"Eu creio que o país, neste momento, precisava de tudo menos desta crise política. Porque, como disse o senhor Presidente da República, o que é urgente é virar a página desta pandemia. E focarmo-nos a 100% naquilo que é essencial: a recuperação e o progresso. E a recuperação e o progresso do ponto de vista económico e do ponto de vista social", começou por declarar António Costa, no debate de ontem entre os líderes dos dois principais partidos que se candidatam às eleições legislativas.

"Nós, felizmente, já conseguimos retomar uma taxa de desemprego ao nível em que estávamos antes da crise. Nós já conseguimos ter as empresas portuguesas a exportarem mais do que exportavam em 2019. Nós tivemos no ano passado, em 2021, um recorde de investimento empresarial de mais de 20 mil milhões de euros, só nos primeiros nove meses do ano", enumerou o atual primeiro-ministro.

Relativamente às exportações, o que foi dito por Costa tem sustentação factual?

No início desta semana, a 10 de janeiro, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou novos dados (atualizados até novembro de 2021) sobre as exportações e importações de bens em Portugal.

"Em novembro de 2021, as exportações e as importações de bens registaram variações homólogas nominais de +15,7% e +32,3%, respetivamente (+2,8% e +17,6%, pela mesma ordem, em outubro de 2021). Face a novembro de 2019, verificaram-se variações de +15,1% nas exportações e +17,0% nas importações, sendo de destacar os acréscimos nas exportações e importações de 'Fornecimentos industriais' (+40,9% e +47,3%, respetivamente) e nas importações de 'Combustíveis e lubrificantes' (+44,9%)", informou o INE.

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"No trimestre terminado em novembro de 2021, as exportações de bens aumentaram 9,3% e as importações cresceram 22,5% em relação ao mesmo período de 2020 (+8,8% e +18,8%, pela mesma ordem, no trimestre terminado em outubro de 2021). Comparando com o trimestre terminado em novembro de 2019, as exportações e as importações aumentaram 8,4% e 9,8%, respetivamente", destaca-se na mesma nota.

"No período acumulado de janeiro a novembro de 2021, relativamente ao mesmo período de 2019, as exportações aumentaram 5,2% (+17,6% face ao mesmo período de 2020) e as importações cresceram 0,9% (+19,5% face a 2020), salientando-se em ambos os fluxos o acréscimo nos 'Fornecimentos industriais' (+12,2% e +19,9%, respetivamente) e o decréscimo no 'Material de transporte' (-11,0% e -32,3%, pela mesma ordem)", acrescenta-se.

Estes dados, porém, limitam-se às exportações de bens, não incluindo as exportações de serviços que representam uma fatia considerável do total de exportações. Ainda não há dados relativos às exportações de serviços em 2021, mas tratando-se de um indicador associado sobretudo ao setor do Turismo que sofreu um enorme rombo em 2020 e do qual ainda não recuperou para níveis de 2019, pré-pandemia (assim indicam os últimos dados do INE), decerto que a evolução dos números em 2021 não será tão positiva em comparação com as exportações de bens.

Aliás, no último Boletim Económico (dezembro de 2021) do Banco de Portugal encontramos dados (até 2021) e estimativas (para os próximos anos) que apontam precisamente nesse sentido.

"A recuperação das exportações é diferenciada entre bens e serviços, com as exportações de bens a excederem o nível pré-pandemia no final de 2021. As perturbações no abastecimento de matérias-primas e bens intermédios tiveram um impacto negativo nos trimestres recentes sobre as exportações de alguns setores relevantes, destacando-se o setor automóvel. Após um crescimento de 10,6% em 2021, as exportações de bens crescem 3,9% em 2022, seguido de um crescimento de 6,1% em 2023, refletindo a gradual dissipação daquelas perturbações ao longo de 2022. Em 2024, as exportações de bens crescem 3,3%, em linha com a procura externa dirigida às empresas portuguesas", lê-se no documento.

"Refletindo o levantamento das restrições à mobilidade internacional e o aumento da confiança, as exportações de serviços - em particular de Turismo e serviços de transporte associados - têm vindo a recuperar de forma acentuada, após a queda abrupta em 2020 e no início de 2021. O agravamento recente da pandemia na Europa implica uma evolução mais contida dos fluxos de Turismo nos próximos meses. Assume-se que, a partir do segundo trimestre de 2022, as exportações de Turismo retomam um crescimento forte, antevendo-se um aumento das exportações de serviços de 35,1% em 2022 (7,2% em 2021), seguido de crescimentos mais moderados em 2023-24 (11,3% e 5,1%). Esta será a componente da despesa com o contributo mais importante, 3 p.p., para o crescimento do PIB em 2022. As exportações de serviços atingem o nível pré-pandemia no final de 2023", projeta o Banco de Portugal.

Em suma, é verdade que as exportações de bens já estão a níveis superiores (de acordo com os últimos dados disponíveis, até novembro de 2021, sublinhe-se) aos registados em 2019, antes da pandemia. O mesmo não se aplica, porém, às exportações de serviços (baseadas essencialmente no Turismo), com o Banco de Portugal a projetar uma recuperação até ao nível pré-pandemia apenas "no final de 2023".

Na medida em que ainda não há dados relativos às exportações de serviços em 2021, ao que acresce o facto de o volume de exportações de bens representar uma fatia maioritária do total das exportações, classificamos a alegação de Costa - "as empresas portuguesas já estão a exportar mais do que em 2019" - como verdadeira, mas não incluindo os serviços.

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