A canção, gravada por Lenny Kravitz na reta final do século passado, foi editada com o seu nome primeiro em single e só mais tarde, em 1999, passaria a fazer parte do alinhamento de “5”, o quinto disco de originais do americano. Mas serão todos os temas daquele disco originais? Na verdade, não, e a culpa é da canção que entrou sem pedir licença em “5”. O single tinha sido, também, uma das canções da banda sonora original do filme “Austin Power: o espião irresistível” e o êxito obtido levou a editora a rever o alinhamento de “5”.

O reconhecimento obtido pela versão de Kravitz foi, todavia, uma espécie de déjà vu, pois o tema já tinha tido o seu primeiro momento áureo quase 30 anos antes, quando os canadianos The Guess Who o escreveram e gravaram no seu LP “American Woman”, o seu sexto.

A versão de Kravitz, mesmo com os seus riffs de guitarra potentes, é mais lenta e menos musculada que o original e a sua história - uma cover para a banda sonora de uma comédia - também não consegue aproximar-se do enredo que envolveu o nascimento do original.

The Guess Who

American Woman é uma canção de protesto, contra a guerra do Vietname e nasceu na sequência de  uma corda de guitarra partida a meio de um concerto que teve que ser interrompido por força maior. Randy Bachman contou todos os detalhes, numa entrevista ao site Songfacts: “Estava em palco com os The Guess Who. Não tinha guitarra de substituição. Não tinha um afinador. Não tinha um roadie. E parti uma corda. Nesses dias, quando se partia uma corda, o vocalista - que era o Burton Cummings - dizia ‘o Randy partiu uma corda, temos que fazer uma interrupção’”. E assim foi.

Como não tinha afinador, tentou encontrar o som perfeito da guitarra, já com uma corda nova instalada, com a ajuda do piano de Cummings. Eis que, vindo do nada, e apenas com o objetivo de ir ao encontro de um som afinado, surge um riff que volta a chamar a atenção da audiência, já perdida em conversas de circunstância. “Percebi que era um riff que não podia esquecer, por isso tive que continuar a tocá-lo. Levantei-me [estava ajoelhado junto ao piano de Cummings durante a afinação da guitarra] e continuei a tocar o riff. Estava sozinho no palco”, disse Bachman à Songfacts. Olhou para o baterista e fez-lhe sinal para tocar, seguiu-se o baixista e, finalmente, Cummings. E assim se iniciou uma jam session para deleite dos espetadores que estavam a vê-los em Ontario, Canadá.

Bachman grita para Cummings “canta qualquer coisa”. E as primeiras palavras que disparou foram “American Woman, stay away from me”. Um arranjo acidental, uma letra aparentemente irrefletida que acabaria por tornar-se num êxito dos anos 70 e o rótulo que melhor define os The Guess Who. A mulher americana era, afinal, a Estátua da Liberdade e o que ela representava. Os The Guess Who tinham estado em digressão pelos EUA e as autoridades tentaram convencê-los a alistarem-se para combaterem no Vietname - e eles decidiram regressar ao Canadá, claro. “Esse foi o nosso pensamento naquele momento em palco, quando a canção foi escrita”, acrescentou Bachman, que resume, assim, a essência de American Woman: “é basicamente uma canção de protesto anti-guerra onde dizemos ‘We don’t want your war machines, We don’t want your guetto scenes, stay away from me’”.

Para chegar a estúdio a canção necessitaria de mais um elemento, de fulcral relevância: um jovem que estava na plateia com um gravador de cassetes a fazer uma gravação pirata da atuação ao vivo. Foi graças à cassete que conseguiram recuperar todos os acordes tocados naquela noite e que conseguiram, também, reconstruir a letra completa da canção.

À boleia de “American Woman”, os The Guess Who tornaram-se de tal forma famosos nos EUA que acabariam por ser convidados para atuar nos jardins da Casa Branca, com Richard Nixon em primeiro plano. Por pedido expresso da Casa Branca, naquele dia 17 de julho de 1970, não tocaram o seu grande hit por “uma questão de bom gosto”.

Kevin Spacey

Bom gosto não faltou a Sam Mendes que, no seu “American Beauty”, decidiu colocar o ator Kevin Spacey a trautear “American Woman”. Na versão original, naturalmente.

Avaliação do Polígrafo:

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