdade, foi mesmo isso que aconteceu. O site de verificação de factos Maldita.es avança que a notícia é realmente um embuste. A Polícia Municipal de Madrid confirmou ao jornal que, embora o incidente seja real,  não se tratou de um ataque terrorista e o detido suspeito de tentar roubar a carrinha não tinha consigo uma faca ou qualquer arma branca, como afirma o Tribuna de España. Além disso, as autoridades nunca revelaram a nacionalidade do autor da tentativa de roubo.

Os factos a que a Tribuna de España se refere aconteceram no dia 14 de maio, na Calle Mayor de Madrid. Durante a tentativa de roubo, a carrinha acabou por colidir com várias motas e uma vitrina, uma vez que condutor e ladrão se envolveram numa luta corpo a corpo. Mesmo antes de serem publicadas notícias sobre o caso, um vídeo do aparato, nos minutos seguintes ao acidente, começou circular nas redes sociais. Apesar de não dar grandes detalhes sobre o evento, as publicações falam sempre em roubo e nunca em ataque terrorista. No próprio dia, a informação foi confirmada pela polícia, na conta oficial do Twitter.

No fim de contas, é possível afirmar que a partir de dados relativamente simples, uma tentativa de roubo sem grandes consequências, a Tribuna de España cria um evento grave, com capacidade para geral convulsão social, como é um ataque terrorista. Considerando o discurso da notícia falsa, o texto parece politicamente engajado numa linha de extrema direita, pois aborda a aparente falta de segurança na capital espanhola como uma responsabilidade política e, de forma automática, associa uma possibilidade de ataque terrorista à religião islâmica.

Avaliação do Polígrafo:

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