Há duas coisas que chamam a atenção numa imagem que está a ser partilhada nas redes sociais: a palavra Gesundheitspaβ – que em alemão significa "passaporte de saúde" - e a suástica - símbolo do Partido Nazi alemão. A acompanhar a fotografia surge uma explicação, em jeito de curiosidade: "Você sabia? A Alemanha nazista tinha um Gesundheitspaβ, que era um passaporte de identificação médica usado para segregar sua população".

Será verdade?

Não é bem assim. De facto, o passaporte de saúde existia e era utilizado na Alemanha durante o III Reich, mas não foi criado nessa altura nem tinha como função segregar a população. Luís Edmundo de Souza Moraes, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, explica à Agence France Presse (AFP) que este documento remonta ao século XIX.

"O início da adoção [do certificado de saúde] tem a ver com as viagens", esclarece o historiador. "Em alguns países, no século XIX, usava-se uma carta para isso. A pessoa precisava de viajar e vinha de uma área com algum tipo de epidemia, então o Governo dava-lhe uma carta a dizer que ela estava saudável".

O professor destaca ainda que a existência do símbolo nazi no documento partilhado acarreta um significado negativo que, neste caso, não está associado ao Gesundheitspaβ. A suástica é vista como "símbolo de que é alguma coisa excludente, horrível – e é verdade -, só que neste caso [do Gesundheitspaβ] é um documento burocrático, como uma certidão de nascimento".

"Qualquer documento produzido pela Alemanha nazi entre 1933 e 1945 tinha a suástica, qualquer documento. O atestado de óbito tem, a certidão de nascimento tem", acrescenta.

Além do Gesundheitspaβ, está também a ser partilhada, em algumas publicações, a imagem de um Ahnenpaβ - que em alemão significa “passaporte ancestral”. Ao contrário do Gesundheitspaβ, este documento foi criado pelo Partido Nazi e tinha como objetivo atestar a pureza da linhagem dos alemães.

Ahnenpaβ tinha na sua base ideais racistas, xenófobos e discriminatórios. Este documento "servia como um instrumento de segregação daqueles que não eram considerados puros e daqueles que eram considerados racialmente inferiores", esclarece Souza Moraes.

Também Michel Gherman, historiador e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, considera, em declarações à AFP, que a comparação entre o Ahnenpaβ e os atuais certificados digitais Covid-19 não tem fundamento.

“O objetivo final da Alemanha Nazi - acho que é esse o ponto - é exterminar grupos, e não salvar grupos. Isso tem uma dimensão de negacionismo do Holocausto. Estamos falando de morte, de genocídio, de extermínio, não estamos falando de proteção dos outros, então não tem comparação”, afirma, sublinhado que “é preciso ter muito cuidado porque ao entrar neste debate, entra-se num ponto de relativização do nazismo”.

Não é a primeira vez que imagens de documentos antigos associados ao nazismo ou ao fascismo são comparadas com as medidas de contenção da pandemia de Covid-19, para afirmar que as regras sanitárias estão ao mesmo nível da segregação que existiu naquela altura na Europa. Recentemente, o Polígrafo desmistificou uma publicação que mostrava um alegado “passaporte sanitário” atribuído ao Partido Nacional Fascista de Itália.

___________________________________

Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

Assine a Pinóquio

Fique a par dos nossos fact checks mais lidos com a newsletter semanal do Polígrafo.
Subscrever

Receba os nossos alertas

Subscreva as notificações do Polígrafo e receba os nossos fact checks no momento!

Em nome da verdade

Siga o Polígrafo nas redes sociais. Pesquise #jornalpoligrafo para encontrar as nossas publicações.
Falso
International Fact-Checking Network