As partilhas do artigo já chegaram a Portugal, como por exemplo num post de 30 de junho no Facebook em que se destaca que "62% das alegadas mortes de Covid-19 são pessoas que foram injetadas". O artigo em língua inglesa tem o seguinte título, em tradução livre: "Enquanto estavas a ser distraído pelo 'caso Hancock', o PHE divulgou um relatório que revela que 62% das alegadas mortes por Covid-19 são de pessoas que foram vacinadas".

A teoria de conspiração aponta para uma manobra de distração que terá sido criada para que a imprensa desviasse as atenções do relatório publicado pelo PHE. Essa manobra consistiu na divulgação de imagens do ministro da Saúde, Matt Hancock, a beijar uma sua assessora, Gina Coladangelo, quebrando as regras de distanciamento físico inerentes à pandemia de Covid-19. O caso aconteceu mesmo e forçou Hancock a demitir-se do cargo.

Quanto ao relatório em causa, também existe (pode consultar aqui), na forma de um briefing técnico que o PHE publicou no dia 25 de junho de 2021. Apresenta o seguinte título: "SARS-CoV-2 - Variantes de preocupação e variantes sob investigação na Inglaterra".

De acordo com o relatório do PHE, do total de 117 mortes por Covid-19 (exclusivamente da variante Delta) registadas desde o dia 1 de fevereiro de 2021 na Inglaterra, três envolveram pessoas cuja vacinação era desconhecida (ou seja, não se sabe se tinham ou não sido vacinadas contra a Covid-19), 70 eram pessoas que tinham recebido pelo menos uma dose de vacina (61% dos 114 casos em que se dispunha de tal informação) e 44 eram pessoas que não tinham sido vacinadas, de todo (29%). Entre as 70 vacinadas com pelo menos uma dose, 50 tinham sido inoculadas com duas doses (ou unidose) de vacina contra a Covid-19.

Há desde logo aqui vários elementos a ter em atenção: as vacinas contra a Covid-19 têm maior ou menor eficácia, dependendo do modelo, mas mesmo as que são mais eficazes não garantem uma proteção a 100%; a variante Delta diminui essa proteção, não sendo ainda conhecido em que percentagem relativamente a cada modelo de vacina; a toma de uma dose assegura apenas uma parte dessa proteção, dependendo também do número de dias que passaram desde a inoculação.

De resto, o mesmo relatório do PHE indica que duas doses de vacina contra a Covid-19 providenciam uma elevada proteção relativamente à possibilidade de internamento hospitalar com a variante Delta do SARS-CoV-2. E analisando os dados da evolução da pandemia no Reino Unido verifica-se uma quebra evidente da mortalidade por Covid-19 com o desenvolvimento do processo de vacinação.

No post sob análise não se faz referência ao facto de se tratar das mortes por Covid-19 registadas desde o dia 1 de fevereiro de 2021 na Inglaterra, parecendo que são todas as mortes desde o início da pandemia ou desde o início da vacinação. Mais, também não se faz referência ao facto de serem exclusivamente as mortes associadas à variante Delta do SARS-CoV-2.

Embora remeta para um relatório do PHE que realmente existe, deturpa a informação (sobretudo omitindo elementos fundamentais para a compreensão da mesma) e apresenta-a de forma enganadora, resultando em desinformação.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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Falso
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