"Estamos a aproximar-nos dos países mais desenvolvidos da União Europeia. Sei que, agora, muitos preferem comparar-nos com os menos desenvolvidos. Mas acho que devemos comparar-nos com os mais desenvolvidos", começou por argumentar António Costa - na entrevista à revista "Visão", publicada esta semana -, logo depois de repetir o que tem afirmado nos últimos tempos: que Portugal cresceu "acima da média europeia todos os anos desde que sou primeiro-ministro, menos em 2000".

Além disso, Costa questionou se os países da Europa de Leste "são mesmo exemplos com os quais nos devamos comparar". E insistiu na narrativa: "Queremos comparar-nos com o PIB per capita de um país [Roménia] que perdeu 15% da sua população desde o princípio do século? Que tem menos oito anos de esperança de vida e mais do dobro da taxa de mortalidade infantil? Esse país é um exemplo para nós?"

  • Nível de escolaridade da população dos países da Europa de Leste é muito superior à de Portugal?

    O economista Ricardo Paes Mamede apresenta dados estatísticos que apontam nesse sentido, referentes à população entre 25 e 64 anos de idade que tem pelo menos o ensino secundário completo. Portugal destaca-se (pela negativa) na cauda da Europa, em contraste com os países da Europa de Leste que fizeram parte integrante da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ou do Pacto de Varsóvia. Esses dados estão corretos?

O primeiro-ministro prefere outros termos de comparação: Alemanha, França ou Itália. E não quer ficar atrás do crescimento nesses países. Quanto ao resto, os dados chegam-lhe para se colocar na linha da frente: "Temos algumas vantagens competitivas, como a da segurança e a da transição energética. E também já vencemos outro obstáculo em que nos comparávamos mal com esses países de Leste: o das qualificações."

"Em 2004", diz o primeiro-ministro, "só 25% da população portuguesa tinha, pelo menos, o ensino secundário. Nos países do alargamento, os números andavam nos 75%. Ora, de 2004 para cá, já os ultrapassámos ao nível da formação superior".

Esta alegação tem fundamento?

De acordo com os dados do "Eurostat", serviço de estatística da União Europeia, em 2004 registava-se 73,7% da população portuguesa (entre os 15 e os 64 anos) sem o ensino secundário completo, o que significa que 26,3% tinha, pelo menos, o ensino secundário completo.

Os dados da "Pordata" também confirmam a alegação do primeiro-ministro, mostrando que, em 2004, 12,9% da população residente com idade entre 16 e 89 anos tinha completado o ensino secundário. Ao que deve somar-se a percentagem de residentes com o ensino superior (9,3%). Contas feitas, ficamos assim perante uma percentagem muito próxima da apontada por Costa, de 22,2%.

Atualmente, os números para 2021 mostram que há 59,7% da população entre os 15 e os 64 anos com pelo menos o ensino secundário completo, um aumento significativo que, ainda assim, não evita que Portugal continue a sobressair entre os países europeus com menor percentagem da população que completou o ensino secundário ou superior.

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