A teoria de que a atividade humana terá um impacto de apenas 5% no aquecimento global está a ser propagada nas redes sociais com base numa declaração atribuída ao físico italiano Antonino Zichichi. De acordo com várias publicações no Facebook, Twitter e Instagram, o cientista terá assegurado que não há sustentação científica para a tese de que as ações humanas são responsáveis por este fenómeno relacionado com as alterações climáticas.

"O aquecimento global depende do motor meteorológico dominado pela potência do Sol. As atividades humanas afetam o máximo de 5%; os restantes 95% dependem de fenómenos naturais ligados ao Sol", destaca-se na suposta citação de Antonino Zichichi, descrito nos posts e tweets como professor emérito de Física Superior da Universidade de Bolonha, Itália.

As palavras atribuídas a Antonino Zichichi foram, de facto, recolhidas a partir de um artigo de opinião assinado pelo cientista que é conhecido por criticar o que entende ser um "catastrofismo climático". Foi publicado no jornal italiano "Il Giornale", a 30 de setembro de 2019, com o seguinte título (em tradução livre): "Cara Greta, estude: Poluição e clima são coisas diferentes."

A citação é autêntica, mas a teoria que veicula não tem fundamento científico. Uma pesquisa pelos dados avançados pelo cientista italiano - nomeadamente sobre a tese de que a atividade humana teria um impacto de apenas 5% no aquecimento global - não originou resultados que comprovassem esta teoria. Além de nenhum artigo científico fiável confirmar esta percentagem, o Polígrafo consultou fontes credíveis que demonstram que a ação dos seres humanos tem impacto no aumento gradual da temperatura global da atmosfera terrestre.

Segundo o relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) que estabelece as bases científicas sobre as alterações climáticas, "é inequívoco que a influência humana aqueceu a atmosfera, o oceano e a terra".

No mesmo plano, um documento do IPCC que visa responder a questões frequentes esclarece "como sabemos que os humanos são responsáveis pelas mudanças climáticas".

De acordo com os peritos do IPCC, "o clima é influenciado por uma série de fatores" naturais e humanos. Quanto aos naturais, os dois principais são "as variações na atividade do Sol, que alteram a quantidade de energia recebida do Sol", e "as grandes erupções vulcânicas, que aumentam o número de pequenas partículas (aerossóis) na atmosfera superior que refletem a luz solar e resfriam a superfície - um efeito que pode durar vários anos". No que diz respeito aos fatores humanos, os principais são "o aumento das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa e de aerossóis da queima de combustíveis fósseis, uso da terra e outras fontes".

Nesse sentido, os cientistas explicam que “as percentagens de aumento da concentração dos principais gases com efeito de estufa (dióxido de carbono, metano e óxido nitroso) atualmente registadas não têm precedentes, pelo menos nos últimos 800 mil anos". Além disso, sublinham que "várias linhas de evidência mostram claramente que esses aumentos resultam da atividade humana".

Os peritos do IPCC indicam ainda que há uma linha de evidência adicional que advém "da comparação entre a taxa de aquecimento observada nos últimos décadas e a que ocorreu antes da influência humana sobre o clima". Para os cientistas, as evidências recolhidas através dos anéis das árvores e de outros registos paleoclimáticos "mostram que a taxa de aumento da temperatura da superfície global observada nos últimos 50 anos excedeu a que ocorreu em qualquer período anterior de 50 anos nos últimos 2 mil anos".

Por isso, concluem, "a evidência mostra que os seres humanos são a causa dominante do aquecimento global observado nas últimas décadas".

Também a NASA, agência espacial norte-americana, publicou uma lista indicando que as principais "organizações científicas ao nível mundial emitiram declarações públicas que apoiam" a posição de que a probabilidade de o aquecimento global ser provocado pela atividade humana é extremamente elevada.

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EMIFUND

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

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