A publicação em causa agrega duas fotografias, supostas provas de que dois dos manifestantes pró-Trump seriam, afinal, membros do movimento "Antifa". Na origem dos rumores estão algumas das tatuagens dos invasores, entre as quais um símbolo aparentemente ligado à esquerda e um outro associado à pedofilia.

As caras são conhecidas e foram das mais fotografadas na cobertura jornalística da invasão de dia 6 de janeiro. Jake Angeli, de 32 anos, em tronco nu, com várias tatuagens e com a cara pintada com as cores da bandeira norte-americana, desfilou pelo Capitólio com um chapéu de pêlo e chifres, muitas vezes ao lado de um outro homem, não identificado, de camisola bege, barba e cabelos compridos.

No peito de Jake Angeli, um símbolo alegadamente "utilizado por pedófilos que gostam de rapazes novos" é, na verdade, um conjunto de três triângulos intercalados, comumente identificado como "Valknut". Uma pesquisa mais aprofundada sobre este símbolo leva-nos ao paganismo alemão e à apropriação deste e de outros ícones por nacionalistas brancos. Angeli tem ganho notoriedade em vários protestos pró-Trump e autodenomina-se como "Q Shaman", em referência ao movimento das teorias da conspiração "QAnon", que subscreve e promove ativamente.  

Ainda na mesma fotografia, a mão de um segundo invasor parece estar tatuada com uma foice e um martelo, símbolos representativos da classe trabalhadora e do comunismo, corrente ideológica de esquerda. Mais uma vez, e se olharmos com atenção, o desenho é, na verdade, o logotipo de um videojogo, desenvolvido pela Arkane Studios, subsidiária francesa da Xbox Game Studios. "Dishonored" foi lançado em 2012 e a "marca do Outsider", como é chamada no jogo, é um símbolo sobrenatural atribuído a Corvo Attano, o protagonista, pela figura conhecida como “The Outsider”. Este desenho nunca esteve, de resto, associado a uma posição política ou a algum tipo de conspiração.

http://videos.sapo.pt/1ZjFPtytsuKpzuJSP99V

Outras alegações infundadas sobre a presença de "antifas" na invasão do Capitólio foram difundidas por Mo Brooks, membro do Partido Republicano, através da sua conta de Twitter. "Por favor, não sejam como a #FakeNewsMedia, não se apressem a julgar o ataque ao Capitólio. Esperem por investigação. Nem tudo pode ser (e provavelmente não é) o que parece. Crescem as evidências de que os fascistas antifa orquestraram o ataque ao Capitólio com táticas inteligentes de controlo da multidão", pode ler-se em tweet publicado a 7 de janeiro.

Na verdade, a falta de provas que indiquem a presença de "antifas" na invasão é inteiramente compensada pela abundância de evidência relativa à presença de apoiantes de Trump. Fotografias e vídeos  mostram chapéus, bandeiras e t-shirts pró-Trump a serem utilizados por um grande número de invasores. Impressa nos objetos, a frase mais comum: "Make America Great Again".

Algumas horas depois do ataque, a teoria aqui desmentida tinha sido largamente espalhada pelas redes sociais. Uma análise da NBC News refere que foram identificados milhares de tweets que acusavam membros da "Antifa" de se fazerem passar por apoiantes de Trump.

Em suma, é falso que os protestos no Capitólio da passada quarta-feira, 6 de janeiro, tenham sido protagonizados por "antifas", como aliás tanto o PolitiFact como o Alabama Political Reporter já tinham comprovado.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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