O facto: Entre 1950 e Julho de 1980, Francis Joseph Sheeran (1920-2003), conhecido como Frank "The Irishman" Sheeran, trabalhou ao serviço do crime organizado de Filadélfia, primeiro como camionista, depois como homem de mão da família Buffalino, a mais importante da máfia ítalo-americana da Pensilvânia nesse período. Foi guarda-costas de Jimmy Hoffa, o carismático líder do mais poderoso sindicato dos EUA no pós-guerra, o IBT (International Brotherhood of Teamsters), entre o início dos anos 60 e 30 de Julho de 1975, quando Hoffa desapareceu em Bloomfield, no Michigan - seria declarado morto in absentia sete anos mais tarde.

Através das suas ligações à Máfia, sobretudo graças ao relacionamento de amizade com Russell Buffalino mas também em colaboração próxima com outros 'padrinhos' e caporegime como Anthony "Fat Tony" Salerno, de Nova Iorque, e Anthony "Tony Pro" Provenzano, em New Jersey, Frank Sheeran seria peça central na corrupção do sindicato dos "Teamsters", como provaram em parte os processos-crime que lhe foram movidos pelo governo norte-americano no âmbito do Racketeer Influenced and Corrupt Organizations Act (RICO).

Em 2004, pouco depois da morte de Sheeran com 83 anos a 14 de Dezembro de 2003, o advogado e ex-procurador do Ministério Público Charles Brandt, que se tornara amigo e confidente de Sheeran nos últimos anos de vida deste, assinou um livro de não-ficção, "I Heard You Paint Houses" editado pela Steerforth Press (chegou a estar na lista de best-sellers do "New York Times") baseado nas memórias de quatro décadas de criminalidade de Sheeran. No livro, o antigo guarda-costas alega ter assassinado dezenas de pessoas, entre elas Jimmy Hoffa.

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O filme: No final da II Grande Guerra, onde servira como fuzileiro nas campanhas aliadas em Itália - cumpriu 411 dias de combate - Frank Sheeran (Robert De Niro, com 74 anos e usando plataformas nos sapatos; o verdadeiro Sheeran tinha 1,93m, De Niro mede 1,77m), após um período como condutor de camiões de transporte de carne, envolve-se com Russel Buffalino (Joe Pesci, também aos 74 anos) e Angelo "the Gentle Don" Bruno (Harvey Keitel, 78), das cúpulas da máfia de Filadélfia, tornando-se extorsionista e assassino ao serviço da Máfia local.

Através da amizade com Buffalino, Sheeran é aconselhado a Jimmy Hoffa (Al Pacino aos 77 anos), presidente do sindicato dos Teamsters, com mais de um milhão de sócios condutores e camionistas e um fundo de pensões avaliado em mais de mil milhões de dólares. As famílias de Hoffa e Sheeran tornam-se próximas e, durante década e meia, Sheeran será o guarda-costas pessoal do sindicalista, fazendo o trabalho sujo (chantagens, extorsão, bombas intimidatórias). Quando os interesses da Máfia e do sindicato colidem, Hoffa, perdendo poder nos Teamsters, farta-se dos empréstimos feitos através do chorudo fundo de pensões a Russell Buffalino e, sobretudo, a Anthony Provenzano (Stephen Graham), no que será a sua desgraça final: por ordem de Buffalino, Sheeran vê-se obrigado a matar aquele que se tornara o seu amigo mais próximo, após a marcação de um falso encontro para promover tréguas entre Hoffa e Provenzano.

Longa-metragem realizada por Martin Scorsese ("Taxi Driver", "Tudo Bons Rapazes", "A Última Tentação de Cristo") e escrita por Steven Zaillian ("A Lista de Schindler", "Gangs de Nova Iorque"), "The Irishman" é uma adaptação de "I Heard You Paint Houses", o livro de memórias de Frank Sheeran da autoria de Charles Brandt.

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Depois de uma década de tentativas de financiamento e montagem do projecto por Scorsese e Robert De Niro, seu principal proponente desde Julho de 2009 e o primeiro a interessar-se pela vida e figura de Sheeran, a dupla garantiria luz verde do serviço de streaming Netflix para um filme de 209 minutos, com produção avaliada oficialmente em 159 milhões (algumas fontes garantem ter chegado perto dos 200 milhões).

Boa parte de tão inflacionado orçamento deve-se à necessidade, por motivos de verosimilhança da intriga, do rejuvenescimento dos personagens, uma vez que o arco dramático de livro e filme acompanha os protagonistas desde finais dos anos 40 até ao início dos século XXI (no caso de De Niro/Sheeran, até 2003),  com os principais actores já septuagenários - Harvey Keitel fez entretanto 80 anos, e Pacino completará 80 em Abril próximo.

Rodado em película de 35 mm entre 18 de Setembro de 2017 e 5 de Março de 2018, "The Irishman", depois de várias negociações entre a Netflix e redes físicas de distribuição comercial, acabaria por ter um lançamento muito limitado nas salas de cinema dos EUA (obrigatório para tornar a longa-metragem elegível à próxima edição dos Óscares), após estreia mundial a 27 de Setembro de 2019 no Festival de Cinema de Nova Iorque. A exibição em sala manteve-se minimal em dezenas de países, não estreando comercialmente em muitos outros, incluindo Portugal, onde as tentativas de distribuidoras/exibidoras nacionais como a Midas não obtiveram resposta positiva do produtor.

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"The Irishman" ficou disponível globalmente para streaming na Netflix a 27 de Novembro de 2019.

Baseado sobretudo numa única fonte - o relato de Frank Sheeeran da sua vida e acções através de entrevistas concedidas a Charles Brandt e vertidas na narrativa póstuma de "I Heard You Paint Houses" -, "The Irishman" é um épico realista, em tons melancólicos, por vezes fúnebres, de um percurso biográfico altamente polémico e sujeito a controvérsias.

A maioria dos episódios relatados na longa-metragem não foi - e, em vários casos, nunca poderá ser - corroborada por outras fontes (sobretudo no que diz respeito à autoria do presumível assassinato de Jimmy Hoffa, que Sheeran confessou, já muito doente com um cancro, a Brandt). Mais: viu-se liminarmente negada por investigadores independentes, relatórios policiais e especialistas na história da máfia ítalo-americana. 

- De acordo com Sheeran, este terá estado envolvido em várias execuções sumárias de prisioneiros de guerra alemães e italianos durante a sua longa campanha europeia ao serviço dos Aliados na II Guerra Mundial (não há provas, mas a prática não é estranha a alguns episódios verídicos). Segundo o irlandês, isso ter-lhe-á criado as condições psicológicas para, mais tarde, tornar-se um assassino a soldo da Cosa Nostra. Como relata em "I Heard You Paint Houses", as instruções mortais que recebia dos padrinhos da Máfia "eram como quando um oficial do exército me dizia na guerra para pegar num punhado de prisioneiros alemães e 'voltar depressa'. Fazias o que tinhas a fazer".

- Também é verdade que Sheeran começou com pequenos roubos e desvios de dinheiro no regresso à vida civil, enquanto camionista na Pensilvânia. Mas em "I Heard You Paint Houses", o criminoso assegura ter começado logo nesse período a assassinar gente, e que terá sido essa frieza, eficácia e desenvoltura a chamar a atenção dos líderes da máfia de Filadélfia. Não há qualquer prova de que isso tenha acontecido.

A maioria dos episódios relatados na longa-metragem não foi - e, em vários casos, nunca poderá ser - corroborada por outras fontes (sobretudo no que diz respeito à autoria do presumível assassinato de Jimmy Hoffa, que Sheeran confessou, já muito doente com um cancro, a Brandt).

- Ao contrário do que Sheeran reclama (no livro como no filme), também não existe qualquer prova de que tenha sido ele a matar o mafioso Joseph "Crazy Joe" Gallo. As pistas e os testemunhos disponíveis, aquando da investigação ao homicídio de 7 de Abril de 1972 no restaurante Umberto's Clam House, em Manhattan, Nova Iorque, sugerem que Gallo terá sido liquidado por quatro assassinos ao serviço da família Colombo, rival do clã a que "Crazy Joe" pertencia. A maioria dos factos, embora a autoria do homicídio nunca tenha sido formalmente atribuída, aponta para Carmine "Sonny Di Pinto" Biase, 'soldado' da família Colombo, como principal atirador, nunca para Sheeran enquanto atirador isolado.

Uma ex-editora do "New York Times", preferindo manter o anonimato, testemunhou a Charles Brandt e a um repórter da revista "Slate" que, estando presente nessa noite no Umberto Clam's House, ficou convencida de que fora Sheeran o atirador, após ver - 32 anos depois do homicídio - uma foto do irlandês.

Brandt também assegura que o detective Joe Coffey, da polícia de Nova Iorque, concordou que Gallo deverá ter sido assassinado "por um homem grande, não-italiano". Porém, na sua autobiografia de 1992, "The Coffey Files", o detective escreve que, à época dos factos, informadores lhe garantiram que Gallo tinha sido morto por Carmine Biase. Enquanto testemunha do governo no âmbito de uma investigação ao sucedido, Joseph "Joe Pesh" Luparelli, membro da família Colombo, declarou igualmente que Gallo fora assassinado por Biase e por três outros membros do clã.

Sina Essary, viúva de Gallo presente no momento do assassinato - comemoravam nessa noite o 43º aniversário do mafioso -, disse recentemente à revista "Slate" que os homicidas (segundo ela foram vários) eram "italianos pequenos, baixos e gordos".

O guarda-costas de Gallo, Pete "The Greek" Diapoulas, também no restaurante e igualmente baleado pelos atiradores (sobreviveria),  garantiu ao repórter do "New York Times" Nicholas Gage que o homicida era Carmine Biase. Gage, que passou décadas a cobrir a actividade da máfia nos EUA e é autor do livro de investigação "The Mafia Is Not an Equal Opportunity Employer" (McGraw-Hill, 1971), afirmou publicamente sobre o livro de Brandt: "não li o guião (de "The Irishman"), mas o livro no qual o filme se baseia é a mais fabricada história da máfia desde a falsa autobiografia de Lucky Luciano há 40 anos".

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- Para além da confissão de Frank Sheeran a George Brandt em "I Heard You Paint Houses" de que terá sido ele a assassinar Jimmy Hoffa, não há qualquer outro testemunho que o sugira ou alguma prova que o confirme. Pior: anos antes da publicação do livro em 2004, o próprio Sheeran garantiu que isso era falso.

Em 2005, quase 30 anos depois dos factos relatados no livro, o FBI recolheu 28 pequenos indícios de sangue na casa onde Sheeran jura ter morto Hoffa, conseguindo extrair DNA de duas das manchas. O DNA não era o de Hoffa.

Isto não exclui que Sheeran tenha, ou possa ter tido, alguma cumplicidade no desaparecimento de Hoffa nos arredores de Detroit (o corpo nunca foi encontrado). Sheeran é um dos doze nomes citados como possíveis envolvidos na cilada ao líder sindical no relatório de então do FBI sobre o possível homicídio, o memorando Hoffex. No entanto, a única referência directa a Sheeran é "sabe-se que estava nas imediações de Detroit por alturas do desaparecimento de Hoffa, e que era amigo próximo deste".

Após 57 páginas de memorando, o seu autor, o agente do FBI Robert Garrity, conclui que terá sido Salvatore "Sally Bugs" Briguglio (interpretado por Louis Cancelmi e mero cúmplice do ardil a Hoffa em "The Irishman") a "envolver-se no desaparecimento propriamente dito de Hoffa".  Quando questionado sobre o assunto, anos antes da publicação de "I Heard You Paint Houses", Sheeran respondeu que tinha sido Salvatore Briguglio o autor do homicídio.

De acordo com as fontes disponíveis, o mais provável é Sheeran ter contribuído - pelo relacionamento cúmplice com o líder dos Teamsters - para diminuir a desconfiança de Hoffa relativamente à reunião que, tudo indica, ditaria o seu destino.

Para além da confissão de Frank Sheeran a George Brandt em "I Heard You Paint Houses" de que terá sido ele a assassinar Jimmy Hoffa, não há qualquer outro testemunho que o sugira ou alguma prova que o confirme. Pior: anos antes da publicação do livro em 2004, o próprio Sheeran garantiu que isso era falso.

A propósito deste ponto capital do testemunho de vida de Frank Sheeran, Charles Brandt assegurou que o jornalista Steven Brill, autor de "The Teamsters" (Simon & Schuster, 1978), uma longa investigação ao sindicato presidido por Jimmy Hoffa, lhe confidenciara que Sheeran também lhe teria dito que fora ele o assassino de Hoffa.

Já este ano, Brill respondeu à revista "Slate" que "isso é totalmente mentira. Nunca falei com Sheeran". Selwyn Raab, também jornalista, especialista em crime organizado ao serviço do "New York Times" e autor de "Mob Lawyer" (Scribner, 1994), a biografia de Frank Ragano, um dos advogados que representara Jimmy Hoffa, afirma que, até agora, não menos de 14 pessoas já confessaram ter assassinado o lendário líder sindicalista.

- Todas as evidências apontam para que o próprio título do livro seja falso. "Ouvi dizer que pintas casas" é a primeira frase que Jimmy Hoffa diz a Sheeran quando se conhecem ao telefone, no livro como no filme. É ainda menos verosímil que seja Hoffa a dizê-lo.

No filme, Sheeran confirma que "I Heard You Paint Houses" era calão entre os mafiosos da Pensilvânia para designar os hitmen a soldo - a analogia parte do sangue expelido pelas vítimas no momento em que são baleadas. Porém, jamais um estudioso, historiador ou jornalista especializado na máfia ítalo-americana alguma vez ouviu a expressão, em milhares de escutas, entrevistas e conversas gravadas.

- Não há provas que confirmem Frank "The Irishman" Sheeran como autor de um único homicídio entre as dezenas (25 a 30 assassinatos) que o mafioso assegura - no livro e no filme - ter cometido.

Avaliação do Polígrafo:

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