É como que a continuação da política por outros meios, na senda do estratega militar Carl von Clausewitz, mas neste caso recorrendo a outros meios - breves clips de vídeo difundidos em redes sociais - que não existiam na época histórica do general prussiano. Num conflito assimétrico em que só uma das partes lança insultos, sublinhe-se: André Ventura classifica os adversários da Aliança Democrática (AD) como "mamões", "burlões" e "aldrabões", entre outros epítetos.

Tudo porque terão copiado propostas do Chega, na antecâmara das eleições legislativas que estão agendadas para o dia 10 de março. Ventura filmou-se no interior de um automóvel em movimento e começou por dizer que estava "muito irritado", porque "estes tipos fizeram toda uma nova Convenção, um programa, esta dita AD, tudo a copiar as nossas propostas". O vídeo foi publicado nas suas páginas no TikTok e Instagram a 23 de janeiro e, desde então, já acumula milhares de interações e reações.

"Tudo a copiar as nossas propostas: 15.º mês sem impostos, anunciado por mim há uns dias atrás num almoço do International Club; aumento dos pensionistas, anunciado por mim na Convenção; redução da subsidiodependência, só pode ser para rir, andaram anos, anos a votar contra as nossas propostas para acabar com a subsidiodependência", exemplificou o deputado e líder do Chega.

Por entre gestos acusatórios, Ventura afirma depois que "PSD e PS são a mesma coisa, exatamente a mesma coisa. A única diferença é que nós somos os primeiros a dizer que estes 'mamões' todos que vivem dos rendimentos e dos subsídios é para acabar. Os outros andaram anos a aumentá-los, a expandi-los e a divulgá-los e agora dizem que também vão ajudar a diminuir. São uns burlões, são uns aldrabões".

E assim conclui que "só há uma alternativa no dia 10 [de março], é votar no Chega. Qualquer outra coisa é cópias baratas do Chega. (…) Se querem o original votem em nós. Querem a cópia, votem nessa AD que parece a ressurreição daqueles que já morreram".

Dois dias mais tarde chegou a resposta de Hugo Soares, atual secretário-geral do PSD que, juntamente com o CDS-PP e o PPM, forma a nova AD (coligação entre os três partidos que vai concorrer às próximas eleições legislativas). Também através de um breve clip de vídeo, filmado no interior de um automóvel em movimento e difundido nas redes sociais (neste caso, Facebook e Instagram).

"Acabo de ver um vídeo do André Ventura onde ele se diz irritado. Ele não está irritado, está perdido. Na política, como na vida, não vale tudo", começa por defender Soares. "E a seriedade exige-se, não se apregoa. Demonstra-se".

"Os factos desmentem André Ventura: quem primeiro anunciou um prémio de produtividade equivalente ao valor de um salário anual isento de contribuições e impostos, foi Luís Montenegro em agosto do ano passado. Não foi há 15 dias", exemplifica.

Mais, "quem apresentou a proposta de um rendimento mínimo garantido para os pensionistas, no valor de 820 euros no prazo de uma legislatura, por via da atualização do Complemento Solidário para Idosos, foi Luís Montenegro a 25 de novembro do ano passado. Não foi há 15 dias".

O cabeça-de-lista da AD pelo círculo de Braga sublinha também que "ainda o Chega não existia, já o PSD combatia a subsidiodependência. Temos é que combater a fraude e não fazer disso um discurso populista".

Mas afinal quem é que copiou as propostas de quem?

No que concerne ao denominado "15.º mês", há que recuar até agosto de 2023 como sugere Soares, quando o PSD apresentou cinco medidas "para uma reforma fiscal de fundo", tal como noticiou a RTP na altura.

Uma dessas medidas, de facto, visava "estimular a produtividade" através de uma isenção de IRS e TSU para prémios de produtividade com um valor até 6% do vencimento da remuneração base anual.

Mesmo que o PSD não tivesse avançado com esta proposta em agosto de 2023, não estaria ainda assim a copiar agora o Chega, porque a ideia do "15.º mês" (em versão distinta) ressurgiu em setembro de 2023, por iniciativa da CIP - Confederação Empresarial de Portugal.

Entre as 30 medidas do "Pacto Social" que enviou ao Governo, a CIP propôs "criar o 15.º mês com neutralidade fiscal", ou seja, "o pagamento voluntário pelas empresas do 15.º mês, até ao limite do salário base auferido pelo trabalhador, sem incidência de IRS e exclusão da base de incidência contributiva em sede de Segurança Social".

Aliás, o Chega expressou então o seu apoio à proposta da CIP.

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Quanto ao "aumento" ou "rendimento mínimo garantido para os pensionistas", também se confirma que, em novembro de 2023, o líder do PSD comprometeu-se a "dar a cada português em condição de reforma" um "rendimento mínimo de 820 euros" em 2028, distinguindo rendimento de pensão e mantendo condições para aceder ao Complemento Solidário para Idosos.

De resto, logo em novembro de 2023, Ventura já tinha acusado Montenegro de copiar essa proposta do Chega. Uma acusação que o Polígrafo verificou e classificou como falsa.

Por sua vez, a questão da "subsidiodependência" é mais subjetiva e extravasa o âmbito da verificação de factos. É verdade que Montenegro tem feito referências negativas à "subsidiodependência" nos seus discursos, mas isso não se traduz em propostas concretas que se aproximem das que o Chega defende praticamente desde a sua fundação. Ou seja, é mais uma cópia de retórica do que de propostas.

Neste ponto importa acrescentar que, muitas vezes, ao utilizarem o termo "subsidiodependência", Montenegro e Ventura estão a falar de coisas diferentes. Por exemplo, o líder do PSD costuma apontar para a dependência de Portugal em relação aos fundos da União Europeia, enquanto Ventura tende quase sempre a emparelhar a "subsidiodependência" com os beneficiários de RSI e outros apoios sociais.

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