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André Ventura: “Nunca dissemos que devíamos fechar as portas a quem foge da guerra, fome ou qualquer ataque”

Política
O que está em causa?
Ao discursar ontem em Guimarães, no âmbito da campanha eleitoral do Chega, Ventura garantiu que o seu partido nunca defendeu que se deveria "fechar as portas a quem foge da perseguição, guerra, da fome ou de qualquer tipo de ataque à sua vida ou da sua família", mas "aquilo que era uma imigração localizada, tornou-se uma imigração descontrolada".

Na sequência do discurso proferido na véspera por Pedro Passos Coelho (ex-líder do PSD) num comício da Aliança Democrática, em que associou a imigração à falta de segurança, o tema da imigração dominou a campanha eleitoral de quase todos os partidos ao longo do dia de ontem, 27 de fevereiro. E sendo um tema central no programa e discurso políticos do Chega, naturalmente que André Ventura também abordou o que considera ser o problema da “imigração descontrolada“.

Em Guimarães, falando para os seus apoiantes, o líder do Chega avisou que “o país mudou” e, nesse sentido, desafiou “a direita” para acordar “um pacto sobre imigração”.

Apesar da veemência do discurso, Ventura também ressalvou, adotando um tom mais moderado, que “nós nunca dissemos, em momento algum, que devíamos fechar as portas a quem foge da perseguição, guerra, da fome ou de qualquer tipo de ataque à sua vida ou da sua família.”

Defendeu que isso “é o humanismo de que este país sempre foi feito” e “poucos devem ser os imigrantes que podem apontar-nos o dedo, porque sempre acolhemos bem toda a gente”. Mas voltou a salientar que “o país mudou muito nos últimos meses e nos últimos anos, aquilo que era uma imigração localizada, tornou-se massivamente uma imigração descontrolada”.

É verdade que Ventura e o Chega nunca quiseram “fechar as portas” aos que fogem da guerra, perseguição ou fome?

Começamos por recuar a uma intervenção do mesmo Ventura, num debate com a então ministra das Saúde, Marta Temido, em reunião da Comissão Permanente da Assembleia da República realizada no dia 9 de dezembro de 2021.

Na altura, Ventura criticou o desempenho de Temido, classificando-o como “um desastre” e “trágico”. Já na fase final da intervenção, apontou: “Como é que nós podemos continuar sem dinheiro para contratar médicos e temos tanto dinheiro para desperdiçar em tudo o que não interessa em Portugal, como para acolher refugiados, dar-lhes casas e continuar por aí adiante? Essa é a verdade que custa ouvir, mas é a verdade que os portugueses devem ouvir.”

Mais recentemente, no decurso da II Convenção de Autarcas do Chega, realizada a 12 de março de 2022, o líder do Chega afirmou que estava “do lado daqueles que defendem as fronteiras, a soberania e a civilização” e, neste conflito (invasão da Ucrânia por forças militares da Rússia) “há uma potência agressora e um país que se defende”. Nesse âmbito, assegurou estar “de braços abertos para receber aqueles que fogem da guerra, que fogem do ataque, da fome e da miséria”, como era o caso dos refugiados ucranianos.

Porém, no discurso de encerramento da referida Convenção, Ventura traçou uma distinção entre refugiados: “Estes [os refugiados ucranianos] não são como alguns dos outros refugiados que chegam de iPhone e telefones de alta gama a Portugal, e que vêm para cá viver à custa dos nossos subsídios e dos nossos impostos. Estes são os que precisam de ser apoiados verdadeiramente. E estes também não são aqueles que vêm para cá para tornar as nossas mulheres objetos e obrigá-las a andar de burca na rua e obrigá-las a serem vítimas das suas próprias qualidades.”

À margem de um jantar-comício do Chega em Guimarães, ontem à noite, André Ventura acusou o rival do PSD de ser um "copião", ao prometer que se demitirá "se algum dia tiver que cortar um cêntimo" numa pensão de reforma. O líder do Chega recorda que já tinha dito algo similar há pouco mais de um mês. Confirma-se?

Outro exemplo que contraria a alegação de ontem de Ventura remonta a 2021, quando o próprio defendeu a necessidade de um maior escrutínio ao acolhimento de refugiados, apontando o dedo aos refugiados afegãos.

Em declarações aos jornalistas durante uma ação de pré-campanha para as eleições autárquicas – em que percorreu o Martim Moniz, praça da Figueira e Intendente -, Ventura referiu que o acolhimento de refugiados afegãos “é uma questão que deve ser vista com atenção por parte do Governo português”, para que não haja uma “excessiva islamização das capitais europeias“.

“Não é não sermos solidários, é sermos capazes de ter escrutínio e ter capacidade de filtro em relação a quem vem, e isso não tem acontecido”, afirmou Ventura.

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Avaliação do Polígrafo:

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