Entre as muitas publicações que circulam nas redes sociais sobre o Covid-19, um novo artigo que começou a ser partilhado em fevereiro e que entretanto se tornou viral garante que um “médico chinês diz que pele negra resiste ao coronavírus”.

Este conteúdo apresenta o caso de um jovem camaronês que estuda na China e que, depois de ter sido infetado pelo novo coronavírus, “foi libertado do hospital” completamente “curado".

“Médicos que procuravam uma cura para tratar o terrível vírus ficaram surpresos ao ver Senou ainda vivo e em forma, mesmo depois de contrair o vírus”, pode ler-se na publicação, que aponta a “composição genética no sangue” do paciente como a principal razão para esta cura milagrosa.

“Os médicos chineses confirmaram que Senou permaneceu vivo por causa de sua composição genética no sangue, que é encontrada principalmente na composição genética dos africanos subsaarianos. Os médicos chineses também disseram que ele permaneceu vivo porque tem pele negra, os anticorpos de um preto são três vezes mais fortes, poderosos e resistentes do que os brancos”, é argumentado no artigo.

Será?

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Esta informação é falsa: a pele negra não tem anticorpos “mais fortes, poderosos e resistentes” e não cura o Covid-19. “Não existe evidência científica que apoie este rumor”, disse à AFP Amadou Alpha Sall, diretor do Instituto Pasteur em Dakar, no Senegal. “Etnicidade e genética não têm influência na recuperação do vírus, e as pessoas negras não têm mais anticorpos que as pessoas brancas”, esclareceu ainda o diretor, no que é secundado pela Direcção-Geral da Saúde, consultada pelo Polígrafo no âmbito da parceria que as duas entidades estabeleceram a propósito da desinformação disseminada sobre o novo coronavírus (leia aqui os detalhes do acordo)

Também Omolade Awodu, professora de hematologia da Universidade de Benin, na Nigéria, revelou ao Africa Check que nunca encontrou “nenhum estudo que afirme que a composição do sangue africano ou da pele negra resiste ao coronavírus”, deixando, no entanto, a ressalva de que se trata de “um vírus novo e que muito pouco se sabe sobre ele”.

Esta informação é falsa: a pele negra não tem anticorpos “mais fortes, poderosos e resistentes” e não cura o COVID-19. “Não existe evidência científica que apoie este rumor”, disse à AFP Amadou Alpha Sall, diretor do Instituto Pasteur em Dakar, no Senegal. “Etnicidade e genética não têm influência na recuperação do vírus, e as pessoas negras não têm mais anticorpos que as pessoas brancas”, esclareceu ainda o diretor, no que é secundado pela Direcção-Geral da Saúde, consultada pelo Polígrafo.

Porém, à semelhança de muitas fake news que aparecem nas redes sociais, existe uma parte verdadeira neste artigo: Kem Senou Pave Daryl, de 21 anos, natural dos Camarões, foi de facto infetado com coronavírus na China, onde está atualmente a estudar. O jovem esteve em isolamento durante 13 dias num hospital chinês, tendo sido submetido a um tratamento à base de antibióticos e medicamentos tipicamente utilizados para tratar pacientes seropositivos. Ao fim das duas semanas, Senou começou a mostrar sinais de recuperação e, depois de ter sido feito um TAC, os médicos chegaram à conclusão de que o jovem estava curado, noticiou a BBC.

A epidemia de COVID-19 começou em Wuhan, na China, e até ao início de março, segundo relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS), já se propagara a 72 países. O continente africano é um dos que menos casos registou: até ao dia 3 de março tinham sido identificados casos positivos de COVID-19 em 6 países – Egipto, Tunísia, Marrocos, Algéria, Senegal e Nigéria – tendo o Egipto sido o primeiro a confirmar casos.

O coronavírus “pode ser transmitido de pessoa para pessoa através de gotículas do nariz ou boca que são espalhadas quando uma pessoa com COVID-19 tosse ou espirra”, pode ler-se na página de esclarecimentos da OMS. Além disso, poderá também existir contágio por contacto indireto – uma vez que o vírus sobrevive em superfícies durante algumas horas –, pelo que é aconselhável lavar frequentemente as mãos e evitar tocar nos olhos, nariz e boca.

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Nota editorial: Este texto foi produzido pela redação do Polígrafo e cientificamente validado pela Direção-Geral da Saúde, no âmbito de uma parceria estabelecida entre as duas entidades a propósito de um tema que se reveste de um inquestionável interesse público.

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Avaliação do Polígrafo:

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