A defesa do princípio das "contas certas" voltou a ser um elemento central do discurso do primeiro-ministro António Costa na entrevista à revista "Visão", publicada esta semana, nomeadamente ao enjeitar a hipótese de um orçamento retificativo. Mas as contas que fez ao comparar a média de crescimento económico entre os últimos sete anos e o restante período desde o início do século não estão totalmente certas, apurou o Polígrafo.

"Nos quatro anos anteriores à minha governação, não houve nenhum em que não tivéssemos um [orçamento] retificativo. Desde que sou primeiro-ministro, só tivemos de fazer um orçamento suplementar, para dar resposta à emergência da pandemia. Até agora, cumprimos sempre as nossas previsões. E quando os resultados surpreenderam, face a essas previsões, foram sempre para melhor. Neste ano, previmos um crescimento de 6,5% e ele será, pelo menos, de 6,7%. Previmos um défice de 1,9%, mas ele não ultrapassará seguramente 1,5%", defendeu Costa.

Quando confrontado com o facto de o crescimento não ser "brilhante" face a outros países da União Europeia, o primeiro-ministro contrapôs: "Toda a gente anda muito apaixonada pelo crescimento do PIB [Produto Interno Bruto]. Ora, entre 2000 e 2015, nós crescemos a uma média de 0,2%. Qual é a média de crescimento dos últimos sete anos? Cerca de 2%. Crescemos acima da média europeia em todos os anos desde que sou primeiro-ministro, exceto em 2020."

De facto, os dados do Eurostat confirmam que, no período entre 2016 e 2019, o PIB de Portugal cresceu sempre acima da média da União Europeia. Em 2016, porém, a diferença foi ínfima. Após o interregno de 2020 (impacto generalizado da pandemia de Covid-19), Portugal voltou a crescer acima da média da União Europeia em 2021, embora a margem seja diminuta (5,5% para 5,4%). Esta série do Eurostat inicia-se em 2010 e, desde então, os únicos anos em que o PIB de Portugal cresceu acima da média da União Europeia foram os correspondentes ao quadriénio 2016-2019 e também em 2021.

No que respeita à taxa de crescimento real do PIB, o período entre 2015 e 2021 destaca-se com as variações mais positivas desde 2002, quando Portugal aderiu à moeda única europeia (excetuando o ano de 2020).

A saber: +1,79% em 2015, +2,02% em 2016, +3,51% em 2017, +2,85% em 2018, +2,68% em 2019, -8,30% em 2020 e +5,48% em 2021. Média de 1,43%, significativamente mais baixa do que a percentagem indicada por Costa na entrevista.

Contactado pelo Polígrafo, o gabinete do primeiro-ministro esclarece que contou com o presente ano de 2022, baseando-se em estimativas. O Banco de Portugal prevê um crescimento de 6,7% no final de 2022, tal como apontou Costa. É provável que venha a ser esse valor, ou próximo, mas ainda não está confirmado.

Entre 2002 e 2015, além de variações negativas da taxa de crescimento real do PIB em cinco anos, o maior aumento registou-se em 2007 com +2,51%. Foi a única vez, ao longo de todos esses anos, em que se superou a fasquia de +2%. No quadriénio 2016-2019, a taxa de crescimento foi sempre superior a +2% e atingiu mesmo o ponto máximo de +3,51% em 2017, um nível que já não era atingido desde o ano de 2000 (no final da década de 1990 chegou a superar a fasquia de +4%).

O aumento de 2021 foi o mais elevado desde 1990, sublinhe-se, mas importa ressalvar que a diminuição de 2020 foi a mais acentuada desde a década de 1950.

Quanto ao período entre 2000 e 2015, verifica-se um crescimento económico acumulado de 7,15%, o que perfaz uma média anual de cerca de 0,44% - e não de 0,2%, como indicou Costa na entrevista.

Em resposta ao Polígrafo, o gabinete do primeiro-ministro alega que "o crescimento entre 2000 e 2015 toma 2000 como ponto de partida" e, como tal, "não deverá incluir a taxa de crescimento do ano 2000 no cálculo" que corresponde ao "crescimento entre 1999 e 2000".

Seguindo essa lógica, porém, o ponto de chegada deveria ser o crescimento registado entre 2015 e 2016, o que perfaz uma média anual de cerca de 0,33%. Se contabilizarmos apenas os valores entre 2001 e 2015 chegamos a uma média anual de cerca de 0,22%.

  • António Costa gastou 9.400,60 euros em almoço de celebração do centenário de José Saramago?

    Só em vinho, a despesa teria ascendido a 8.100 euros, de acordo com a imagem da suposta fatura do almoço que surgiu ontem no Twitter e entretanto propagou-se viralmente nas redes sociais, acumulando centenas de milhares de partilhas. Além do primeiro-ministro, também o ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, participou na celebração. Mas o problema é que a fatura não corresponde a esse almoço, confirmou o Polígrafo junto do gabinete do primeiro-ministro. É uma "fake news".

De acordo com a Pordata, o PIB em 2000 cifrou-se em 128.414.445 euros, um número que é confirmado pelas "Séries Longas para a Economia Portuguesa", publicadas pelo Banco de Portugal e pelo Instituto Nacional de Estatística.

Segundo esses dados, o crescimento médio anual do PIB real per capita foi, "entre 2000 e 2020, de apenas 0,3%". Este valor está "muito influenciado pelos efeitos da pandemia em 2020 - excluindo este ano o crescimento médio foi de 0,8%".

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Nota editorial:

No dia 19 de dezembro foi eliminada deste artigo uma referência a "dados errados" que, na realidade, eram dados díspares e não tinham influência na avaliação final que se baseia no período temporal em causa.

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Avaliação do Polígrafo:

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