"Eu próprio já tive a primeira dose da vacina AstraZeneca, portanto percebo a preocupação que quem já foi vacinado tem sobre a qualidade da vacina, que quem espera pela vacina tem perante o impacto que possa ter não podermos contar com essa vacina, mas a verdade é que todo o plano de vacinação, até agora, tem decorrido conforme o previsto", afirmou esta tarde o primeiro-ministro, em debate na Assembleia da República.

O "Plano de Vacinação Covid-19" foi apresentado no dia 3 de dezembro de 2020 pela equipa coordenadora que o desenhou, pela ministra da Saúde, Marta Temido, e por António Costa. Apesar de apontar o início do processo de vacinação para janeiro de 2021, em Portugal começou-se a vacinar logo no dia 27 de dezembro de 2020.

Inicialmente, o plano indicava três fases de vacinação e definia os grupos prioritários a quem a vacina deve ser administrada. Neste âmbito, Portugal encontra-se na 1.ª fase, destinada a pessoas: com mais de 50 anos de idade e patologias associadas; residentes e profissionais em lares e unidades de cuidados continuados; profissionais de saúde; profissionais das forças armadas, forças de segurança e serviços críticos. Mais recentemente foram acrescentados os idosos com 80 ou mais anos a este primeiro grupo, assim como os titulares de órgãos de soberania e altos cargos com funções no quadro do "estado de emergência".

De acordo com o documento traçado pelos especialistas, nesta fase planeia-se vacinar um total de 1,6 milhões de pessoas com as duas doses da vacina, um valor ainda longe de ser alcançado.

A partir de abril deste ano prevê-se a entrada na 2.ª fase de vacinação, reservada a 1,8 milhões de pessoas com mais de 65 anos e cerca de 900 mil com mais de 50 anos e patologias associadas. Por último, na 3.ª fase, será garantida a vacina para a restante população, que poderá ser igualmente priorizada.

Em fevereiro, o primeiro-ministro fixou como objetivo vacinar 1,4 milhões de pessoas até ao princípio de abril, depois de já terem sido administradas mais de "meio milhão de vacinas".

"Ultrapassámos o meio milhão de vacinas já administradas. O objetivo que temos é que, até ao princípio de abril, consigamos cumprir o objetivo de vacinar 1,4 milhões de portugueses entre aqueles que estão nos grupos de riscos prioritários e os que prestam serviços nos serviços essenciais", declarou António Costa.

Até ao momento, em Portugal, já foram administradas 1.193.186 doses de vacina contra a Covid-19, de acordo com os dados fornecidos pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). Ainda assim, se atentarmos nos últimos dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde, relativos ao dia 16 de março de 2021, verificamos que apenas 3% (349.669 mil) dos portugueses já receberam as duas doses da vacina - ou seja, estão completamente vacinados contra a Covid-19. Por outro lado, estes 3% fazem parte dos 8% (851.022 mil) de pessoas que foram vacinadas com apenas uma dose.

Ora, tendo em conta o objetivo inicial de vacinar 1,6 milhões pessoas nesta primeira fase, é de notar que, se mantivermos o atual ritmo de vacinação de cerca de 22 mil doses por dia, este valor será atingido apenas no final do mês de junho ou início de julho. Ainda assim, e tendo em conta a suspensão da vacina da AstraZeneca, esta conjetura não tem em conta quer esta última supressão, quer a possibilidade de aprovação de mais vacinas, a aguardar decisão do regulador europeu.

Quanto aos grupos de risco, a faixa etária com maior cobertura vacinal é a das pessoas com mais de 80 anos. Até agora são já cerca de 53% os idosos desse grupo etário com pelo menos uma dose da vacina, ou seja, 349.269. Destes, 104.011 receberam a vacinação completa, perfazendo um total de 16% de idosos imunizados, segundo o relatório de vacinação da Direção-Geral da Saúde (DGS). Ainda assim, ressalvamos que este valor está longe do objetivo inicialmente definido no "Plano de Vacinação Covid-19".

Importa também salientar que na semana passada foram administradas menos 48.476 primeiras doses do que na semana anterior, em que tinham sido mais de 133 mil. Ao todo já foram distribuídas 1.264.093 doses das 1.468.929 recebidas. Restam assim cerca de 200 mil doses para administrar.

No geral, Portugal está em atraso no processo de vacinação, condicionado pela demora na entrega de vacinas e, neste momento, também pela supressão da vacina da AstraZeneca. À semelhança dos restantes países europeus, Portugal recebe as vacinas por tranches e as doses têm de ser direcionadas e administradas num curto período de tempo para que o fármaco mantenha a eficácia intacta.

A vacinação está, assim, a ser feita em três momentos que abrangem diferentes parcelas da população. Mais, este plano não é estanque, como já verificámos, e varia em função da disponibilidade de doses, estando sujeito a alterações, atrasos e recuos. Assim sendo, consideramos que a alegação do primeiro-ministro é imprecisa e está dependente de variáveis que o Governo não consegue controlar, como é o caso da suspensão de vacinas.

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Avaliação do Polígrafo:

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