O perigo que você nunca soube sobre a cebola”. Este é o título de uma publicação que está a tornar-se viral no Facebook e WhatsApp. Segundo o texto da publicação em causa, “é perigoso cortar uma cebola e consumi-la no dia seguinte” porque “a cebola se torna altamente venenosa, mesmo depois de uma noite única, e cria bactérias tóxicas” que “podem causar infeções do estômago”.

No texto conta-se uma história que remonta a 1919, época em que “a gripe matou 40 milhões de pessoas”. Um médico anónimo terá visitado uma região incógnita e ao falar com um fazendeiro, também ele desconhecido, descobriu que a família utilizava cebola cortada em pratos para se protegerem da gripe, pois esta atraía as bactérias do ar.

“O médico não podia acreditar no que ouviu. Pediu ao fazendeiro para lhe entregar uma das cebolas que estava usando e pôs sob seu microscópio, quando então observou enorme número de bactérias da gripe ali acumulados”, lê-se no texto. Posteriormente é revelado que as cebolas funcionam como um íman para as bactérias.

“Nunca mantenha cebolas fatiadas para serem usadas no dia seguinte, mesmo que colocadas em sacos fechados, herméticos ou na geladeira. Seu consumo deve ser imediato, [uma] vez que pode ser um perigo consumi-las a posteriori”, alerta-se na publicação. “A cebola se torna altamente venenosa, mesmo depois de uma noite única, e cria bactérias tóxicas. Estas bactérias podem causar infeções do estômago adversos por causa de secreções biliares em excesso e intoxicação alimentar”.

A história da cebola que atrai as bactérias da gripe é falsa e antiga, circulando nas redes sociais pelo menos desde 2009 - com algumas variações ao longo dos anos, segundo indica a "Boatos.org", plataforma brasileira de fact-checking. “Em 2013, foi a mensagem central é que ‘cebola previne gripe’ e a primeira frase era ‘Taí uma coisa que nós fazemos e é tão perigosa! CEBOLAS! Eu nunca tinha ouvido essa!’. Em 2017, o foco estava nas ‘cebolas cortadas’ e a primeira frase era a mesma. Neste ano [2018], o assunto e a primeira frase são ‘Cuidado com as cebolas’. De resto, o texto e os motivos são rigorosamente iguais aos das outras situações”, explica-se nesse artigo de verificação de factos.

Mas analisemos a história apresentada na publicação: antes de mais, não existe qualquer tipo de fonte citada e todas as personagens envolvidas são anónimas ou já não estão cá para se pronunciarem. Se um médico tivesse encontrado uma forma de prevenir a gripe seria reconhecido entre a comunidade científica. No entanto, não existe qualquer estudo que comprove que a cebola atrai bactérias, como é afirmado no texto.

O único dado que poderia ser utilizada para identificar o país onde aconteceu esta história seria a informação de que “a gripe matou 40 milhões de pessoas”. De acordo com um artigo publicado pela Universidade de Stanford, EUA, a pandemia da gripe pneumónica de 1918-1919 matou entre “20 e 40 milhões de pessoas” ao nível mundial, pelo que também não é possível identificar o país de origem da história.

Há mais falhas: a gripe é uma doença viral, ou seja, é causada pela presença de um vírus e não de bactérias. A gripe é “uma infeção viral dos pulmões e das vias áreas” causada “por um vírus da gripe”, pode ler-se no Manual MSD. “O vírus é transmitido por inalação de gotículas provenientes da tosse ou dos espirros de uma pessoa infetada, ou pelo contacto direto com as secreções nasais da pessoa infetada”, explica-se no manual médico.

Existe uma relação entre a cebola e o combate à gripe que está muito ligada aos remédios caseiros. A razão pode justificar-se com a existência de vitamina C nestes legumes. Contudo, isso não significa que comer cebola ou beber chá de cebola seja um tratamento eficaz contra a doença. É sempre aconselhável procurar uma opinião médica especializada no tratamento de qualquer enfermidade.

No que concerne ao perigo de consumir cebola de um dia para o outro - o principal foco desta publicação falaciosa - trata-se também de uma mentira. A cebola não se torna tóxica com o passar de uma noite, embora se deva ter sempre em atenção a forma como são conservados os alimentos, seguindo as indicações referentes à conservação e aos prazos de validade, para evitar que se estraguem.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falso: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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