O meme circula no Facebook, é uma espécie de mensagem motivacional para aqueles que possam já ter perdido a esperança na possibilidade de mudar de vida: “Caso penses que és velho ou que é tarde de mais: aos 43 anos, ele (Samuel L. Jackson) era um ator desconhecido, viciado em heroína. A sua filha de oito anos encontrou-o inconsciente, no chão, o que o fez entrar na reabilitação. Depois de recuperado, Spike Lee (cineasta) contratou-o para uma personagem viciada em crack, no filme “Febre da Selva”. O papel foi tão catártico, que se tornou na principal motivação para se manter longe do consumo, o que o levou ao papel em “Pulp Fiction”, que o tornou numa estrela, finalmente, aos 46 anos”. A imagem junta o texto a uma fotografia do ator, onde está a rir, à gargalhada. A par do meme, um dos utilizadores que o partilhou acrescenta: “Porque ele não permitiu que a situação (do consumo de drogas) se tornasse na sua sentença de morte.”

Duas coisas são certas: a primeira é que nunca é tarde demais para recomeçar, nunca é tarde para acreditar e nunca será tarde para mudar; a segunda é que romancear histórias reais para as tornar especialmente inspiradoras, também pode ter um efeito contrário ao desejado. É, precisamente, o que acontece com o relato feito sobre a vida de Samuel Jackson. Na verdade, os factos não são tão dignos de um guião cinematográfico, como a Internet quer fazer parecer.

O site de verificação de factos “Truth or Fiction” ajuda a explicar: se, no episódio em que a filha o encontrou em estado de overdose, a criança tinha 8 anos, o percalço aconteceu no ano de 1990, pois Zoe Jackson nasceu em 1982. Ora, o filme “Febre da Selva” foi lançado em 1991 e é apontado como o ponto de viragem para Jackson, no consumo de drogas, e a alavanca para que depois entrasse em “Pulp Fiction”, deixando, aí, de ser um perfeito anónimo. Até aqui, nada bate especialmente errado.

Porém, a verdade não é exatamente assim. Antes do filme “Febre da Selva”, o ator norte-americano já tinha uma vasta carreira cinematográfica. O registo de Jackson no IMDb, uma base de dados online sobre música e cinema, aconteceu no ano de 1973. Depois, até 1990, Jackson participou em vários filmes de renome, por exemplo, “Um príncipe em Nova Iorque”, ou “Não Dês Bronca”. Aliás, no início da década de noventa, destacou-se com um dos papéis principais em “Tudo Bons Rapazes”, onde fazia de Stacks Edwards. Depois deste filme, e antes de “Pulp Fiction”, ainda brilhou em “Amor à Queima-Roupa” e “Parque Jurássico”.

samuel Jackson
Samuel L. Jackson com John Travolta, em "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino

Foi nesta onda de uma carreira bem sucedida que, em 1991, conheceu Quentin Tarantino, o autor de “Pulp Fiction”. O cineasta criou o papel de Jules propositadamente para Samuel Jackson, pelo facto de o ator ser já bem reputado no mundo do cinema.

Vários conteúdos de órgãos de comunicação social confiáveis também ajudam a provar que o meme é impreciso. Numa entrevista ao jornal “The Guardian”, em 2016, o ator fala do esforço para deixar as drogas em 1991, mas também refere que já tinha uma carreira muito ocupada antes disso. Também um perfil do ator, publicado no site de notícias de entretenimento “Hollywood Reporter”, refere a dependência das drogas e a insistência da mulher para que se desintoxicasse em 1991, mas o artigo caracteriza o ator como “um utilizador funcional de drogas”, o que ajuda a demonstrar que a heroína nunca foi um obstáculo estrutural ao desempenho profissional.

Portanto, o melhor é abrandar o entusiasmo com a história que anda a correr o Facebook, e retirá-la do pedestal para a inspiração. O meme abrange alguns aspetos biográficos da vida, e da carreira de Jackson, para retirar uma conclusão imprecisa. É acertado dizer que o pico da carreira do ator aconteceu depois de “PulpFiciton”, mas é enganoso indicar o seu papel em “Febre da Selva” e a desintoxicação que aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo, como o ponto de viragem e o pilar para o sucesso que se seguiu.

Avaliação do Polígrafo:

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