"Convido os portugueses, eu gostava mesmo que os que nos estão a ver, fossem ver as outras moções de censura que houve no passado. Algumas por causa do desemprego, outras por causa da carestia do custo de vida, e aí toda a gente achava normal. Aliás, o PSD, deixe-me dizer-lhe isto, o PSD votou sempre ao lado das moções de censura do CDS", declarou ontem André Ventura em entrevista à SIC Notícias.

Na véspera da votação da moção de censura ao Governo apresentada pelo partido Chega - com o objetivo de "acabar com a deterioração constante da credibilidade do Governo e o empobrecimento crónico dos portugueses" -, o respetivo líder dedicou grande parte da entrevista a criticar a decisão do PSD (anunciada nesse mesmo dia) de se abster.

"Portanto, agora a questão é porque é que não votam ao lado do Chega? Sabe porquê? É simples. Porque o CDS nunca foi uma ameaça para o PSD. Agora sentem que há uma ameaça, agora sentem que há um partido que faz oposição a sério. E estão com medo. E eu não esperava que Luís Montenegro tivesse medo, esperava que assumisse essa posição de liderança. Mas não assumiu e vai deixá-la para o Chega", garantiu Ventura.

Confirma-se que "o PSD votou sempre ao lado das moções de censura do CDS"?

É verdade que nas duas últimas moções de censura ao Governo apresentadas pelo CDS-PP em 2017 e 2019, então liderado por Assunção Cristas, o PSD votou a favor - na primeira ainda sob a liderança de Pedro Passos Coelho, na segunda já durante a presidência de Rui Rio -, alinhado com o proponente CDS-PP e antigo parceiro de coligações governamentais.

Essas duas moções foram chumbadas no Parlamento, com os votos contra dos deputados de todos os outros partidos.

Recuando no tempo até 2008, porém, deparamos com uma moção de censura apresentada pelo CDS-PP, então liderado por Paulo Portas, que não contou com o voto a favor da bancada parlamentar do PSD.

Estava em funções o Governo liderado por José Sócrates, do PS, baseado numa maioria absoluta ao nível parlamentar, que já tinha superado duas moções de censura (do BE e do PCP) nesse mesmo ano de 2008. Por seu lado, o PSD encontrava-se num processo de sucessão na liderança, entre o demissionário Luís Filipe Menezes e a recém-eleita Manuela Ferreira Leite que ainda não tinha tomado posse como nova presidente do partido.

De facto, no dia 6 de junho de 2008, apenas os 12 deputados do CDS-PP votaram a favor da moção de censura ao Governo, "pelas políticas adotadas em diversos setores da vida portuguesa", tendo o PSD optado na altura pela abstenção.

"Sem nenhum tema dominante, o debate da moção de censura - chumbada, como se esperava, pelo PS e com abstenções de PSD, PCP e 'Os Verdes' - andou à volta dos combustíveis, da contestação social e até dos objectivos da iniciativa do CDS-PP. E ressuscitou o tabu da candidatura de José Sócrates às próximas eleições legislativas. Só os 12 deputados do CDS-PP votaram favoravelmente esta terceira moção ao Governo que foi rejeitada, com 119 votos contra dos deputados do PS e 93 abstenções (72 deputados do PSD, 11 do PCP, sete do BE, dois do Partido Ecologista 'Os Verdes', além da deputada não inscrita Luísa Mesquita)", reportou o jornal "Público" nessa altura.

"No tiro de partida do debate, o líder do CDS-PP, Paulo Portas, fez um balanço de três anos de Governo que ficou marcado por 'sucessivos enganos': do aeroporto da Ota às leis orgânicas das forças de segurança ou à redução do défice feita 'à custa do contribuinte'. 'Não foi o Estado que emagreceu, foi o contribuinte que pagou', disse Portas, que só 'por engano' diz ser possível uma nova maioria socialista. Nos combustíveis, 'o Governo está a cometer um erro grave', acusou, referindo que 'há três anos pagava-se 69 cêntimos de imposto e hoje paga-se 83 cêntimos'", lê-se no mesmo artigo.

De resto, há mais exemplos de moções de censura do CDS-PP que não foram apoiadas pelo PSD, desde logo uma em 1994 contra o Governo liderado por Aníbal Cavaco Silva, precisamente do PSD.

Também em 1984, uma moção de censura do CDS (ainda sem a denominação de Partido Popular), presidido por Francisco Lucas Pires, contra o Governo do "Bloco Central" (coligação entre PS e PSD), liderado por Mário Soares, foi rejeitada com os votos contra dos deputados do PSD, alinhados então com os do PS e do ASDI que, em conjunto, apoiavam o Governo no Parlamento.

Ou seja, ao contrário do que assegurou ontem Ventura, não é verdade que o PSD tenha votado sempre "ao lado das moções de censura do CDS".

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