No final de uma ação de campanha autárquica que decorreu segunda-feira na Feira de Espinho, distrito de Aveiro, Catarina Martins acusou António Costa de um "exercício de cinismo" em relação aos recentes despedimentos na Galp. A líder do Bloco de Esquerda (BE) tinha sido questionada sobre as declarações, que no domingo, o secretário-geral do PS em visita a Matosinhos teceu sobre o encerramento da refinaria da Galp no concelho.

"Era difícil imaginar tanto disparate, tanta asneira, tanta insensibilidade, tanta irresponsabilidade, tanta falta de solidariedade como aquela que a Galp deu provas aqui em Matosinhos", apontou António Costa, considerando que a ação da empresa constitui "um exemplo de escola de tudo aquilo que não deve ser feito por uma empresa que seja uma empresa responsável".

Costa deixou ainda o aviso: "Quem se porta assim tem de levar uma lição, para que esta lição seja exemplar para todas as outras empresas que vão ter de enfrentar processos semelhantes, neste processo de transição energética”.

Em relação a estas afirmações, Catarina Martins evidenciou a inação do Governo, referindo o seguinte: "Sim, o Estado devia ter impedido aqueles despedimentos e quando eu questionei António Costa no parlamento ele disse que não ia fazer nada", referindo ainda que o primeiro-ministro "não pode agora estar chocado com aquilo que quis".

A afirmação da líder do BE tem fundamento?

No dia 22 de abril de 2020, durante o debate quinzenal com o primeiro-ministro na Assembleia da República (que pode ver aqui), Catarina Martins dirigiu ao primeiro-ministro uma série de questões relacionadas com a distribuição de dividendos em várias empresas, em contraste conta a situação precária de milhares de trabalhadores durante a pandemia.

"Esta semana é a vez da Galp, que despediu dezenas de trabalhadores precários logo no início da crise e que está parada neste momento e que no entanto pretende entregar mais de 300 milhões de euros em dividendos aos acionistas. O Estado tem uma participação na Galp e vai estar representado na reunião e eu gostaria de saber que indicações deu o Governo aos representantes do Estado. Vão votar contra ou a favor da distribuição de  dividendos?", perguntou a deputada e líder do BE.

António Costa começou por responder: "Nós impusemos a proibição de despedimentos e a proibição de distribuição de dividendos nas empresas a quem concedemos apoios. Seja as empresas que beneficiam de lay-off, seja as empresas que estão a beneficiar do acesso a linhas de crédito. Essas não podem ter, nem distribuição de dividendos, nem despedimentos."

"Relativamente ao resto da economia nós devemos procurar perturbar o mínimo possível o funcionamento da economia e aquilo que são as expectativas legítimas.  Não há razão para impedir as empresas de distribuírem dividendos se não estiverem a beneficiar de nenhuma medida de auxílio do Estado, no caso concreto [Galp], o Estado enquanto acionista fica muito satisfeito de poder receber a sua quota parte dos dividendos a que tem direito e que são úteis para financiar a atividade do Estado", afirmou o primeiro-ministro.

Catarina Martins retorquiu: "Como é que é possível dizer que a prioridade é manter o emprego (...) e depois achar que é mais importante a Galp distribuir dividendos do que reintegrar os 80 trabalhadores precários que despediu da refinaria de Sines."

Em suma, é verdade que, em abril de 2020, quando questionado por Catarina Martins sobre a distribuição de dividendos na Galp, António Costa referiu que o Estado não iria interferir nesta decisão da empresa. No entanto, nesta ocasião, o primeiro-ministro não se referia diretamente aos despedimentos mas sim à referida distribuição de dividendos, apesar de as ações de despedimento serem descritas pela líder do BE como um possível efeito colateral desta divisão entre acionistas.

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Avaliação do Polígrafo:

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