A vacinação é um tema recorrente das publicações em redes sociais, enquanto se assiste a novos surtos de doenças antes controladas e uma adesão crescente aos movimentos anti-vacinas. Em algumas páginas ligadas a esses movimentos tem sido partilhado um artigo do site brasileiro "Coletividade Evolutiva", com o seguinte título: “Alerta total: Vacinas estão com genomas abortados causadores de câncer”. Vários utilizadores do Facebook denunciaram este conteúdo como sendo fake news. Confirma-se? Verificação de factos.

“As vacinas são rotineiramente formuladas com células fetais humanas abortadas conhecidas como MRC-5 e WI-38”, começa por se indicar no texto do artigo, remetendo para a lista de componentes das vacinas do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla inglesa) dos EUA, assim como outras listagens de componentes de vacinas Varivax e Prorix-Tetra.

E continua: “Um laboratório na Itália realizou um sequenciamento genómico completo dessa linha de células MRC-5 que é deliberadamente inserida em várias vacinas. O que eles encontraram além de chocante… É horrível”. O autor anónimo do texto acusa a “indústria das vacinas” de estar a injetar “crianças com câncer de engenharia”.

“560 genes de câncer, ADN [Ácido Desoxirribonucleico] anormal, ‘modificação’ genética de genes potencialmente perigosos, mas que devem ser injetados em todas as crianças”, ironiza.

Vamos por partes. O que são a MRC-5 e o WI-38 que surgem referidas no artigo como sendo “células fetais humanas abortadas”? “São linhas celulares utilizadas em laboratório”, explica Mónica Fernandes, responsável pela área de Imunologia no curso de Farmácia da Escola Superior de Saúde da Universidade do Algarve, em declarações ao Polígrafo.

Enquanto a WI-38 começou a ser usada na década de 1960, a MRC-5 só passou a integrar o processo no início de 1970. Segundo um estudo assinado por J.P. Jacobs, C.M. Jones e J.P. Baille, intitulado como “Characteristics of a Human Diploid Cell Desginated MRC-5”, esta linha celular “deriva de um tecido pulmonar fetal, retirada a um feto masculino de 14 semanas removido por razões psiquiátricas a uma mulher de 27 anos com historial familiar genético normal e sem sinais de doenças neoplásicas tanto na altura do aborto e, pelo menos, nos três anos seguintes”.

A utilização de linhas celulares é uma prática comum e estas culturas de células fazem parte quer da produção de algumas vacinas, quer de determinados medicamentos. A função principal das linhas como a MRC-5 e a WI-38 é permitir a reprodução dos vírus para que seja criado o antigénio, que é o componente principal da vacina. “O vírus é um ser que não tem metabolismo, que não se replica sem ser numa célula hospedeira”, sublinha Mónica Fernandes, acrescentando que existem certos vírus que “têm preferência por determinadas células”.

“O objetivo é fazer crescer o vírus”, esclarece Olga Borges, investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, especializada na área das vacinas. “O vírus é o princípio ativo, digamos assim. É a substância da vacina que tem efeito farmacológico. O objetivo é multiplicar os vírus e isso pode ser feito em linhas celulares”, afirma, embora ressalvando que “cada vacina é um caso” e que nem todas são produzidas em linhas celulares.

Apesar de o MRC-5 fazer parte do processo de criação do componente ativo de algumas vacinas, a presença destas linhas celulares no componente final é apenas vestigial. “Eles dizerem que as vacinas têm na sua composição as células onde os vírus são produzidos é completamente mentira. Não podem ter células. Eventualmente podem existir vestígios de alguns componentes da cultura celular. Porque depois de serem produzidas as substâncias ativas há um processo de purificação cujo objetivo é eliminar tudo o que serviu para a produção daquela substância ativa”, garante a investigadora.

Na lista do CDC citada no artigo em causa, onde surgem enumerados os componentes incluídos nas vacinas distribuídas nos EUA, verifica-se que existem dois tipos de materiais presentes na composição das vacinas. Enquanto uns são “adicionados à vacina como um propósito específico” - o que inclui os “conservantes”, os “adjuvantes” e os “estabilizadores” -, outros “são residuais”, tendo sido “usados durante o processo de manufatura e removidos”. Entre eles estão citados os “materiais de cultura de células”, os “ingredientes de inativação” e os “antibióticos”.

“Pode haver vestígios das substâncias que foram usadas tanto na cultura como para inativar os vírus, para depois poderem fazer parte das vacinas, mas há limites que estão legislados”, assegura Mónica Fernandes, remetendo para as entidades de regulação farmacêutica, como a Agência Europeia do Medicamento e, no caso português, o Infarmed.

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Sequenciamento genético e cancro

O artigo foca-se em grande parte na alegação de que a MRC-5 é uma célula doente que contribui para o aparecimento de cancro nos pacientes que tomaram as vacinas. “O que está claro nesse sequenciamento genético é que a indústria de vacinas está inoculando crianças com câncer de engenharia. Com a CHD explica, as vacinas são formuladas deliberadamente com genes causadores de câncer que foram modificados especificamente para promover tumores de câncer”, denuncia-se no texto.

A base para as afirmações feitas neste artigo da "Coletividade Evolutiva" é um outro texto publicado na "Corvelva" - uma página italiana com conteúdos assumidamente anti-vacinas e que tem vindo a pugnar pela suspensão da vacinação obrigatória na Itália - que apresenta um sequenciamento genético da MRC-5.

Nesse outro texto sustenta-se que “o ADN genómico humano contido nesta vacina é claramente e indubitavelmente anormal, apresentando importantes inconsistências com um genoma humano típico, isto é, com o de um indivíduo saudável”.

De recordar que os vestígios de MRC-5 que podem ser encontrados nas vacinas resultam, como explicaram ao Polígrafo as duas especialistas, de um processo de cultivo em que a linha celular é infetada propositadamente para proliferar o vírus antes de este ser inativado, purificado e introduzido na vacina.

“A questão aqui é eles relacionarem isso com a possibilidade de induzir cancro e aí é que já há uma distância muito grande”, afirma Olga Borges. “Mesmo que existam vestígios de ADN proveniente das células onde os componentes da vacina são produzidos, é muito difícil que isso vá induzir cancro. O ADN iria ser destruído pelas enzimas presentes nos nossos tecidos, as DNAses, não chegando a entrar nas células, e muito menos no núcleo das nossas células onde efetivamente teria de chegar para se percepcionar algum efeito”, acrescenta, sublinhando que desconhece a existência de um qualquer “artigo científico que provasse isso”.

Além disso, Olga Borges recorda que as quantidades de ADN que poderão fazer parte das vacinas são vestigiais e que estes componentes, na grande maioria das vezes, só são tomados uma vez. “A pessoa, por exemplo, recebe a vacina contra o sarampo e faz o reforço quatro ou seis anos mais tarde. Não lhe volta a ser administrada essa vacina. Se por mera hipótese a vacina contivesse uma quantidade vestigial de ADN, esta seria destruída pelo nosso organismo. Não há ali oportunidade para se desenvolver nenhum cancro. O cancro é o resultado e fruto de uma exposição continuada a determinados químicos, no caso das vacinas não há uma exposição continuada à vacina”, conclui.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falso: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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