A teoria de que o petróleo, o carvão mineral e o gás natural não são combustíveis fósseis circula há vários anos nas redes sociais. Numa publicação partilhada num grupo de Facebook dedicado a negar as alterações climáticas escreve-se que “além da lenha que usamos para as lareiras ou do carvão [vegetal] que usamos para assar sardinhas, fazer churrascos ou assar castanhas, não existem combustíveis fósseis”.

O mesmo post defende que “o petróleo, o carvão mineral e o gás natural são abiogénicos (são inorgânicos, não são fósseis)”. No entanto, esta tese não tem fundamento científico.

Em entrevista ao Polígrafo, o diretor do Instituto de Materiais de Aveiro (CICECO) e doutorado em termodinâmica de petróleo, João Coutinho, começa por explicar que “a lenha e o carvão vegetal não são combustíveis fósseis porque nunca tiveram a decomposição que está associada à formação de um combustível fóssil”. Isto é, “são compostos e são combustíveis de origem vegetal, biológica, mas não fóssil”.

“O conceito de fóssil é uma coisa que já passou há muito tempo e que foi transformada quimicamente pelo tempo e pelas condições a que foi submetida. Uma árvore que está no jardim não é um fóssil, mesmo que eu a deite abaixo. E o carvão que resulta da queima dessa árvore também não é um fóssil”, sustenta.

Quanto ao petróleo, o especialista adianta que a teoria de que este combustível seria de origem abiogénica (não biológica) foi “uma ideia extremamente aliciante, mas que se veio a revelar infundada”. Coutinho recorda que a tese mereceu particular interesse “nos anos 1950 e houve algum recrudescimento do interesse no final do século XX, início do século XXI, quando se começou a discutir a questão do pico do petróleo”. “Muita gente começou a dizer que não ia haver um pico de petróleo porque há uma parte que é de origem abiogénica. E, assim sendo, ia continuar a ser produzido. Entretanto, praticamente todas as regiões do mundo passaram por um pico de petróleo, e os reservatórios não continuaram a encher-se”, acrescenta.

“O conceito de fóssil é uma coisa que já passou há muito tempo e que foi transformada quimicamente pelo tempo e pelas condições a que foi submetida. Uma árvore que está no jardim não é um fóssil, mesmo que eu a deite abaixo. E o carvão que resulta da queima dessa árvore também não é um fóssil”, sustenta.

Por isso, o especialista considera ser evidente o “falhanço” desta teoria, dado que “aquilo que ela previa não aconteceu”. Para mais, o cientista reitera que as teorias abiogénicas em relação ao petróleo “não fazem sentido”, porque “tentam explicar como seria possível formar líquidos através de gases, mas não conseguem nunca explicar a complexidade do petróleo”.

No mesmo plano, Coutinho esclarece que a ciência concorda que tanto o carvão mineral quanto o petróleo são combustíveis fósseis. No caso do petróleo, um químico consegue identificar moléculas fósseis nas moléculas que o constituem, bem como “reconhecer o tipo de plantas de onde elas provêm”. “Nós somos capazes de dizer se um petróleo se formou em terra ou no mar simplesmente olhando para o tipo de moléculas que estão ali presentes, que são moléculas afins a organismos marinhos ou moléculas afins a organismos terrestres”, sublinha.

“A lenha e o carvão vegetal não são combustíveis fósseis porque nunca tiveram a decomposição que está associada à formação de um combustível fóssil”.

Quanto ao carvão mineral, o especialista garante que “associados aos depósitos de carvão temos associados fósseis de plantas”. Aliás, mesmo um leigo que visite um destes depósitos poderá detetar, em alguns casos, “restos das plantas marcadas na rochas” que deram origem àquele combustível.

Já no que diz respeito ao gás, Coutinho assegura não haver “dúvida de que há metano de origem abiogénica”, tanto no espaço como na Terra, mas frisa que “os grandes depósitos de gás que nós usamos são todos de origem biogénica”. “O metano de origem abiogénica é uma curiosidade geológica que existe em determinadas regiões, que se liberta, mas não em quantidade que justifique uma exploração”, conclui.

Por fim, e tendo em conta que o texto foi partilhado num grupo negacionista das alterações climáticas, Coutinho destaca que, mesmo que se provasse que a origem abiogénica do petróleo, isso seria “completamente irrelevante” já que a queima deste combustível continuaria a emitir CO2 e a contribuir para as mudanças no clima.


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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

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