"Secretário-Geral Guterres: ONU pode ir à falência no final de outubro", destaca-se no título da suposta notícia, em imagem exibida num tweet de 12 de abril de 2021. "Não surpreende", comenta o autor da publicação.

De facto, esta notícia foi publicada num site denominado como "eTurboNews", mas no dia 8 de outubro de 2019. Ou seja, não é uma informação atual, ao contrário do que se sugere no tweet em causa.

Na altura, o alerta de António Guterres foi amplamente noticiado em órgãos de comunicação social de todo o mundo, desde logo pela Agência Lusa em Portugal. Constava de uma carta interna que o secretário-geral da ONU remeteu aos cerca de 37 mil  funcionários que trabalham para o secretariado da organização internacional, à qual a Agence France-Presse (AFP) teve acesso.

Nessa carta, Guterres admitia a existência de um défice financeiro, no final de setembro de 2019, na ordem dos 230 milhões de dólares (cerca de 209 milhões de euros) no orçamento operacional da ONU. Como tal, alertava que "as últimas reservas de tesouraria podem esgotar até ao final do mês" de outubro de 2019.

  • Guterres alertou para a supressão de liberdades em alguns países durante a pandemia?

    Numa publicação com mais de mil partilhas no Facebook, a psicóloga Joana Amaral Dias divulga um excerto videográfico de um discurso do secretário-geral da ONU sobre o aproveitamento da pandemia de Covid-19 em alguns países no sentido de suprimir liberdades fundamentais e "vozes dissonantes". Este conteúdo foi denunciado como "fake news". O Polígrafo verifica.

O secretário-geral da ONU sublinhou então que teriam de ser tomadas medidas para garantir o pagamento de salários da estrutura da organização até ao final de 2019.

"Para limitar as despesas durante o último trimestre do ano, António Guterres menciona, por exemplo, a possibilidade de adiar conferências e reuniões previstas e reduzir os serviços a serem prestados. Também foram dadas instruções para limitar as viagens oficiais às actividades consideradas como mais essenciais, adiar a aquisição de bens e serviços e efetuar uma economia energética", informou a Agência Lusa.

Guterres apontou também para os Estados-membros da ONU, salientando que "pagaram apenas 70% do montante total necessário para as atividades inscritas no orçamento ordinário de 2019". Uma referência que mereceu um tweet do então Presidente dos EUA, Donald Trump: "Então faça todos os Estados-membros pagar, não apenas os Estados Unidos!".

A ONU é financiada através de pagamentos obrigatórios de cada um dos seus 193 Estados-membros, além de contribuições voluntárias. Os EUA são o maior contribuinte para o orçamento geral, com um total de 22%. Seguem-se o Reino Unido, a Alemanha, o Japão e a União Europeia.

Não foi a primeira vez que Guterres alertou para os problemas de tesouraria da ONU. Em julho de 2018 já tinha remetido uma carta aos embaixadores dos Estados-membros, lembrando que subsistiam "atrasos no pagamento" das contribuições, que estava perante uma "situação financeira problemática" e que os recursos financeiros da ONU nunca tinham estado num nível "tão em baixo, tão cedo" no ano.

Concluímos que a notícia de uma possível falência da ONU é verdadeira, mas o aviso de Guterres data de outubro de 2019, logo a partilha de abril de 2021 foi feita como se se tratasse de uma notícia atual e de uma forma descontextualizada.

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Avaliação do Polígrafo:

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Descontextualizado
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