As declarações de Luís Aguiar-Conraria no programa de informação "360º" da RTP3 motivaram centenas de publicações nas redes sociais. “Ainda há um ou dois dias era notícia em todos os jornais, estavam espalhadas pela Internet toda, um estudo feito nos EUA que mostrava que as crianças eram tão contagiosas, ou ainda mais contagiosas, do que os adultos. Uma pessoa vai ver o estudo e o estudo não diz nada disso. Pelo contrário, o estudo é explícito a dizer que não estudou a possibilidade de contágio das crianças, apenas estudou as cargas virais. Portanto, o estudo explicitamente diz que não estudou um assunto e o que vai para os títulos, o que vai para as aberturas das notícias é uma falsidade”, afirmou o professor de Economia e colunista do jornal "Expresso".

Entre as referidas publicações destaca-se um vídeo que mostra um excerto da intervenção de Aguiar-Conraria e indica o link de acesso ao estudo em causa, intitulado como “SARS-CoV-2 na Pediatria: Apresentação Clínica, Infectividade, e Resposta Imunitária” e realizado no Hospital Geral de Massachussetts, EUA.

O Polígrafo confirmou junto de Aguiar-Conraria que era este o artigo científico (publicado no dia 19 de agosto de 2020) a que se referia no seu comentário. Ora, com base nesse estudo é possível (ou não) concluir que as crianças são um importante meio de transmissão da Covid-19?

“Este estudo revela que as crianças podem ser uma potencial fonte de contágio na pandemia de SARS-CoV-2 apesar da doença mais suave ou falta de sintomas”, salienta-se nas conclusões do artigo publicado no "Journal of Pediatrics". Por outro lado, na secção da discussão, os autores defendem que “apesar de a transmissibilidade não ter sido avaliada neste estudo, as crianças com uma carga viral elevada e com sintomas que não são específicos, incluindo rinorreia e tosse, podem provavelmente transmitir SARS-CoV-2 tão facilmente como outra infeção viral propagada por partículas respiratórias”.

“Os autores do estudo encontraram uma carga viral em crianças com SARS-CoV-2 positivo assintomáticas superior à encontrada em alguns adultos com a doença”, explica Teresa Bandeira, pediatra especialista na área de Pneumologia, questionada pelo Polígrafo. Além disso, a investigação demonstrou existir “um número razoável de crianças positivas para SARS-CoV-2 que não tinham um contacto intradomiciliário positivo, o que sugere transmissão na comunidade também no caso das crianças”.

Ou seja, o estudo não analisou diretamente o papel das crianças na transmissão da doença, mas ao identificar uma elevada carga viral nas crianças infetadas com o novo coronavírus, e por haver uma grande quantidade destas crianças assintomáticas ou que apresentam sintomas leves, os autores consideram que se deve equacionar a possibilidade de as crianças também serem um veículo de transmissão desta doença.

“Os autores do estudo encontraram uma carga viral em crianças com SARS-CoV-2 positivo assintomáticas superior à encontrada em alguns adultos com a doença”, explica Teresa Bandeira, pediatra especialista na área de Pneumologia.

“A transmissão do SARS-CoV-2 em pediatria ainda permanece um enigma”, sublinhou Maria João Rocha Brito, coordenadora da unidade de Infeciologia Pediátrica do Hospital Dona Estefânia, em reunião de acompanhamento da pandemia de Covid-19 (mais conhecidas como “reuniões do Infarmed”, por terem decorrido no edifício da agência do medicamento, em Lisboa), realizada no dia 7 de setembro.

Citando resultados de vários estudos científicos, Rocha Brito explicou que “não são as crianças que habitualmente infetam os adultos dentro de casa”.

“A infeção não se transmite em todos os grupos etários da mesma forma. Ou seja, todas as crianças e adolescentes podem realmente transmitir a infeção, mas de uma forma diferente nos diferentes grupos etários. Abrir infantários é uma coisa, abrir secundárias é outra, abrir faculdades é outra”, acrescentou a especialista, sustentando as suas declarações com os resultados de um estudo elaborado na Coreia do Sul que contou com a participação de 19 mil crianças.

Para encontrar uma conclusão sobre o verdadeiro papel das crianças na transmissão da Covid-19 é necessário continuar a investigar a matéria, incluindo a elaboração de estudos em que “não metam as crianças dos zero aos 22 anos todas na mesma amostra, porque as consequências da transmissão da doença nas escolas, nos vários tipos de ensino, será diferente”, defendeu Rocha Brito.

A preocupação dos autores do estudo realizado no Hospital Geral de Massachusetts tem vindo a ser manifestada em vários artigos. O facto de existir um elevado número de crianças assintomáticas, ou que apresentam sintomas leves, coloca a hipótese de se tornarem transmissores silenciosos.

“Uma revisão da literatura admite que as crianças, por serem frequentemente assintomáticas ou apresentarem sintomas ligeiros e cargas virais semelhantes, podem representar um elo na transmissão viral”, afirma Teresa Bandeira ao Polígrafo, indicando que “a mesma revisão sublinha que, até ao momento, os dados sugerem que as crianças se infetam proporcionalmente menos do que os adultos, que se infetam sobretudo em casa e que, comparando com a gripe, o caso índice representado pela criança é consideravelmente menor (de 54% na gripe para 10% no SARS-CoV-2)”.

Por sua vez, Cátia Caneiras, representante da Comissão de Infeciologia Respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, declara ao Polígrafo que “aquilo que se sabe é que realmente parece que as crianças são menos infetadas do que os adultos e, quando o são, apresentam quadros clínicos menos graves do que os adultos”. Sobre a transmissão, a pneumologista considera que o papel das crianças na transmissão familiar “não está totalmente esclarecido”.

“Aquilo que a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) tem mencionado é que tem de se avaliar os estudos com alguma precaução, exatamente porque se tem de ir ao detalhe deste tipo de análise: quantas crianças foram estudadas, em que ambientes foi feita essa determinação de carga viral e qual é que foi a rotina no qual essas crianças estavam inseridas”, explica Caneiras.

A pneumologista Cátia Caneiras declara ao Polígrafo que “aquilo que se sabe é que realmente parece que as crianças são menos infetadas do que os adultos e, quando o são, apresentam quadros clínicos menos graves do que os adultos”. Sobre a transmissão, considera que o papel das crianças na transmissão familiar “não está totalmente esclarecido”.

Através de um comunicado emitido em agosto, a SPP defendeu que “a informação existente sobre a carga viral nas crianças infetadas é escassa, mas sugere que estas não sejam o grande veículo de transmissão da infeção SARS-CoV-2”.

“Os poucos estudos disponíveis sobre a transmissão da infeção na comunidade escolar, em países onde o ensino presencial foi retomado, indicam que os surtos escolares são raros e tendem a ocorrer sobretudo por transmissão entre os profissionais adultos, em zonas onde a transmissão na comunidade é elevada, não parecendo ser a transmissão criança-a-criança nem adulto-a -criança relevante na propagação de surtos”, lê-se no comunicado.

Em declarações ao Polígrafo, Caneiras realça que “o conhecimento científico precisa de algum tempo para ser consolidado, que é uma coisa que com a Covid-19 não tem existido porque há um grande mediatismo da projeção dos resultados dos estudos”.

E conclui: “A ciência tem de ser feita com múltiplos estudos, em diferentes ambientes e que têm de manter o rigor no cuidado da sua interpretação”.

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