O debate desta noite, na RTP, começou com uma intervenção de Catarina Martins, que acusou o PS de "desejar uma maioria absoluta". Para a bloquista, a geringonça providenciou "quatro anos de estabilidade e crescimento económico" que voltaria a repetir, mas não sem uma série de exigências. António Costa tem uma opinião diferente.

"A maioria absoluta não é um objetivo em si. Ninguém me ouviu falar em 2015 e em 2019 de maioria absoluta. O que é que acontece? No ano passado, em 2020, quando estávamos no momento mais grave da pandemia, quando não havia sequer um português ainda que já tivesse levado a vacina, a direção do Bloco de Esquerda decidiu romper o diálogo à esquerda", afirmou o secretário-geral do PS, logo primeira intervenção do debate.

"O Orçamento do Estado para 2021, que permitiu o pagamento do layoff a 100%, que teve um aumento histórico do reforço do Serviço Nacional de Saúde, que permitiu alargar o prazo do subsídio de desemprego, não contou com o apoio do Bloco de Esquerda. O PS teve que negociar exclusivamente com o PCP e com o PEV. Portanto, o Bloco de Esquerda já rompeu não foi este ano, já foi no ano passado", acusou o primeiro-ministro, depois de ouvir a líder dos bloquistas referir que o desejo do PS de ter maioria absoluta é "um obstáculo", mas "não vai acontecer".

Obstáculo ou não, será mesmo verdade que Costa nunca falou sobre uma maioria absoluta nas campanhas para as eleições legislativas de 2015 e 2019?

O pedido de maioria absoluta por parte do líder socialista aconteceu na manhã de 26 de setembro de 2015, quando Costa falou aos jornalistas no final de uma arruada nas Caxinas: "Para que não haja variantes, quero uma maioria clara, inequívoca, absoluta. É disso que o PS precisa e que o país precisa."

"Para que não haja variantes, quero uma maioria clara, inequívoca, absoluta. É disso que o PS precisa e que o país precisa", declarou António Costa, na campanha para as eleições legislativas de 2015.

Segundo noticiou o jornal "Observador" à data, até então Costa "tinha tido cautela nos adjetivos para qualificar a maioria que pede", mas naquela manhã, "embalado por uma boa recepção nas Caxinas, mas não um banho de multidão, Costa deixou-se levar e aos jornalistas disse que o que queria mesmo era uma 'maioria absoluta'".

Além do "Observador", também o jornal "Sol", a SIC Notícias e a TVI citaram Costa desta forma, em declarações inequívocas que dispensam explicações:

"Numa passagem rápida por Caxinas, menos de meia-hora, António Costa subiu ao palanque para fazer um apelo ao voto. Mas foi na rua, por entre abraços 'ao povo', como lhe chamou, que respondeu a um jornalista que o PS se bate pela maioria absoluta", noticiou a TVI sobre a arruada.

"Se ontem usou três adjetivos para pedir maioria sem, no entanto, usar o superlativo, hoje fê-lo, quando interpelado: 'Não, não é para não haver variantes para qualquer adjetivo. Uma maioria clara, inequívoca, maioritária. Uma maioria absoluta é o que o PS precisa, é o que o país precisa'", lê-se na mesma notícia de 26 de setembro de 2015.

Já antes, a 17 de agosto de 2015, no dia em que entregou as listas às legislativas desse ano, Costa dissera à RTP que queria um resultado que "não seja só inequívoco, mas que seja mesmo um resultado que permita dar uma maioria absoluta, que nos permita governar com este programa e virar a página da austeridade".

Se estas foram as palavras utilizadas pelo socialista em 2015, quatro anos depois e com bloquistas e comunistas a segurar o PS, Costa não repetiu o desejo. Os acordos mantiveram-se mas, em 2021, rompeu-se a geringonça, que Costa quer agora esquecer para iniciar um novo percurso, desta feita sozinho.

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Nota editorial: Texto alterado às 22h30 de 11 de janeiro para incluir novas declarações de António Costa sobre a necessidade de uma maioria absoluta, proferidas a 17 de Agosto de 2015. A avaliação não foi alterada.

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