“O diabo não chegou e, pelo contrário, temos, pela primeira vez desde o início do século, dois anos consecutivos de crescimento acima da média europeia, temos 341 mil novos postos de trabalho criados, temos mil milhões de euros a menos que os portugueses pagam em termos de IRS e vamos ter, pelo segundo ano consecutivo, o défice mais baixo da história da nossa democracia”, enumerou o primeiro-ministro António Costa, em entrevista à agência Lusa, no dia 22 de novembro. Costa referia-se aos alertas do PSD, no início da legislatura, ainda sob a liderança de Pedro Passos Coelho, de que a política do Governo do PS “conduziria à vinda do diabo”.

Começando pelo crescimento da economia portuguesa, de facto, “desde o início do século” que esse crescimento não superava a média europeia. Atente-se no estudo “Evolução do PIB e desemprego: Portugal e a média da União Europeia, 1998-2007”, de Nuno de Almeida Alves, investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, professor e diretor do Departamento de Métodos de Pesquisa Social no ISCTE-IUL. “Nos ‘anos de convergência’ (até 2000), o crescimento era mais elevado do que a média europeia”, mas “no período de forte abrandamento do crescimento europeu (2001-2003), Portugal chegou a entrar em recessão”, indica o estudo.

A divergência em relação à média europeia prolongou-se até 2017, ano em que a economia portuguesa cresceu 2,7%, acima da média europeia de 2,5%. Ao longo de 2018, a economia portuguesa tem continuado a crescer acima da média europeia, mas as contas anuais não estão fechadas. Pelo que tomar como garantido que serão “dois anos consecutivos” de crescimento acima da média europeia não é inteiramente exato, embora se trate do cenário mais provável.

Quanto aos “341 mil novos postos de trabalho criados”, de acordo com os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística (INE), a população empregada passou de 4.474 milhões no início da legislatura (outubro de 2015). Ou seja, foram criados cerca de 428 mil novos postos de trabalho, um número superior ao indicado pelo primeiro-ministro na referida entrevista.

Tomar como garantido que serão “dois anos consecutivos” de crescimento acima da média europeia não é inteiramente exato, embora se trate do cenário mais provável.

 

No que concerne aos “mil milhões de euros a menos que os portugueses pagam em termos de IRS”, na base de dados Pordata verifica-se que a receita total de IRS passou de 12.854 milhões de euros em 2014 para 12.230 milhões de euros em 2017. Ou seja, registou-se uma diminuição de 624 mil euros de receita total. O número indicado por Costa é uma projeção para os quatro anos de legislatura. Não é garantido que seja escrupulosamente atingido, mas há fortes probabilidades de tal acontecer.

Por fim, “o défice mais baixo da história da nossa democracia” pelo segundo ano consecutivo, depende do défice final de 2018 (por enquanto só há estimativas, mas apontam no sentido do défice mais baixo da democracia portuguesa) e da interpretação do défice final de 2017. O Governo considera que o défice do ano passado foi de -0,9% do PIB, mas a contabilização da injeção de capital (cerca de 4 mil milhões de euros) pelo Estado português na Caixa Geral de Depósitos (CGD) faz elevar o défice para -3%. O INE seguiu uma recomendação do Eurostat e incluiu o efeito da CGD no cálculo do défice público em 2017. No entanto, o ministro das Finanças, Mário Centeno, não concordou com essa inclusão. Para Centeno, tratou-se de “um investimento fora do regime de ajuda de Estado e não tem assim impacto, porque Portugal cumpriu todas as metas com que se comprometeu”.

Alguns números refridos por Costa não batem certo com os dados oficiais disponíveis e, em alguns casos, baseiam-se em estimativas que ainda não estão confirmadas. Apesar disso, são genericamente verdadeiros.

Como tal, a avaliação do Polígrafo é...

Verdadeiro, mas...