Primeiro, foi André Ventura: “Não era o Bloco de Esquerda que acusava o CHEGA de ter contas e perfis falsos? Que irão dizer amanhã?” A acompanhar o tweet, um recorte onde pode ler-se: “Auditoria de seguidores falsos para @EsquerdaNet» [conta no Twitter do Bloco de Esquerda]. Logo abaixo, na mesma captura de ecrã, o resultado que regozija Ventura, e que dá como certo que o BE tem 33,1% de seguidores falsos no Twitter, ou seja, 10.773 contas que, apesar de seguirem o perfil do partido, não pertencem a uma pessoa real. Na imagem, surge também a indicação de que “contas com um tamanho semelhante ao da @EsquerdaNet têm, em média,18,5% de seguidores falsos”, o que parece sugerir que a conta do Bloco tem mais fake followers do que a maioria dos perfis daquela dimensão.

A acusação não ficou sem resposta. Algumas horas depois, o Bloco de Esquerda retaliou, também no Twitter, sem texto, mas com a percentagem de seguidores falsos de André Ventura: 33,4%, correspondentes a 9.087 pessoas - ainda mais do que o Bloco de Esquerda.

O ataque mútuo dos últimos dias tem origem numa polémica que envolveu o Chega no fim de maio, que dá conta que o partido terá vários milhares de contas falsas nas redes sociais para conseguir maior alcance. Mas será que a ferramenta utilizada para avaliar os seguidores falsos, que em ambos os casos é a mesma, é fiável?

 A resposta é não.

Tanto Ventura como Bloco de Esquerda recorreram ao site “SparkToro”, uma página que faz avaliações de seguidores falsos no Twitter de forma gratuita e praticamente instantânea. Ora, estas duas circunstâncias são, desde logo, consideradas problemáticas por Sérgio Silva, CEO da Cybers3c, uma empresa de formação e consultoria em cibersegurança. Ao Polígrafo, o especialista afirma que “o processo de detecção de fake followers no Twitter é extremamente moroso, porque tem de ser feita uma análise com várias ferramentas, tem de se ter algumas métricas”.

Por isso mesmo, a avaliação que Sérgio Silva faz da SparkToro é assertiva: “A ferramenta é duvidosa. Ela só consegue analisar uma parte dos seguidores de determinada conta, porque o Twitter não permite que haja tantos pedidos de análise por parte de uma entidade única num período tão curto de tempo. A ferramenta extrai uma quantidade baixa de followers, analisa e diz, por exemplo, que 30% são falsos, recorrendo a uma extrapolação. A questão é que a amostra que é recolhida pode coincidir com seguidores todos falsos, ou todos verdadeiros, pelo que não corresponde, de maneira alguma, à realidade”.

Para Sérgio Silva, especialista em cibersegurança, “a ferramenta é duvidosa. Ela só consegue analisar uma parte dos seguidores de determinada conta, porque o Twitter não permite que haja tantos pedidos de análise por parte de uma entidade única num período tão curto de tempo.

Em bom rigor, a página da ferramenta usada por Ventura e BE não mente quando revela a metodologia utilizada para alcançar a conta final de seguidores falsos: ”Esta auditoria analisa uma amostra de 2 mil contas aleatórias que seguem a página X, depois tem em conta mais de 25 critérios relacionados com contas robô, de spam e de baixa qualidade. Nenhum destes critérios, sozinho, indica uma conta de baixa qualidade mas, quando muitos critérios estão presentes, há uma forte correlação com baixa qualidade”, ou seja, com uma conta falsa.

Apesar de os parâmetros de avaliação parecerem diversificados, Sérgio Silva não duvida da fragilidade dos mesmos: “Vamos imaginar que há uma conta recente que só faz publicações positivas nas publicações do partido Chega. Pode indiciar que é falsa. No entanto, pode ser algum militante que nunca teve Twitter na vida e que acha importante apoiar aquele partido na rede social.”

Um facto curioso, e que põe também em causa as avaliações utilizadas por BE e Ventura, é o de que outros sites que fazem o mesmo tipo de trabalho apresentarem resultados diferentes. Por exemplo, o “Twitter Audit” contabiliza apenas 6% de seguidores falsos, tanto na conta do BE como na de Ventura. Por isto, para Sérgio Silva, a falta de fiabilidade não é um problema apenas da “SparkToro”, mas uma característica de todas as ferramentas deste tipo: “Se fosse tão simples analisar o que são contas falsas, então elas não iriam existir porque a plataforma (Twitter) chegava e rapidamente apagava as contas falsas.”

Apesar de os parâmetros de avaliação parecerem diversificados, Sérgio Silva não duvida da fragilidade dos mesmos: “Vamos imaginar que há uma conta recente que só faz publicações positivas nas publicações do partido Chega. Pode indiciar que é falsa. No entanto, pode ser algum militante que nunca teve Twitter na vida e que acha importante apoiar aquele partido na rede social.”

Em conclusão, André Ventura e Bloco acusam-se mutuamente de terem mais de 30% de fake followers nas redes sociais, mas para o fazer utilizaram uma ferramenta pouco credível, já que este tipo de plataformas serve-se de uma amostra reduzida de seguidores para fazer a avaliação, e recorre a critérios dúbios para classificar aquilo que é uma conta falsa. Além disso, uma análise confiável a seguidores nas redes sociais é um processo demorado e difícil, até para os donos das plataformas, que naturalmente conseguiriam livrar-se de todos os perfis falsos em poucos segundos, caso fosse assim tão simples encontrar as contas que não pertencem a uma pessoa real.

Avaliação do Polígrafo:

 

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